Governador interino substitui 20 secretários: Ricardo Couto reformula Rio em dois meses com 2,7 mil exonerações e cerco à Refit consolidam novo poder no Executivo

Licitação bilionária suspensa e Refit sob cerco: o padrão de governo de Ricardo Couto

Governador interino substitui 20 secretários: Ricardo Couto reformula Rio em dois meses com 2,7 mil exonerações e cerco à Refit consolidam novo poder no Executivo

Governador interino consolida controle administrativo e aprofunda investigações contra a Refit enquanto aguarda decisão do STF

O governador em exercício Ricardo Couto accelera uma reformulação administrativa sem precedentes no Rio de Janeiro. Em pouco mais de dois meses no comando do Palácio Guanabara, o presidente do Tribunal de Justiça substituiu 20 integrantes do primeiro escalão e exonerou 2,7 mil funcionários comissionados. A estratégia revela uma ofensiva dupla: afastar a influência política herdada de Cláudio Castro e cercar a Refit, maior devedora tributária do país.

As mudanças desta segunda-feira (25 de maio) elevaram para 20 o número de trocas promovidas desde o início da gestão interina. A saída de Maria Rosa Lo Duca Nebel da Secretaria de Polícia Penal e a substituição do delegado federal Victor Poubel no Degase consolidam um padrão: sempre que estruturas sensíveis ganham visibilidade, novas faces ocupam o comando. Não se trata apenas de rotina administrativa. Trata-se de consolidação de poder em um momento de extrema indefinição política.

O Cerco à Refit: Estratégia de Governo

A refinaria controlada pelo empresário Ricardo Magro é o alvo implícito de ao menos três substituições recentes. As alterações atingiram a Secretaria de Fazenda, a Secretaria do Ambiente e a Procuradoria-Geral do Estado — todas órgãos com poder de influenciar processos de cobrança tributária, licenciamento ambiental e ação legal contra a empresa. A Polícia Federal sustenta que a gestão anterior teria atuado em benefício da refinaria, operação que reforça suspeitas de captura estatal.

O Instituto Estadual do Ambiente (Inea) criou grupo de trabalho para revisar todos os processos de licenciamento concedidos à Refit após informações de que o órgão teria autorizado licenças mesmo diante de pareceres técnicos apontando contaminação do solo. Paralelo às investigações federais, a gestão interina analisa a possibilidade de desapropriação da empresa — hipótese que começou a ser estudada formalmente pelo governo.

A Refit, maior devedora tributária do país e segunda maior devedora do estado do Rio, permanece operacional enquanto centenas de milhões em impostos seguem em disputa. O endurecimento de Couto sinaliza que a era de concessões terminou — pelo menos enquanto ele estiver no comando.

Profissionalização ou Consolidação de Poder?

Nos bastidores do Palácio Guanabara, auxiliares de Ricardo Couto classificam a reformulação como tentativa de "profissionalizar" a máquina pública. Dados sustentam parcialmente o argumento: servidores concursados passaram a ocupar funções estratégicas anteriormente controladas por indicações políticas. A Secretaria da Casa Civil, Governo e Planejamento sofreram revisões internas que reforçaram o papel de técnicos.

No entanto, o padrão sugere algo mais ambicioso. As 2,7 mil exonerações de comissionados não representam apenas limpeza administrativa. Representam remoção sistemática de pessoas vinculadas à base política anterior. É uma operação de desinfeção: quando você substitui 20 integrantes do escalão superior e despe 2,7 mil comissionados em 60 dias, você não está apenas profissionalizando — está concentrando poder em torno de um novo núcleo.

A profissionalização é real. A consolidação de controle também é. As duas coisas ocorrem simultaneamente, e negar uma em favor da outra é simplificar demais a realidade política fluminense.

A Licitação Bilionária Suspeita da Polícia Penal

A saída de Maria Rosa Lo Duca Nebel ocorre dias após o Tribunal de Contas do Estado suspender uma licitação de R$ 1,3 bilhão para fornecimento de alimentação ao sistema penitenciário. O conselheiro José Gomes Graciosa apontou indícios de restrição à competitividade e falhas de transparência no edital — palavras diplomáticas que traduzem suspeita de fraude.

A Secretaria de Polícia Penal respondeu que a decisão contrariava manifestações técnicas do próprio Tribunal de Contas e do Ministério Público de Contas, incorporando "ajustes e aprimoramentos" que asseguravam competitividade. A resposta é precisa no detalhe, genérica na substância. Ninguém contestou efetivamente as acusações — apenas desqualificou o tribunal que as fez.

Para Ricardo Couto, a mudança na secretaria é movimento de reforço do controle sobre áreas consideradas críticas. Para a população fluminense, representa interrogação: quanto tempo levará para que um novo secretário, com mandato renovado, abra novamente licitações questionáveis? Ou o endurecimento será mantido?

O Vácuo do STF e a Consolidação de Facto

Ricardo Couto assumiu o governo interinamente após a renúncia de Cláudio Castro. O Supremo Tribunal Federal analisa se o estado terá eleição indireta para escolher um governador-tampão. O julgamento foi interrompido após pedido de vista do ministro Flávio Dino — uma pausa que deixa indefinido o futuro político do estado por semanas, talvez meses.

Nesse vácuo de incerteza jurídica, Ricardo Couto não fica imóvel. Consolida. Substitui. Exonera. Cria grupos de trabalho para revisar processos. Analisa desapropriações. É a estratégia clássica de quem governa em situação precária: ampliar a base de controle enquanto se pode, porque não há garantia de quanto tempo durará.

O STF pode decidir pela eleição indireta, devolvendo o poder a uma figura eleita. Pode decidir pela manutenção do status quo, deixando Couto indefinidamente. Pode, ainda, interpretar a Constituição de forma inesperada. Diante dessa incerteza, o presidente do Tribunal de Justiça governa como se todos os seus atos fossem reversíveis — mas estrutura como se fossem permanentes.

Mudanças Atingem o Núcleo Administrativo

As alterações executadas por Couto atingiram 20 secretarias e órgãos estaduais, com particular incidência sobre estruturas centrais. Saúde, Defesa do Consumidor, Cedae e Rioprevidência foram impactadas. No caso da companhia de saneamento e do fundo previdenciário, as trocas coincidiram com investigações sobre investimentos realizados junto ao Banco Master — operação que revelou desvios significativos de recursos públicos.

Essas mudanças não são decorrentes de incompetência dos anteriores titulares. São decorrentes de investigações federais. Quando a PF aperta o cerco, a administração estadual responde: tira o acusado de perto do poder, coloca alguém novo, tenta dar impressão de ruptura. É gestão reativa, não proativa — mas efetiva em reduzir vulnerabilidades políticas.

A Marca Própria de Ricardo Couto

Desde março, Ricardo Couto vem consolidando identidade administrativa própria. As 2,7 mil exonerações em massa, a troca de 20 secretários, a ampliação de técnicos em funções estratégicas: tudo compõe um retrato de liderança que busca se diferenciar da gestão anterior enquanto aguarda definição de sua permanência.

No entorno do Palácio Guanabara, a avaliação entre auxiliares é uniforme: as mudanças reorganizam áreas atingidas por investigações federais e reduzem vulnerabilidades administrativas. Tradução: o estado tinha problemas estruturais de governança, e Couto está tentando resolvê-los antes que custeis mais caro.

O risco é que essa mesma lógica — substituir de forma preventiva em setores sensíveis — pode ser interpretada, por adversários políticos futuros, como perseguição ou purga ideológica. A linha entre profissionalização e retalho político é tênue, e quem governa sempre acredita estar do lado correto dela.

Perspectiva: O Que Vem Adiante

O STF seguirá analisando. Ricardo Couto continuará governando. As mudanças que já implementou permanecerão, consolidadas em novos cotidianos administrativos. Os 2,7 mil exonerados não voltarão se o STF decidir pela manutenção do status quo. A Refit seguirá sob escrutínio renovado.

O grande interrogação permanece: quanto dessa reformulação sobreviverá ao próximo governador? Se vier eleição indireta e um novo nome assumir, escolherá manter a estrutura técnica que Couto criou ou substituirá novamente? A profissionalização que ele implementa é robusta o suficiente para transcender mudanças políticas, ou desmorona com a próxima transição de poder?

Essas respostas virão. Por enquanto, o Rio tem um governo em exercício que governa como se houvesse certeza — enquanto aguarda do STF a garantia que não tem.

Ricardo Couto: Trajetória de um Juiz que Governa em Tempos de Incerteza

Ricardo Couto é o presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e, desde a renúncia de Cláudio Castro em março de 2026, governa o estado em caráter interino. Formado em Direito com longa carreira na magistratura fluminense, Couto construiu reputação de juiz rigoroso em processos complexos, particularmente aqueles envolvendo direito administrativo e questões de gestão pública.

Sua nomeação como presidente do TJRJ consolidou sua posição entre as lideranças jurídicas estaduais, mas sua passagem para o comando do Executivo foi inesperada. Com a saída de Cláudio Castro, a sucessão administrativa recaiu sobre Couto conforme previsto na constituição estadual, convertendo-o em governador de facto em um momento de extrema volatilidade política — o STF analisa se o estado terá eleição indireta para escolher um permanente substituto.

Durante sua gestão interina, Couto ganhou visibilidade nacional por sua postura de rigor administrativo. As 2,7 mil exonerações de comissionados e as 20 substituições no primeiro escalão foram interpretadas, por apoiadores, como profissionalização da máquina e redução de vulnerabilidades herdadas. Por críticos, como consolidação de poder em um momento de instabilidade jurídica.

Sua ofensiva contra a Refit — a maior devedora tributária do país — e sua determinação de revisar processos de licenciamento ambiental geraram repercussão além dos círculos administrativos, alcançando investigações federais sobre captura estatal e desvios de recursos públicos. Couto posiciona-se como juiz que chegou ao Executivo para restaurar ordem, um discurso que reforça sua legitimidade junto a setores que demandam transparência e rigor.

A indefinição sobre seu futuro político — permanência ou retorno à magistratura após decisão do STF — mantém sua gestão em dinâmica de urgência institucional. Governando em situação precária, Couto estrutura como quem planeja permanecer, estratégia que moldará o estado para além de seu eventual tempo de comando.

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Por Ultima Hora em 26/05/2026
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