Garotinho vs. André Português — Quem Sai Vencedor?

Anthony Garotinho, ex-governador, ex-presidenciável, figura que povoou as manchetes das duas décadas passadas com promessas e controversas, reaparece no horizonte político para lançar sua pré-candidatura ao governo do Estado.

Não seria notório senão pela circunstância que o envolve: uma disputa fratricida no interior do Republicanos, partido que abriga tanto Garotinho quanto André Português, criando um espetáculo de divisão interna que promete desgastar ambos antes mesmo das convenções.

O Simbolismo da Data: Um Cálculo Político Transparente Demais

Garotinho escolheu o dia 13 de maio para seu lançamento. A data, segundo suas próprias palavras, marca "a libertação do povo do Rio de Janeiro". Aqui reside um incômodo: o 13 de maio é a data da abolição da escravidão no Brasil (Lei Áurea de 1888). Garotinho apropria-se dessa magnitude histórica para sua candidatura.

Ele justifica: "Para mim, que implantei a primeira lei de cotas do Brasil, a data é simbólica". Questionável é se essa apropriação não beira o cinismo político. A lei de cotas, implementada durante seu governo (1999-2002), foi progressista para sua época, verdade seja dita. Porém, utilizar o aniversário da abolição para marcar o "renascimento" de uma candidatura pessoal é ato que reduz data memorável a instrumento de marketing político.

O Vice de Garotinho: Coronel Venâncio Moura e a Polícia como Legitimidade

Garotinho anuncia como seu companheiro de chapa o Coronel Venâncio Moura, descrito como "um dos melhores comandantes que o BOPE já teve". O Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) é instituição mítica no imaginário fluminense — símbolo de coragem, violência necessária e, frequentemente, abuso de autoridade. Escolher um ex-comandante do BOPE como vice é estratégia clara: apropriar-se da autoridade policial, da imagem de dureza contra o crime, do simbolismo daquele que "enfrenta o tráfico nos morros".

Esta escolha, contudo, merece escrutínio. O BOPE não é adorado unanimemente — é temido. Há documentação de operações questionáveis, de vidas que terminaram sob sua ação sem que a justiça fizesse seu curso. Colocar um ex-comandante na vice-governança é aposta na memória curta do eleitor e na noção de que segurança pública é sinônimo de força bruta descontrolada.

André Português: A Delegada Thaianne Moraes e a Disputa Dentro do Republicanos

André Português, ex-prefeito de Miguel Pereira, não apenas lançou sua pré-candidatura no dia 8 de maio como apostou em figura também ligada à segurança pública: Thaianne Moraes, delegada titular da 14ª DP (Leblon). Existe aqui uma economia interessante: enquanto Garotinho busca a autoridade militar do BOPE, Português escolhe a autoridade civil-policial da delegada. Ambos reconhecem que segurança pública é moeda de troca eleitoral no Rio de Janeiro contemporâneo.

A disputa interna no Republicanos entre Garotinho e Português promete ser acirrada. Ambos pretendem resolver a questão apenas na convenção do partido, marcada para julho/agosto de 2026. Isto significa campanha paralela, desgaste recíproco, divisão de recursos e, potencialmente, enfraquecimento do candidato que sair vencedor.

O Cenário Ampliado: Garotinho Contra Paes e Tarcísio?

Convém recordar que Eduardo Paes (PSD) já selou aliança com sete dos treze prefeitos da Baixada Fluminense, consolidando posição de favorito nas pesquisas. Além disso, surgem rumores sobre possível candidatura de Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo, pelo Rio de Janeiro — movimento que dividiria ainda mais o espectro conservador.

Neste cenário multifacetado, Garotinho aparece como figura ressuscitada, tentando aproveitar resquícios de memória de seus anos no poder (não necessariamente memoráveis por suas realizações, mas por sua teatralidade). A escolha do Coronel Venâncio como vice é tentativa de legitimação através da força.

Por Ultima Hora em 08/05/2026
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