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Especialista em crimes famosos denuncia padrão suspeito: "Câmeras sempre falham na hora H"
A jornalista investigativa Fernanda Piacentini, mestra em comunicação pela Universidade Estadual de Londrina e especialista em crimes de grande repercussão nacional, participou nesta terça-feira do 22º Fórum de Segurança da Barra, Recreio e Vargens , na Barra da Tijuca.
Durante entrevista exclusiva a profissional que ganhou notoriedade pela cobertura do caso Flordelis apresentou críticas contundentes ao sistema de investigação criminal brasileiro. Piacentini, que atua há cinco anos analisando inquéritos e processos criminais, destacou especialmente as deficiências no combate ao estelionato, crime que segundo ela "praticamente vale a pena no Brasil".
A jornalista, que trabalha na The Exposed Brasil, antiga Rede Rio TV produzindo conteúdo para programas como "Sem Frescura" e "Autorretrato", demonstrou profundo conhecimento técnico sobre procedimentos policiais e periciais. Sua experiência na cobertura de casos complexos a posiciona como uma voz autorizada no debate sobre segurança pública e justiça criminal no país.
O caso Henry Borel emergiu como ponto central da análise crítica de Fernanda Piacentini sobre as falhas do sistema investigativo brasileiro. A jornalista apresentou questionamentos técnicos específicos sobre a condução da investigação, apontando lacunas que considera fundamentais para a compreensão dos fatos.
Segundo Piacentini, três pessoas deveriam ter sido investigadas por questões médicas e de laudos, mas isso não ocorreu adequadamente. Ela destacou que "tudo que aconteceu com o menino pode ter acontecido antes dele ser entregue à mãe e ao padrasto", uma linha investigativa que considera negligenciada.
A jornalista também questionou procedimentos médicos realizados no hospital, mencionando que o menino foi intubado mesmo já estando morto há duas horas, procedimento que considera tecnicamente impossível. Suas críticas se estendem ao trabalho do Instituto Médico Legal (IML) e ao depoimento do médico legista Leonardo Tau, que classifica como "muito precário". Para Piacentini, essas falhas comprometem a solidez da acusação e podem resultar em erro judiciário.
A questão das câmeras de segurança em casos criminais de grande repercussão chamou atenção especial na fala de Fernanda Piacentini. A jornalista identificou um padrão preocupante: em vários casos importantes, as câmeras de segurança apresentam problemas justamente nos momentos cruciais dos crimes.
No caso Henry Borel, as câmeras do hospital estavam "em manutenção" no período relevante. Piacentini mencionou que situação similar ocorreu no caso Marielle Franco e em outros crimes, como o caso Garnica em São Paulo, onde as câmeras "desapareceram somente no horário que a assassina entra e sai do prédio".
Essa coincidência sistemática levanta questionamentos sobre possível manipulação de evidências ou negligência na preservação de provas fundamentais. A ausência dessas gravações impede a verificação de versões apresentadas e compromete a reconstrução precisa dos fatos, elemento fundamental para investigações criminais sérias. Para a jornalista, essa recorrência não pode ser tratada como mera casualidade.
A crítica de Fernanda Piacentini à cobertura midiática de crimes ganhou contornos especialmente duros quando abordou os documentários sobre o caso Henry Borel. A jornalista classificou a maioria das produções como "rasas" e "romantizadas", criticando especialmente o documentário da revista Veja, que considera uma "estratégia de promoção política" para a pré-candidatura do pai da vítima a deputado federal.
Piacentini alertou para os riscos da "poluição midiática" que pode comprometer a busca pela verdade, citando casos históricos como Escola Base, irmãos Naves e as "bruxas de Guaratuba", onde pessoas inocentes foram condenadas devido a narrativas midiáticas enviesadas.
Ela defendeu maior responsabilidade jornalística, criticando profissionais que fazem "perfis criminais de pessoas que nunca avaliaram em consultório". Para a jornalista, a produção de documentários antes do julgamento constitui "irresponsabilidade jornalística tamanha", podendo influenciar indevidamente o processo judicial. Sua posição é que o jornalismo deve manter rigor técnico e evitar narrativas simplistas baseadas em estereótipos.
O trabalho de Fernanda Piacentini no caso Flordelis demonstra sua metodologia investigativa e comprometimento com apuração rigorosa. A jornalista produziu dois livros sobre o caso, sendo o primeiro uma biografia da ex-deputada desde a infância, e o segundo abordando todo o processo judicial e de cassação.
Piacentini revelou que algumas de suas descobertas foram incorporadas pelo Ministério Público como provas no processo, demonstrando a qualidade técnica de seu trabalho investigativo. Ela alertou para o cuidado necessário com "supostos santos do Brasil" que se escondem atrás de instituições, ONGs e religiões, mencionando que descobriu vários escândalos envolvendo pessoas que se apresentam como figuras virtuosas.
O trabalho de Fernanda Piacentini sobre crimes envolvendo estelionato e fraudes religiosas revela outra dimensão importante de sua atuação investigativa. Seu livro sobre Daniel Mastral, que se apresentava como "ex-satanista convertido ao cristianismo", expõe metodologia investigativa aplicada a crimes de natureza diferente dos homicídios que a tornaram conhecida.
A jornalista identificou padrões de manipulação psicológica e aproveitamento da fé alheia que caracterizam uma categoria específica de criminalidade frequentemente negligenciada pelas autoridades. Sua observação de que "estelionato praticamente vale a pena no Brasil" reflete análise crítica da legislação e aplicação das leis relacionadas a crimes financeiros.
Piacentini destacou casos de pessoas que "roubam milhões e estão aí, na internet, têm canal no YouTube", evidenciando a impunidade que caracteriza esse tipo de criminalidade. Seu alerta sobre "supostos santos do Brasil" que se escondem atrás de instituições religiosas ou ONGs demonstra compreensão das estratégias utilizadas por criminosos para construir credibilidade social antes de aplicar golpes. Essa linha de investigação posiciona a jornalista como especialista em crimes que exploram vulnerabilidades emocionais e espirituais das vítimas.
Piacentini também demonstrou sensibilidade para questões sociais mais amplas, como no caso Sofia na Paraíba, onde criticou delegado que considerou "normal" e "cultural" o abuso sexual infantil. Sua cobertura do caso da Ilha do Marajó, prejudicada pela "polarização política", exemplifica como questões ideológicas podem comprometer debates importantes sobre proteção infantil.
A jornalista consegue equilibrar denúncia de injustiças com defesa de procedimentos legais adequados, posição que requer sofisticação intelectual e coragem profissional consideráveis.
O futuro do jornalismo investigativo criminal no Brasil
A atuação de Fernanda Piacentini estabelece precedentes importantes para o desenvolvimento do jornalismo investigativo criminal no Brasil. Sua metodologia rigorosa, baseada em análise documental e consulta a especialistas, oferece alternativa consistente ao sensacionalismo que tradicionalmente caracteriza a cobertura de crimes no país.
A jornalista demonstra que é possível manter interesse público sem sacrificar rigor técnico ou princípios éticos fundamentais. Seu trabalho sugere caminhos para profissionalização maior do segmento, incluindo necessidade de formação especializada em áreas como medicina legal, psicologia forense e procedimentos policiais.
A experiência de Piacentini também evidencia importância da independência editorial para investigações sérias, já que pressões comerciais ou políticas podem comprometer qualidade das apurações.
Sua trajetória indica que o jornalismo investigativo criminal brasileiro está amadurecendo, desenvolvendo padrões profissionais mais elevados e contribuindo efetivamente para aperfeiçoamento do sistema de justiça criminal.
O modelo estabelecido por Fernanda Piacentini pode inspirar nova geração de jornalistas especializados, capazes de exercer papel fiscalizador fundamental em sociedade democrática.

Por Robson Talber @robsontalber
Repórter Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ
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