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Brasília recebeu em maio de 2026 uma comitiva da região da Campanha gaúcha. Entre os prefeitos que participaram da XXVII Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios estava Fernando Campania, eleito em outubro de 2024 com 49,47% dos votos válidos.
Representando Hulha Negra, município de 7 mil habitantes localizado a 371 quilômetros de Porto Alegre, Campania levou para o maior evento municipalista da América Latina uma mensagem sobre a importância do desenvolvimento regional e da hospitalidade fronteiriça que caracteriza o interior gaúcho.
Hulha Negra ocupa posição estratégica na geografia política e econômica do Rio Grande do Sul. Localizada na região da Campanha, quase dentro do Uruguai, a cidade integra um território de 900 quilômetros quadrados de baixa densidade populacional.
Fundada há 34 anos, Hulha Negra pertence à metade sul do estado, região historicamente menos atendida por políticas federais de desenvolvimento. Apesar disso, consolidou-se como referência em agroindústria familiar e produção de qualidade.
O modelo econômico baseado em leite e agroindústria
A economia de Hulha Negra repousa em dois pilares: a agropecuária de base familiar e a agroindústria artesanal. A produção leiteira é o destaque principal.
O município produz aproximadamente 80 mil litros de leite por dia, provenientes da agricultura familiar. Este volume transformou Hulha Negra em elo importante da cadeia láctea regional, justificando o investimento recente da Cooperativa Central Gaúcha Ltda. (CCGL), que inaugurou em agosto de 2025 uma unidade de beneficiamento de leite com capacidade de até 400 mil litros por dia.
Além do leite, a agroindústria de queijos representa marca distintiva. Queijarias como a Luísa Brasil obtiveram os selos Arte e Queijo Artesanal, reconhecimentos nacionais que possibilitam comercialização ampliada de produtos que expressam o terroir pampeano.
Os queijos de Hulha Negra diferenciam-se pela utilização de leite cru e características biológicas exclusivas da região, alcançando mercados nacionais de premium.
A região também se destaca na produção de salames, linguiças, pão caseiro e cuca (bolo tradicional gaúcho), expressando diversidade da agroindústria familiar. Estes produtos representam agregação de valor à produção primária e geração de renda para pequenos produtores que, em muitos casos, pertencem a famílias de colonos com raízes históricas na região.
Carne de qualidade diferenciada.
A carne bovina da região da Campanha possui características singulares. Conforme explicou Campania, a criação extensiva em pastos naturais do bioma Pampa, associada a raças especializadas para corte, gera carne com marmoreio superior e tecido adiposo que a torna mais macia e saborosa.
Esta qualidade diferenciada abre oportunidades para certificação e diferenciação de preços no mercado nacional e internacional.
A criação de bovinos no Pampa gaúcho representa não apenas atividade econômica, mas também preservação de tradições culturais.
A figura do gaúcho, o consumo de chimarrão e a prática do churrasco integram identidade coletiva que vincula economia, cultura e paisagem.
Hospitalidade como ativo estratégico
Fernando Campania apresentou hospitalidade como ativo imaterial de Hulha Negra. A cidade localiza-se em zona de integração fronteiriça com o Uruguai, permitindo intercâmbio cultural e comercial contínuo. A expressão local "porteira aberta e cusco atado" (porteira aberta e cachorro amarrado) representa abertura ao visitante com respeito à propriedade alheia síntese da hospitalidade gaúcha.
O pluralismo étnico e cultural caracteriza Hulha Negra. Descendentes de italianos, alemães, espanhóis e indígenas constituem comunidade que compartilha valores comuns: hospitalidade, humildade e fraternidade.
Esta composição transforma o município em laboratório de convivência multicultural, valor agregado para turismo de base comunitária.
Infraestrutura leiteira e cooperativismo
O investimento da CCGL em Hulha Negra representa mudança estrutural na cadeia produtiva. A unidade de beneficiamento, com capacidade para 400 mil litros diários, transforma leite em produtos de maior valor agregado.
Segundo o presidente do Sistema Ocergs, Darci Hartmann, o investimento "representa um marco para a economia local e reafirma o papel do cooperativismo no apoio ao produtor rural".
O sistema cooperativista é fundamento do modelo econômico de Hulha Negra. Produtores organizados em cooperativas de crédito e produção obtêm acesso a crédito, tecnologia e mercados que pequenos produtores isolados não alcançariam.
Esta estrutura de capital social fortalece resiliência econômica e reduz vulnerabilidade a crises de preços.
A luta por maior transferência de recursos federais
Fernando Campania aproveitou a participação na XXVII Marcha para reivindicar reorganização da federação brasileira. Sua tese é radical: "A pirâmide de arrecadação tem que ser invertida.
O governo federal e os governos estaduais arrecadam mais da riqueza que vem de onde? Das cidades. Então o tributo tem que voltar mais para as cidades".
Esta proposição reflete crítica ao modelo federativo brasileiro, em que transferências fiscais frequentemente são insuficientes para demandas de investimento local. Municípios da metade sul do Rio Grande do Sul, região de baixa densidade populacional, enfrentam desafios de financiamento agravados pela descentralização de responsabilidades sem correspondente descentralização de recursos.
A participação de Campania em Brasília visava exatamente dialogar com deputados federais e órgãos federais sobre emendas parlamentares e programas que pudessem fortalecer investimentos em Hulha Negra e região circunvizinha.
A visão municipalista de Fernando Campania
Campania encapsulou filosofia municipalista em frase contundente: "Tudo acontece na cidade, não é no estado e não é na presidência da República. Quem recepciona o povo se chama prefeito".
Esta afirmação exprime convicção de que mudanças sociais significativas originam-se da esfera local, onde gestores públicos encontram cidadãos face a face e constroem relações de confiança.
Sua visão de desenvolvimento é territorial e integrada. Menciona "territorialidade" como conceito-chave: desenvolvimento não é imposto de cima para baixo, mas emerge de dinâmicas locais onde poder público, setor privado e sociedade civil dialogam.
Agroindústria não é apenas produção, mas expressão de identidade coletiva e preservação cultural.
Integração regional e cooperação transfronteiriça
Hulha Negra integra-se em rede de cidades fronteiriças. Campanha menciona Bagé, Pinheiro Machado e outras cidades "queridas" que compartilham desafios e oportunidades de região fronteiriça.
A cooperação com o Uruguai é natural, não conflituosa. Uruguaios são descritos como "irmãos e amigos", refletindo perspectiva de integração sul-americana que transcende nacionalidades.
Esta visão integrativa é rara em política municipal brasileira. Enquanto muitos gestores competem por recursos federais em lógica de soma-zero, Campania propõe solidariedade regional como base de desenvolvimento mais sustentável.
Desafios climáticos e vulnerabilidades
A região enfrenta desafios climáticos significativos. Invernos rigorosos e geadas frequentes impactam produção agrícola.
A manifestação de produtores de leite organizada em novembro de 2025 evidenciava preocupações com rentabilidade do setor, sugerindo pressões sobre viabilidade econômica de pequenos produtores.
Mudanças climáticas potencializam estes riscos, exigindo políticas de adaptação e mitigação que municípios isolados dificilmente conseguem financiar sozinhos.
Este é o argumento subjacente à crítica de Campania sobre transferências federais insuficientes.

Por Ralph Lichotti e Robson Talber @robsontalber
Repórter Oscar Muller @oscarmulleroficial
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