Gleysa Teixeira Siqueira apresenta na Bienal 2025 biografia de cafetina baiana que desafia invisibilidade histórica

Da dissertação de mestrado às páginas de um livro, autora resgata trajetória de Dona Cabila, personagem marcante do Recôncavo Baiano que faleceu há um ano

Jornal da República e Última Hora Online direto da Bienal do Livro 2025, onde histórias marginalizadas ganham voz e visibilidade. A escritora e pesquisadora Gleysa Teixeira Siqueira, diretamente de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, apresenta sua obra "Uma história de cabeluda: mulher, mãe e cafetina", fruto de sua dissertação de mestrado e um importante registro de memórias que corriam o risco de se perder com o tempo.

Em entrevista exclusiva, a autora revelou como transformou sua pesquisa acadêmica em um livro que promete não apenas emocionar, mas também provocar reflexões sobre a condição feminina em contextos de marginalização. A obra narra a trajetória de Dona Cabila, conhecida como Cabeluda, que faleceu em 6 de maio de 2024, completando um ano de sua partida durante esta edição da Bienal.

"Essa história é fruto da minha dissertação de mestrado, em que eu conto a trajetória de Dona Cabila, que faleceu há um ano, agora no dia 6 de maio." Ela viveu da prostituição na cidade de Cachoeira e virou uma cafetina", explicou Siqueira. A autora destaca o legado humano deixado pela protagonista, descrevendo-a como "uma mulher muito guerreira, batalhadora, criou muitos filhos de muitas mulheres e deixou um legado profundo para as futuras gerações".

Este aspecto maternal de Cabeluda, que transcende os estigmas geralmente associados à figura da cafetina, revela camadas complexas de uma personagem real que navegou por espaços sociais contraditórios, estabelecendo redes de cuidado e solidariedade em um ambiente marcado pela exclusão e pelo preconceito.

A escolha por documentar e divulgar essa história está intimamente ligada ao compromisso da autora com a visibilidade de grupos historicamente marginalizados. "Quem quiser ter interesse de conhecer uma história de pessoas invisibilizadas, do lugar dessas mulheres, que a gente sabe que é um lugar marginalizado... então, uma história real, eu gostaria de convidar vocês a virem para a Bienal do Livro, porque é uma história fantástica e tem tudo para virar filme", afirmou Siqueira, destacando o potencial cinematográfico da narrativa.

Ao transformar sua pesquisa acadêmica em um livro acessível ao grande público, a autora contribui para um movimento crescente de democratização do conhecimento, levando para além dos muros universitários histórias que revelam aspectos importantes da construção social e cultural brasileira.

O contexto histórico onde se desenvolveu a vida de Dona Cabila adiciona camadas ainda mais significativas à narrativa. Cachoeira, cidade histórica tombada como patrimônio cultural, foi palco de acontecimentos determinantes para a formação do Brasil como nação independente.

"No dia 25 de junho de 1822, foi a primeira batalha para a nossa liberdade, a independência do Brasil." Então, começou lá em Cachoeira", explicou a autora, antes de fazer uma importante correção histórica: "O 7 de setembro não representou a luta dos baianos de fato, porque só acabou a guerra lá no dia 2 de julho de 1823".

Esta contextualização não apenas situa geograficamente a história de Cabeluda, mas também a insere em um local de relevância histórica nacional, onde as lutas pela liberdade têm raízes profundas que transcendem as narrativas oficiais centradas no eixo Rio-São Paulo.

A justaposição entre a história oficial da independência brasileira e a trajetória de uma cafetina do Recôncavo Baiano cria um contraste revelador sobre quais narrativas são preservadas e celebradas na memória coletiva nacional. Enquanto Dom Pedro I e o Grito do Ipiranga são amplamente conhecidos e comemorados, figuras como Dona Cabila e as batalhas baianas pela independência permanecem à margem dos livros didáticos e do imaginário popular.

Com "Uma história de cabeluda", Gleysa Teixeira Siqueira não apenas resgata a memória de uma mulher específica, mas também contribui para um movimento mais amplo de revisão historiográfica que busca incorporar perspectivas diversas à compreensão do Brasil e de sua formação social, dando voz a personagens que, apesar de sua influência local, raramente encontram espaço nas grandes narrativas nacionais.
Entre a academia e a literatura popular.

Para aqueles que não puderem visitar a Bienal do Livro presencialmente, a autora informou que a obra está disponível para compra na Editora Dialética, na Amazon e em outras plataformas digitais.

O percurso da pesquisa — da rigidez acadêmica de uma dissertação de mestrado à fluidez necessária para um livro direcionado ao público geral — demonstra o compromisso da autora em fazer com que conhecimentos produzidos na universidade ultrapassem seus muros e alcancem audiências mais amplas, contribuindo para a preservação de memórias que, de outra forma, poderiam se perder com o tempo.

A história de Dona Cabila, eternizada nas páginas deste livro, representa não apenas uma biografia individual, mas um fragmento importante da história social brasileira contada a partir de perspectivas geralmente silenciadas.

Por Robson Talber @robsontalber repórter Miguel Lemos @djportugues

Por Ultima Hora em 18/06/2025
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