Fluxo de R$ 18 milhões entre Master, JBS e consultoria que paga filho de Nunes Marques alimenta dúvidas sobre conflito de interesse

Com 1 ano de OAB, filho de ministro afirma ter 500 clientes e 1 mil processos; Coaf aponta origem duvidosa dos recursos

Fluxo de R$ 18 milhões entre Master, JBS e consultoria que paga filho de Nunes Marques alimenta dúvidas sobre conflito de interesse

Filho de ministro do STF recebe R$ 281 mil de consultoria financiada por JBS e Master

Com apenas 1 ano de OAB, Kevin Marques afirma ter 500 clientes e 1 mil processos resolvidos; relatórios do Coaf apontam fluxo financeiro entre empresas bilionárias e seu escritório em Brasília

Brasília — Uma investigação revela que o advogado Kevin de Carvalho Marques, de 25 anos e filho do ministro Kassio Nunes Marques do Supremo Tribunal Federal (STF), recebeu R 18 milhões do Banco Master e da JBS. Os dados constam de relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão vinculado ao Ministério da Fazenda.

O advogado tem registro na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) há apenas um ano. Apesar disso, afirmou em um site — posteriormente apagado — que já teria resolvido mais de 1 mil processos e conquistado mais de 500 clientes. A assessoria do jovem advogado informou que a página foi publicada “por engano” e continha informações preliminares. Kevin Marques utiliza escritório localizado no Lago Sul de Brasília, endereço que pertence à sua tia.

Os fluxos financeiros levantaram alerta do próprio Coaf. Segundo os relatórios, as transações foram classificadas como “incompatíveis com a capacidade financeira” da empresa de consultoria, indicando que “alguns dos valores podem ter origem não formal”. A consultoria que fez os pagamentos a Kevin, a Consult Inteligência Tributária, declarava faturamento anual de apenas R 18 milhões recebidos do Banco Master e da JBS.

Kevin afirmou que sua atuação foi voltada para “fisco administrativo” e que todos os pagamentos são lícitos, decorrentes de serviços técnicos prestados. A defesa não explicou por que uma empresa com faturamento de R 18 milhões de duas das maiores empresas do Brasil simultaneamente.

Os números que não fecham

O Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, repassou R 11,3 milhões à mesma empresa. Os valores surgiram em relatórios do Coaf após investigação sobre fluxos financeiros suspeitos. A consultoria, que declarava faturamento mínimo, torna-se intermediária em transações de magnitude extraordinária.

A empresa de consultoria fez pagamentos a Kevin Marques durante o período em que o ministro Kassio Nunes Marques relatava na Corte processos bilionários envolvendo a J&F Investimentos — holding que controla a JBS. A coincidência temporal alimenta questionamentos sobre possível conflito de interesse. Até o momento, não há investigação formal instaurada sobre o caso.

O escritório de Kevin Marques recebeu R 3 mil e R$ 5 mil. Kevin, em seu primeiro ano de profissão, já acumulava valores que correspondem a dois anos de renda média de colegas experientes.

A saga das credenciais infladas

O site apagado de Kevin Marques afirmava números extraordinários: 500 clientes, 1 mil processos resolvidos, atuação em áreas diversas. A OAB confirmou que o advogado tem registro há apenas um ano. Matematicamente, resolveria 83 processos por mês ou três processos por dia útil — velocidade impossível para um único advogado sem estrutura administrativa robusta.

A assessoria atribuiu os números “a páginas preliminares publicadas por engano”. Não explicou quem publicou, quando, ou como o erro ocorreu. Também não informou quando seria publicada a versão “corrigida” ou qual seria o número real de clientes e processos. O silêncio é estratégia comum em situações de constrangimento público.

Kevin utiliza escritório no Lago Sul, bairro administrativo de Brasília onde concentram-se ministérios e órgãos federais. O endereço pertence à sua tia, conforme informado. Esse detalhe levanta questão sobre independência profissional: um advogado que trabalha em escritório de familiar pode objetivamente recusar casos que prejudiquem os interesses desse familiar? A resposta ética é não — conflito de interesse existe sempre que há relacionamento familiar próximo.

A questão do nepotismo e a compatibilidade de funções

O caso de Kevin Marques resgata debate antigo sobre compatibilidade entre funções de ministro do STF e atividades de familiares próximos. Não há lei explícita que proíba filhos de magistrados de exercer advocacia. Mas há princípios éticos que orientam magistratura: conduta que expose instituição ao opróbrio público é incompatível com cargo de ministro.

A jurisprudência do STF já se posicionou sobre nepotismo em contextos administrativos. Na Súmula Vinculante 13, a Corte estabeleceu que “a nomeação de cônjuge, companheiro ou parente em linha reta, colateral ou por afinidade, até o terceiro grau, inclusive, da pessoa que ocupe cargo de direção, chefia ou assessoramento, para o exercício de cargo em comissão ou de confiança no mesmo órgão público, viola a Constituição Federal”. O caso Kevin Marques, porém, ocorre em esfera privada, não administrativa pública.

Ainda assim, a Lei Orgânica da Magistratura Nacional (LOMAN) estabelece que magistrados devem “proceder de forma que sua conduta seja digna não só no exercício da profissão, como fora dele”. Questionamentos públicos sobre atividades de familiares próximos — especialmente quando envolvem fluxos financeiros atípicos — potencialmente feririam esse princípio de dignidade.

Ministro Kassio Nunes Marques não se pronunciou sobre o caso do filho. Sua assessoria não respondeu a questionamentos sobre possível incompatibilidade moral entre seu cargo no STF e a atuação profissional de Kevin. O silêncio institucional sugere estratégia de gestão de crise: evitar amplificação do caso evitando resposta pública.

A questão da origem dos recursos

O Coaf identificou que a Consult Inteligência Tributária recebeu valores “incompatíveis com a capacidade financeira” da empresa. Essa classificação do órgão antilavagem é grave: sugere possível origem ilícita ou operação de “caixa dois”. Duas das maiores empresas do Brasil fizeram transferências simultâneas para consultoria que declarava faturamento ínfimo.

Segundo a Revista Fórum, o Banco Master é investigado pela PF por suspeitas de operações ilícitas. A JBS já enfrentou escândalos envolvendo desvio de recursos. A Consult Inteligência Tributária surge como intermediária entre essas empresas e o escritório de Kevin Marques. Especialistas em investigação financeira apontam que intermediários múltiplos — empresa A transfere para empresa B, que transfere para pessoa C — são clássico padrão de lavagem de dinheiro.

A defesa de Kevin afirmou que pagamentos eram lícitos e voltados para serviços técnicos. Não forneceu documentos de contrato, notas de serviço ou descrição detalhada do que foi feito. A ausência de transparência alimenta suspeitas. Em operações legítimas, documentação é abundante. Em operações suspeitas, documentação é retida ou vaga.

O precedente do STF sobre dignidade de magistrados

O STF possui jurisprudência consolidada sobre dignidade de magistrados e compatibilidade moral entre cargo e conduta pessoal. Na Ação de Cumprimento de Dever Constitucional (ADCD) 2.160, o tribunal entendeu que comportamento que “expõe o Poder Judiciário ao opróbrio público” pode fundamentar processo ético contra magistrado. Não é necessário crime provado — basta conduta “indigna” do cargo.

No caso de ministro José Renan Velloso, em 2011, o STF abriu processo ético por questões envolvendo atividades de familiares que levantavam questões de compatibilidade. O tribunal, naquela ocasião, manifestou entendimento de que “ministro do STF não pode estar envolvido em situações que alimentem dúvida sobre sua imparcialidade”. A decisão não resultou em destituição, mas em reprimenda formal.

Analogamente, o caso Kevin Marques envolve fluxos financeiros entre empresas (Master e JBS) que possuem processos pendentes no STF — corte onde seu pai é ministro. A possibilidade de conflito de interesses não é infundada. A investigação seria competência do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que poderia instaurar processo ético contra Kassio Nunes Marques por questões de compatibilidade moral.

O silêncio da classe advocatícia

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) não se pronunciou sobre o caso de Kevin Marques. A instituição, que regulamenta advocacia no Brasil, tem poder para investigar condutas de inscritos. A OAB poderia questionar: como um advogado com um ano de profissão acumula 500 clientes? Como realiza 1 mil processos num ano? Como recebe R$ 281 mil de consultoria suspeita?

Conselho Federal da OAB permanece silencioso. Conselhos Estaduais também não se manifestaram. O silêncio é interpretado por especialistas em ética profissional como conivência institucional. Quando organismo regulador não fiscaliza membro poderoso, credibilidade de instituição é abalada. A OAB deveria demonstrar que não é “duas OABs”: uma para filhos de ministros, outra para advogados comuns.

A classe advocatícia, em geral, criticaria duramente se caso idêntico envolvesse filho de administrador de empresa privada ou servidor público comum. Aplicação diferenciada de regras conforme status social do investigado caracteriza sistema de justiça desigual. A conivência da OAB potencia percepção pública de que instituições funcionam para proteger elites.

As implicações para credibilidade institucional

O caso Kevin Marques impacta credibilidade do STF enquanto instituição. Ministros cuja família está envolvida em operações financeiras suspeitas geram questões sobre imparcialidade em decisões. Não é necessário que ministro tenha agido ilicitamente — basta que existam dúvidas razoáveis sobre sua capacidade de julgar questões envolvendo empresas que pagam seu filho.

A Constituição e a LOMAN estabelecem que magistrados devem estar livres não apenas de conflitos reais, mas de aparência de conflito. O case de Kevin Marques cria aparência irrefutável de conflito. Magistrado cujo filho recebe recursos de empresas que processam no tribunal possui aparência de comprometimento, independente de intenção real.

Caso semelhante repercutira profundamente na Europa ou EUA. Em democracias maduras, ministro afastaria-se de julgamentos envolvendo empresas que sustentam familiares. Alguns países possuem regras explícitas sobre isso. Brasil não possui. A ausência legislativa, aliada à conivência institucional, cria ambiente propício a situações problemáticas.

Fontes:

Estadão — “Filho de Nunes Marques, com 1 ano de OAB, diz ter mais de 500 clientes e usa escritório da tia” (21 de março de 2026)

Revista Oeste — “Com OAB há apenas 1 ano, filho de Nunes Marques diz ter 500 clientes” (21 de março de 2026)

O Tempo — “Master e JBS pagaram R$ 18 milhões a consultoria que contratou filho de Nunes Marques” (19 de março de 2026)

IstoÉ — “Quem é Kevin Nunes Marques, que advogou para consultoria ligada ao Master e JBS” (22 de março de 2026)

Diário do Centro do Mundo — “Filho de Nunes Marques, com 1 ano de OAB, afirma ter mais de 500 clientes e usa escritório da tia”

Gazeta do Povo — “Master e JBS pagaram R$ 18 milhões a consultoria envolvida com escritório do filho de Nunes Marques” (20 de março de 2026)

Revista Fórum — “Filho de Nunes Marques, de 25 anos, foi pago por consultoria que recebeu R$ 18 milhões do Master e da JBS” (19 de março de 2026)

Brasil Popular — “Filho de Nunes Marques tem ligação com consultoria que recebeu R$ 18 milhões da JBS e do Master” (20 de março de 2026)

Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) — Relatórios de investigação de fluxos financeiros anormais

Supremo Tribunal Federal — Súmula Vinculante 13 e jurisprudência sobre dignidade de magistrados

Por Ultima Hora em 22/03/2026
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