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Escrito por uma italiana no meio do século 20, o livro de teoria marxista argumenta que o cuidado e os afazeres domésticos devem ser considerados trabalho tanto quanto a atuação operária em fábricas.
Não estamos falando de uma obra de Silvia Federici, a intelectual pop cujos escritos sobre o trabalho não remunerado das mulheres viraram até estampa de pano de prato, mas de “O Arcano da Reprodução”, de Leopoldina Fortunati, obra referencial que a Boitempo traduz pela primeira vez.
Contemporânea e colaboradora de Federici, Fortunati desenvolveu a tese do livro durante a campanha “Wages for Housework” (salários para o trabalho doméstico), nos anos 1970. “Demorei dez anos para terminar, porque estávamos tão envolvidas nas atividades políticas que era impossível ter tempo para sentar e escrever”, diz Fortunati, de 76 anos, à Folha.
Publicado na Itália em 1981, o livro expande a tese de que o trabalho não remunerado dentro das famílias é produtivo no sentido marxista da palavra, ou seja, gera valor para o capitalismo. Fortunati destrincha as dimensões do trabalho reprodutivo, que no livro inclui a criação dos filhos e o cuidado doméstico, mas também o trabalho sexual, a prostituição.
A socióloga afirma que o capitalismo só aprofundou as desigualdades entre homens e mulheres. O operário teria uma relação direta com o capital por meio do trabalho assalariado, enquanto a mulher é vista como “uma força natural” dentro de casa.
Essa divisão, argumenta a autora, interessa ao sistema porque diminui os custos de produção, já que metade da força de trabalho —a que produz novos trabalhadores, os cria e faz refeições— sai de graça.
Além disso, a autora categoriza a prostituição como um trabalho “indiretamente assalariado”. A autora defende que o ganhador principal das relações entre cliente e trabalhadora sexual é o capital. Nessa concepção, o sistema usa a força de trabalho feminina para satisfazer uma necessidade do operário masculino —o sexo— sem se responsabilizar diretamente pelo pagamento disso.
Mais do que isso: enquanto o operário é visto como livre para trocar sua força de trabalho na fábrica, a prostituta é criminalizada, o que diminui sua capacidade de organização em sindicatos, por exemplo, para lutar contra sua exploração.
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Fortunati conta que decidiu escrever a obra para dialogar com a própria esquerda italiana, que nos anos 1970 era tomada pelo operaísmo, um movimento que pretendia renovar o marxismo, mas não rompeu com a visão tradicional do sexo feminino.
“As mulheres não eram consideradas sujeitos políticos. Não eram consideradas parte da composição de classe. No máximo, podiam ajudar os homens que estavam no lugar ‘certo’, o lugar estratégico da produção, para que eles avançassem”, diz.
A autora achava esdrúxula a ideia de que as mulheres deveriam aspirar ao trabalho assalariado em fábricas como forma de libertação das amarras domésticas. “Nunca ficamos satisfeitas com a proposta que a esquerda fazia às mulheres: ‘Saiam de casa, arrumem um emprego e se tornem iguais aos homens’. Essa igualdade na exploração era um objetivo muito pobre”, afirma.
A italiana sentia que a origem dessa proposição —que embasou, por exemplo, a obrigatoriedade do trabalho assalariado para todos os cidadãos soviéticos após a revolução bolchevique— partia do pressuposto de que o trabalho doméstico era um atraso civilizacional.
Em “O Arcano da Reprodução”, ela diz que o verdadeiro inimigo das mulheres é o capitalismo, não os homens. “Se homens e mulheres não estiverem unidos, nós não podemos vencer. Só podemos mudar radicalmente a sociedade se estivermos juntos na luta”, afirma.
Diz que falta aos homens uma revisão radical da própria masculinidade. “Eles não fizeram, depois do movimento feminista, um processo público de revisão. A masculinidade continua moldada pelo capitalismo: pelos valores, a disciplina e a retórica capitalistas.”
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Mas o capitalismo de 1981, quando “O Arcano” foi publicado pela primeira vez, e o de 2026 são sistemas muito diferentes. A análise ainda se sustenta? Fortunati diz que sim, embora os avanços tecnológicos tenham introduzido novas camadas à questão.
No livro, a socióloga defende que apenas a luta anticapitalista pode trazer verdadeira equidade de gêneros, e que desassociar as duas questões levaria a uma “utopia reformista”. Quarenta e cinco anos depois, esse sistema econômico não parece estar indo a lugar nenhum —na verdade, em comparação com os anos 1980, está mais estabelecido como hegemônico.
“O capitalismo morre todos os dias”, responde Fortunati. “A tecnologia, por exemplo, tem sido uma arma poderosa nas mãos do capital contra a classe trabalhadora, especialmente contra as mulheres, mas, ao mesmo tempo, estamos aqui hoje usando o computador, transformando essa ferramenta com nosso comportamento, nossa inteligência, nossa imaginação. Nós construímos o futuro nas práticas cotidianas.”
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