José Antônio do Pacu apresenta realidade de cidade turística que recebe milhares de visitantes mas possui orçamento municipal incompatível com demandas reais

Tiradentes reclama justiça fiscal: município histórico denuncia subenumeração no censo que compromeete gestão pública

Brasília ouviu em maio de 2026 o grito de um município que carrega peso histórico incompatível com sua estrutura financeira. José Antônio do Pacu, prefeito de Tiradentes durante a XXVII Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios, denunciou a que o IBGE registra apenas 8.200 habitantes quando levantamento municipal aponta aproximadamente 11 mil pessoas.

Esta discrepância não é meramente estatística impacta diretamente o financiamento de serviços públicos que sustentam uma cidade que recebe dezenas de milhares de visitantes a cada fim de semana.

Tiradentes integra patrimônio histórico nacional como o local onde germinou a Inconfidência Mineira, movimento que pretendia separar Brasil de Portugal no século XVIII.

A cidade é berço da liberdade brasileira, conforme narrativa consolidada. Porém, este peso histórico não traduz em transferências federais ou investimentos que compensem a complexidade administrativa de gerir simultaneamente patrimônio cultural, infraestrutura turística e serviços municipais básicos para população permanente que, segundo município, aproxima-se de 11 mil habitantes.

O desafio da população flutuante

Tiradentes enfrenta realidade única entre municípios brasileiros. Enquanto cidades tradicionais possuem população relativamente estável, Tiradentes experimenta inchaço dramático nos finais de semana.

Conforme registrado em redes sociais municipais, "recebemos milhares de visitantes todos os finais de semana, o que movimenta a economia, mas também" demanda infraestrutura de acolhimento, segurança, limpeza e manutenção de patrimônio.

Esta população flutuante não é contabilizada no censo demográfico, que captura snapshot da população residente. Porém, a infraestrutura municipal deve dimensionar-se para acolher visitantes.

Estradas, água, esgoto, energia, segurança pública e coleta de lixo precisam funcionar para população residente mais visitantes simultâneos. A estrutura de custos não é 8.200 habitantes, é significativamente maior.

O absurdo dos custos de gestão

A denúncia mais contundente de José Antônio diz respeito ao custo de coleta e tratamento de lixo.

Conforme declarado, cidades do entorno de Tiradentes, "do tamanho Tiradentes", gastam aproximadamente R$ 400 mil anuais em gestão de resíduos. Tiradentes gasta cerca de R$ 3,6 milhões nove vezes mais.

Esta desproporcionalidade não é irresponsabilidade, mas consequência matemática. Cidade que recebe milhares de visitantes semanalmente gera volume de resíduos compatível com população de dezenas de milhares.

A coleta e tratamento desta quantidade de lixo tem custo real que não pode ser comprimido sem comprometer saúde pública ou qualidade ambiental.

O orçamento municipal, porém, é calculado com base em 8.200 habitantes. Isto significa Tiradentes recebe transferências federais com base em população que é menos da metade da população real que necessita servir. A matemática resulta inevitavelmente em déficit.

O IBGE e a qualidade dos dados

A participação de José Antônio em Brasília trouxe atenção a problema mais amplo: confiabilidade de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O prefeito mencionou que "o IBGE foi muito furado desse último censo", indicando que problemática de subenumeração não é específica a Tiradentes.

Conforme comunicado, apenas na sede da Secretaria Municipal (SF), Tiradentes contabiliza 10.400 pessoas.

Isto sugere que a população real do município ultrapassa significativamente os 8.200 registrados pelo IBGE. Se apenas um prédio (a secretaria) tem 10.400 usuários diretos, população do município inteiro claramente é maior.

Esta discrepância tem origem em múltiplos fatores possíveis: população que não estava presente no momento do censo, população flutuante que reside em Tiradentes, mas não mantém domicílio formal, ou simplesmente metodologia censitária que subenumerou município. Independentemente da causa, o resultado é transferência de recursos federal incompatível com demandas reais.

O legado histórico como responsabilidade federativa

José Antônio argumentou que "eu cuido da terra, como você falou, onde nasceu o Tiradentes, que é o berço da liberdade do Brasil".

Sua reivindicação toca questão de justiça federativa. Se Tiradentes é patrimônio nacional que gerou movimento que forjou independência brasileira, seria legítimo que União oferecesse suporte adicional para preservação deste patrimônio.

Porém, a realidade é inversa. Município carrega encargos financeiros de conservação de patrimônio histórico restauração de prédios coloniais, segurança de sítios arqueológicos, musealização de história sem transferências federais específicas para esta finalidade. Isto transforma Tiradentes em subscritor não voluntário de projeto nacional de preservação histórica.

O municipalismo como resposta

A participação de José Antônio em Brasília refletiu agenda municipalista crescente. Sua declaração resume a posição: "Na realidade, eu acho que o brasileiro mora nos municípios.

Acho que tem que reforçar os municípios, porque é no município que tudo acontece". Esta não é crítica ao governo federal, mas reivindicação de que recursos e autonomia se desloquem para esferas onde gestores têm contato direto com população.

A Marcha dos Prefeitos oferece plataforma para esta mobilização. Com mais de 5.500 municípios representados, a força política da municipalidade brasileira é imensurável quando unida.

Tiradentes, apesar de pequena em população oficial, integra-se nesta rede de poder que busca rebalancear federalismo brasileiro.

O terceiro mandato como acumulação de experiência

José Antônio possui dois mandatos anteriores como prefeito (2016-2024) e dois como vereador.

Esta experiência acumulada oferece compreensão profunda de desafios municipais que frequentemente escapa a gestores de primeira viagem. Seu diagnóstico não é teórico, mas enraizado em vivência de décadas de gestão pública local.

Por Ralph Lichotti e Robson Talber @robsontalber 

Repórter Oscar Muller @oscarmulleroficial

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Por Ultima Hora em 19/05/2026
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