Guerra contra crime organizado: Rio supera em violência cartéis de Medellín de Pablo Escobar e do México de El Chapo juntos

Doca é o criminoso mais procurado pela Polícia do Rio / Crédito: redes sociais

Guerra contra crime organizado: Rio supera em violência cartéis de Medellín de Pablo Escobar e do México de El Chapo  juntos

Megaoperação com 121 mortes é quatro vezes mais letal que ofensivas contra Farc, El Chapo e até mesmo Pablo Escobar

Mais corpos foram encontrados em área de mata após megaoperação policial no Alemão e Penha / Crédito: Ricardo Moraes / Reuters

A megaoperação policial realizada no Complexo do Alemão e na Penha estabeleceu um marco sombrio na história do combate ao crime organizado mundial. Com pelo menos 121 mortes confirmadas, a ação superou em letalidade as mais conhecidas operações contra organizações criminosas internacionais, incluindo as ofensivas contra as Farc na Colômbia, o cartel de El Chapo no México e até mesmo as ações contra o império de Pablo Escobar em Medellín.

Os números revelam uma disparidade alarmante quando comparados a outras operações de alta letalidade. A ação no Rio registrou quatro vezes mais mortes que as principais ofensivas internacionais contra o crime organizado, estabelecendo um patamar inédito de violência em operações policiais fora de contextos de guerra declarada.

Em maio de 2021, a operação na favela do Jacarezinho, também na Zona Norte carioca, havia estabelecido o recorde anterior com 28 mortes, sendo considerada até então a mais letal da história fluminense. Esse número, que já havia gerado controvérsias nacionais e internacionais, representa menos de um quarto das vítimas fatais registradas na operação atual, evidenciando a escalada sem precedentes da violência policial no estado.

As comparações internacionais tornam ainda mais evidente a excepcionalidade da operação carioca. Em março de 2008, o exército colombiano realizou um bombardeio contra acampamentos das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) em território equatoriano, resultando em 26 mortes de guerrilheiros. Essa ação, que gerou uma crise diplomática entre Colômbia e Equador, registrou menos de um quinto das mortes da operação no Rio de Janeiro.

No México, país mundialmente conhecido pela violência relacionada ao narcotráfico, uma das operações mais letais ocorreu em janeiro de 2023, quando forças policiais tentaram capturar Ovidio Guzmán, filho do megatraficante Joaquín "El Chapo" Guzmán. A ação resultou em 29 mortes, número que representa menos de um quarto das vítimas fatais registradas no Rio de Janeiro.

Mesmo comparando com as ações contra Pablo Escobar em Medellín, consideradas emblemáticas na guerra contra o narcotráfico, a operação carioca apresenta números superiores. Durante o auge da violência em Medellín nos anos 1980 e 1990, as operações policiais mais intensas raramente ultrapassavam 50 mortes em uma única ação, mantendo-se significativamente abaixo dos números registrados no Rio de Janeiro.

A evolução dos números durante a operação carioca evidencia a magnitude dos confrontos. Inicialmente, as autoridades reportaram 64 mortes até a noite de terça-feira. Contudo, fontes ligadas à operação já indicavam que o número seria muito mais expressivo, previsão que se confirmou na manhã seguinte com a descoberta de mais de 70 corpos em uma área de mata onde ocorreram confrontos intensos, segundo informações da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ.

A operação, que tinha como objetivo cumprir 100 mandados de prisão contra integrantes do Comando Vermelho, incluindo a captura de Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca, principal líder da facção, acabou gerando consequências que extrapolaram seus objetivos iniciais. O Disque Denúncia chegou a oferecer recompensa de R$ 100 mil por informações sobre o paradeiro de Doca, o maior valor pago pelo programa desde a divulgação do cartaz de Fernandinho Beira-Mar em 2001.

Daniel Hirata, sociólogo e coordenador do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense, classificou a operação como "extremamente insegura para a população" e destacou que ela "vai causar um impacto mundial". Segundo o especialista, "é um número muito expressivo de mortes até para o patamar do Rio de Janeiro, reconhecidamente problemático".

O sociólogo questionou a eficácia da estratégia adotada, argumentando que "mesmo se ocorresse a prisão do Doca, existiriam outros para ocupar esse espaço de poder. E não se justifica essa quantidade de mortes para a prisão de uma grande liderança". Hirata defendeu que ações focadas no faturamento do crime organizado seriam mais efetivas, observando que "em poucos dias, todo o aparato bélico da facção será restabelecido".

Ignácio Cano, também sociólogo e especialista em segurança pública, foi ainda mais categórico ao classificar a operação como "um fracasso absoluto". Segundo ele, "uma operação com esse número de mortos em qualquer país que não esteja em guerra é um fracasso absoluto". Cano defendeu estratégias similares às Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), argumentando que "se você quer enfraquecer o Comando Vermelho, tem que agir com superioridade de forças para coibir o confronto e recuperar o território".

A repercussão internacional da operação foi imediata e contundente. O Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos expressou horror com a ação, declarando estar "horrorizados com a operação policial em andamento nas favelas do Rio de Janeiro" e pedindo investigações rápidas sobre as mortes. A organização Human Rights Watch foi enfática ao afirmar que "o Rio precisa de uma nova política de segurança pública, que pare de estimular confrontos que vitimizam moradores e policiais".

O governo dos Estados Unidos emitiu alerta de segurança para cidadãos norte-americanos no Rio de Janeiro, recomendando cautela máxima. A imprensa internacional também repercutiu amplamente o evento, com o jornal britânico The Guardian classificando o episódio como "o pior dia de violência da história" do Rio de Janeiro.

O Instituto Sou da Paz criticou duramente a estratégia adotada, argumentando que "esse tipo de estratégia não ataca os elos centrais do crime organizado, não rompe as rotas do tráfico de drogas para países europeus, não desmonta seus mecanismos de lavagem de dinheiro ou de abastecimento de armas". A organização destacou ainda que a operação "gera um acirrado fogo cruzado em áreas densamente habitadas, colocando em risco direto a vida de centenas de milhares de pessoas, em especial da população de baixa renda e predominantemente negra".

Os desdobramentos da operação extrapolaram o âmbito da segurança pública, gerando consequências sociais imediatas. Criminosos incendiaram vias públicas em resposta à ação policial, criando uma onda de descontrole social que afetou diretamente a população civil. Com dezenas de ônibus recolhidos e vias bloqueadas, milhares de cariocas enfrentaram dificuldades para retornar às suas casas, sendo obrigados a percorrer longos trechos a pé.

A operação também provocou reações políticas significativas. A Defensoria Pública apontou violações e abusos, enquanto o governo federal convocou uma reunião de emergência para discutir a segurança pública no estado. A Câmara dos Deputados decidiu antecipar a análise da PEC da Segurança, evidenciando o impacto político da ação. O governador Cláudio Castro solicitou o envio de dez líderes presos para unidades de segurança máxima, pedido atendido pelo governo federal.

Entre as vítimas fatais, quatro policiais perderam a vida durante os confrontos, enquanto outros nove agentes se feriram. Esses números evidenciam que a violência não se limitou aos criminosos, afetando também as forças de segurança envolvidas na operação. Por determinação do governador, o policiamento seguiu com reforço nas áreas onde ocorreram os confrontos, mantendo a tensão na região.

A comparação com operações históricas contra o crime organizado mundial revela que a megaoperação carioca estabeleceu um patamar inédito de letalidade. Mesmo considerando contextos de guerra contra o narcotráfico em países como Colômbia e México, raramente se observaram números tão elevados de mortes em uma única ação policial. Essa realidade coloca o Brasil, e especificamente o Rio de Janeiro, em uma posição singular no cenário internacional de combate ao crime organizado.

A análise dos dados evidencia que a estratégia adotada no Rio de Janeiro diverge significativamente das práticas internacionais de combate ao crime organizado. Enquanto outros países têm buscado abordagens mais cirúrgicas e focadas na desarticulação das estruturas financeiras e logísticas das organizações criminosas, a operação carioca privilegiou o confronto direto, resultando em um número de mortes que supera amplamente os padrões internacionais.

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Por Ultima Hora em 30/10/2025
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