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Doze anos são tempo suficiente para enterrar o que já estava morto.
Pelo menos foi o que eu pensei.
Saí do trabalho para mais uma noite qualquer. Ia encontrar uma garota que me incentivou a escrever. Por causa dela me inscrevi num concurso de escritores. Não é figura de linguagem.
Ela tocou meu coração de um jeito estranho.
Ela mergulhou a mão na merda e achou um coração.
No fundo eu achava que nada do que escrevia era bom o suficiente.
Talvez por isso ela tenha me tocado.
Cheguei no show.
E encontrei o passado em pé. E duro.
O cara que comeu minha ex na minha frente, doze anos atrás. Ao lado dela.
Olhei para eles.
A tristeza veio na hora.
Ele me olhou.
— Te conheço de algum lugar…
Eu ri.
— Lembro. Você comeu minha ex.
Ele deu um sorriso amarelo.
— Cara… da última vez que fui lá fui assaltado.
Na época eu saí correndo de vergonha.
Minha ex correu atrás de mim para impedir que eu fizesse alguma besteira.
E ele correu atrás dela de pau duro.
Doze anos depois, aquilo já parecia uma piada.
Lara percebeu.
— Ei, que cara triste é essa?
— Nada, meu bem — menti.
Quando ela se sentou, falei:
— Me sinto numa história em quadrinho. Estive com ele num momento ruim…
Ela perguntou.
— Nada. Faz tempo. Passou.
Mas vê-lo ali abriu tudo outra vez.
Eu podia ter travado. Deixar o passado decidir quem eu era ali.
Mas pensei: caralho… doze anos.
O passado não decide quem eu sou hoje.
Vi um senhor vendendo flores.
Perdi ele no meio da música.
Procurei. Nada.
Perguntei a um catador se o vendedor voltava.
— Volta.
Enquanto esperava, encontrei um amigo dela.
— Você é bom de dar conselhos?
Ele riu.
— Sim. Acho que sim.
— Então tá.
— Ué… Tu não vai querer meu conselho?
Eu ri.
— Não. Eu sempre faço do meu jeito. E que se foda.
Quando o vendedor voltou, comprei um pequeno buquê.
Não era um girassol.
Eram rosas vermelhas e algumas flores amarelas que lembravam pequenos girassóis.
Ela tinha feito uma música sobre girassóis.
Nunca tinha recebido flores.
Girassol sempre me lembrava Legião Urbana — a capa de O Descobrimento do Brasil, um quadro no meu quarto.
Ela não sabia.
Quis ser o primeiro.
Tentei escrever um bilhete com a caneta que roubei do caixa:
“Obrigado pela coragem. Me inscrevi no concurso de escritores por sua causa.”
Perdi o papel.
Improvisar também é arte.
Dançamos, rodamos, trocávamos olhares enquanto caía na porrada na roda punk.
— Veio de Realengo pros cafundós — ela disse.
Eu ri.
— Querida, não vim de Realengo hoje. Saí do trabalho. Em Japeri.
Ela se surpreendeu.
Ela cuidava de uma menina triste e bêbada.
Comprei uma rosa pra ela também.
Depois vi a menina sorrindo.
Ou talvez eu tenha imaginado.
O outro tentava ficar por perto.
Mas ela dançava comigo.
Roubei o nariz dela.
— Não faz isso, senão a máscara cai — ela riu.
Ele me olhava com aquela curiosidade torta que alguns homens têm quando não entendem o que estão vendo.
Ela gesticulou com os dedos: dois.
Já tinha sido rejeitado por isso antes.
Homens estranham.
Mulheres também.
É ruim demais ser rejeitado por ser quem se é.
E havia outra coisa ali.
Ele não parecia interessado nela.
Parecia interessado em qualquer uma.
O pau dele era um radar de buceta.
E aquilo me deu uma tristeza estranha.
Porque ela era boa demais para ser apenas mais uma noite de fome.
Olhei pro lado.
Ele ainda estava ali.
Perguntei se estava tudo bem.
Que ironia.
Agora você queria ser eu.
Entreguei a flor às duas. Assim ninguém reparou demais.
— Obrigado. Não teria feito a inscrição sem você.
Abracei.
Ela sorriu — um sorriso encantador.
O bolo era da amiga triste.
Mesmo assim ela pediu que eu levasse para casa. Açúcar para eu não ficar bêbado.
Fiquei sem jeito.
Sou tímido demais com o que importa.
Ela fez um coração com os dedos para mim.
O vendedor estava na saída.
Eu disse:
— O senhor me salvou. Se eu comer alguém, vou gozar na sua flor! Obrigado!
Ele, rindo meio constrangido, disse:
— É, meu filho. Não deixa essas coisas passarem não.
Entrei no Uber.
Fugindo.
Olhos ardendo.
Suor… ou quase choro.
Quando o carro já andava percebi: esqueci o bolo.
Precisei voltar.
Encarar aquele rosto outra vez.
Peguei o bolo.
Ela riu.
No caminho de volta pensei:
Talvez não dê em nada.
Talvez já tenha dado.
Mas eu já tinha passado pelo fantasma.
E isso, naquela noite, já era o suficiente.
Doze anos atrás eu tinha congelado.
Naquela noite, não.
Naquela noite, eu atravessei.
Depois, pelo celular, ela disse que se derreteu toda.
Eu já sabia — percebi pelo sorriso enquanto ia embora.
Disse também que tentou me chamar enquanto corria.
Mas eu já tinha ido.
Ela provavelmente não sabe as razões.
E pensei, comendo o bolo em casa, que talvez seja melhor assim.
Algumas perfeições não sobrevivem à verdade.
Ronald Luis
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