Memória de uma travessia militar que terminou por fora, mas permaneceu por dentro

 Memória de uma travessia militar que terminou por fora, mas permaneceu por dentro

Walter Felix Cardoso Junior

wfelixcjr3.carrd.co

Dedicatória

Aos Tenentes do Curso de Infantaria da Academia Militar das Agulhas Negras, nos idos de 1971, que nos incentivaram a prosseguir durante uma travessia real: um tubo fechado nas duas extremidades, com gás, lama, cansaço, incerteza e obstáculos estranhos preparados para testar nossos limites.

Naquele momento, talvez eu ainda não soubesse tudo o que estava atravessando.

Hoje, passadas tantas décadas, sei que aquela experiência permaneceu em mim.

E ainda creio que valeu a pena.

 

O TUBO

Entrar profissionalmente no Exército é como decidir atravessar um tubo muito comprido.

Do lado de fora, antes da escolha, não conseguimos ver exatamente onde ele termina. Enxergamos apenas a abertura inicial e, para além dela, uma espécie de nevoeiro que se alonga. Sabemos que haverá escuridão, aperto, desconforto e provas. Mas também imaginamos que, em algum ponto distante, haverá luz, pertencimento, honra e a confirmação de que fomos capazes.

A juventude costuma aceitar travessias assim com uma mistura de inconsciência, bravura e grandeza. Talvez seja preciso não saber inteiramente o que virá para conseguir começar. Quem sentisse com perfeita nitidez todo o frio, toda a lama, toda a fome, toda a solidão, toda a incerteza, toda a obediência e todas as perguntas que uma vida militar pode impor talvez hesitasse mais do que convém à coragem. E isso sem contar os horrores de uma guerra que, felizmente, não tivemos de enfrentar.

Nós olhamos para a boca do tubo e entramos.

Logo nos primeiros metros, percebemos que ele era mais apertado do que parecia. Não se tratava de uma passagem em que fosse possível avançar engatinhando, conservando alguma integridade, liberdade relativa de movimento e ainda certa elegância pessoal. Era preciso reduzir o corpo. Em certos trechos, ainda se conseguia prosseguir rastejando sem obstáculos maiores. Em outros, a única forma de avançar era colar-se ainda mais ao fundo, arranhar os cotovelos, controlar a respiração e ir se esfregando para a frente.

A primeira lição do tubo não era sobre vencer.

Era sobre caber.

Com o tempo, começávamos a compreender que aquela talvez fosse também uma das primeiras lições profundas da vida militar. Há instituições que nos recebem em espaços largos, permitindo que cresçamos sem perder a forma original. Outras, por necessidade, tradição, cultura própria, costume ou dureza cultivada ao longo do tempo, começam exigindo que o indivíduo aprenda a adaptar-se ao espaço estreito que lhe foi oferecido.

O Exército, sobretudo para quem chega pela vertente da formação combatente, tem algo desse tubo.

Ele cobra resistência antes mesmo de explicar por inteiro o sentido da resistência. Cobra obediência antes que tenhamos maturidade para distinguir obediência digna de submissão inútil. Cobra silêncio antes que saibamos quais perguntas merecem ser guardadas e quais deveriam ser feitas. Cobra força num momento da vida em que ainda estamos descobrindo que tipo de homem seremos.

E eu era, ainda, um cadete imberbe de dezenove anos.

Em determinados trechos, adaptar-se é parte legítima da formação. Ninguém atravessa uma instituição militar carregando intactas todas as comodidades, fragilidades e ilusões da vida anterior. Há que aprender disciplina. Há que conhecer os próprios limites. Há que suportar desconforto. Há que descobrir que o corpo obedece mais do que supúnhamos e que a vontade, quando amparada pelo exemplo e pela camaradagem, vai além do ponto em que imaginávamos desistir.

Mas há também uma pergunta que só aparece muito depois:

Quanto de nós precisou minguar para caber no tubo — e quanto de nós conseguiu, ao contrário, alargar suas paredes sem romper com a travessia?

Nem todos atravessam da mesma maneira.

Alguns aprendem rapidamente a se moldar à estreiteza. Deslizam bem no ambiente apertado, compreendem seus códigos, aceitam suas provas e terminam com a sensação de que aquela era a única forma possível de sobreviver sem perder muito de si.

Outros seguem adiante aos trancos, cumprindo o exigido, mas guardando por dentro certas resistências, certas perplexidades, certas perguntas que não encontravam ocasião de ser ditas.

Outros ainda tentam, ao longo da vida, estufar um pouco o cano. Não para destruí-lo. Não para negar a disciplina, o valor da instituição ou a necessidade de formar homens preparados para situações extremas. Mas para que os que venham depois possam atravessar com coragem sem precisar abandonar mais humanidade do que a missão realmente exige.

Naquele tubo de 1971, porém, não havia espaço para filosofias tardias.

Havia apenas a prova.

As duas extremidades estavam tampadas para que a passagem não oferecesse conforto indevido. Dentro, havia lama, gás, confinamento e cansaço. Havia também um obstáculo inesperado e repulsivo: o corpo de um cão morto, colocado ali como parte do percurso.

Não sei se pretendia simular alguém que houvesse tombado no caminho ou apenas acrescentar repulsa e choque à prova. Para nós, naquele instante, bastava compreender que era preciso tocá-lo, vencê-lo e continuar.

A mão percebia antes dos olhos. O corpo compreendia antes que a mente organizasse o pensamento. Num ambiente assim, não havia tempo para grandes considerações sobre o sentido pedagógico de cada elemento. Havia uma ordem muda, inscrita no próprio percurso:

seguir.

E nós seguíamos.

Não porque fôssemos insensíveis. Não porque não sentíssemos repulsa, medo, insegurança ou espanto. Não porque a situação nos parecesse natural.

Seguíamos porque havíamos entrado no tubo.

Avançávamos porque havia camaradas à frente e atrás. Porque parar seria comprometer a travessia dos outros. Porque, naquela idade e naquela formação, abandonar o percurso parecia infinitamente mais doloroso do que suportá-lo. Porque o corpo jovem ainda possui uma reserva de teimosia que, quando tocada pelo orgulho e pelo incentivo, atravessa lugares que a razão adulta examinaria com mais cautela.

E, sobretudo, porque havia vozes do lado de fora.

Os Tenentes do Curso de Infantaria estavam ali. Não atravessavam por nós, porque ninguém atravessa o tubo por outro homem. Certamente, já tinham passado por aquilo em algum tempo anterior. Mas acompanhavam. Incentivavam. Faziam chegar até o ambiente fechado sinais de que a prova tinha testemunhas, de que nosso esforço estava sendo visto e de que havia uma saída esperando além daquele aperto.

Isso talvez seja uma das coisas mais importantes na formação ética de um soldado — e, no fundo, de qualquer ser humano submetido a uma prova: saber que não está abandonado dentro dela.

O sofrimento solitário pode embrutecer ou quebrar. A dureza acompanhada por uma voz que encoraja pode ganhar outro significado. Não deixa de ser dura. Não deixa de doer. Mas passa a integrar uma história na qual alguém acredita que conseguiremos chegar.

Dentro do tubo, perdíamos a noção mais precisa do tempo. O frio, o cansaço, a lama e a dificuldade de respirar iam deixando de ser acontecimentos separados. Tornavam-se ambiente. Não era mais possível dizer com clareza: agora estou desconfortável; agora estou fatigado; agora estou com medo.

Tudo passava a compor uma única condição: estar ali dentro, prosseguindo na missão.

Essa também é uma aprendizagem militar.

Depois de certo tempo, o homem deixa de reagir a cada desconforto como se fosse novidade. O corpo aprende a administrar escassez. A mente aprende a compartimentar medo. A disciplina ocupa o lugar que o entusiasmo inicial já não consegue sustentar. E há um momento em que continuar já não depende de coragem espetacular. Depende apenas de colocar o cotovelo um pouco mais à frente, puxar o corpo, respirar como der e não abandonar os camaradas nem a si mesmo.

Hoje, olhando para trás, sei que uma prova como aquela pode ser observada de muitos ângulos.

Alguém poderia enxergar apenas brutalidade desnecessária. Outro poderia transformá-la numa espécie de relíquia sagrada da formação combatente, como se tudo o que sofremos devesse ser repetido intacto para conservar valor.

Não me reconheço inteiramente em nenhum dos extremos.

Não creio que a dignidade militar dependa de reproduzir, eternamente, todas as durezas que marcaram gerações anteriores. As instituições amadurecem também quando aprendem a separar aquilo que realmente forma daquilo que apenas reproduz costumes severos.

Mas tampouco consigo olhar para aquela passagem como se ela nada tivesse me dado.

Deu-me medida de limite.

Deu-me o conhecimento concreto de que o corpo reclama antes que a vontade desista.

Deu-me a experiência de prosseguir quando o ambiente parecia indigno de conforto.

Deu-me a memória das vozes que incentivavam do lado de fora.

Deu-me a confirmação de que havia camaradas ali, dentro e fora do tubo.

Deu-me uma pequena parte daquela confiança, difícil de explicar a quem nunca viveu algo semelhante, de que há momentos em que não se pergunta se a passagem é agradável: atravessa-se porque atravessá-la é, naquele instante, o modo disponível de tornar-se aquilo que se escolheu ser.

Em algum momento, depois do gás, da lama, do aperto e do cansaço, surgiu a luz.

Primeiro como impressão vaga, talvez quase uma esperança inventada pelo corpo exausto. Depois como claridade real. O ar começou a mudar. A saída aproximou-se. E, vindos de fora — ou talvez apenas de algum lugar dentro de mim —, chegavam os sons que davam à travessia um sentido maior do que a simples cessação do desconforto.

Pareciam dobrados militares executados por uma banda de música.

Mas não havia banda alguma.

Era uma criação da minha própria mente. A recepção simbólica que o jovem cadete, exausto e orgulhoso, inventava para si mesmo ao final de mais uma prova. A música imaginada dizia o que o corpo ainda não conseguia formular:

Vocês atravessaram. Vocês chegaram. Vocês pertencem agora ao grupo daqueles que souberam suportar.

Saíamos sujos, cansados, provavelmente sem a menor aparência marcial que a imaginação romântica atribui aos feitos militares. Mas éramos festejados. E aquele festejo fazia algo extraordinário com o sofrimento recém-vivido: convertia-o em orgulho.

É uma operação humana muito profunda.

A prova, enquanto acontece, é aperto, frio, medo, repulsa e esforço. Depois que termina, se houve sentido, companheirismo e reconhecimento, ela começa a transformar-se em memória de valor. Aquilo que quase nos fez recuar torna-se aquilo que gostamos de lembrar como prova de que não recuamos.

Talvez por isso, estranhamente, desejássemos voltar.

Não necessariamente para repetir cada desconforto ou reviver cada minuto de aflição, mas para reencontrar aquela versão de nós mesmos que descobrira ser capaz de terminar.

O jovem que sai do tubo já não é exatamente o mesmo que entrou. Ele carrega a convicção recém-adquirida de que suportou algo que antes conhecia apenas por imaginação.

E essa convicção pode acompanhar um homem por toda a vida.

Mas o tubo também deixa perguntas.

Porque a formação militar não se limita a fazer homens atravessarem provas físicas. Ela produz formas de perceber o mundo. Ensina o valor do dever, da resistência, da lealdade e da missão. Mas pode também ensinar, sem perceber, a desconfiar do conforto, a silenciar o incômodo, a medir dignidade pela capacidade de suportar aperto, a imaginar que todo obstáculo foi colocado por uma razão superior, mesmo quando talvez pudesse ter sido evitado.

Quem passou muito tempo em ambientes estreitos pode ter dificuldade, depois, para caminhar plenamente de pé.

Muitos anos se passam.

A farda deixa de ser uso diário. Os planejamentos militares já não organizam a agenda de hoje. As alvoradas não chegam com o mesmo significado. Os dobrados insistem em morar mais na memória do que no ouvido. A vida se abre em espaços novos, menos hierarquizados, menos previsíveis, às vezes mais largos do que conseguimos ocupar sem alguma hesitação.

E então percebemos que o tubo não terminou inteiramente na saída.

Parte dele veio conosco.

Ele reaparece na forma como enfrentamos problemas, na resistência quase automática ao cansaço, na dificuldade de pedir ajuda, na atração por missões difíceis, na impaciência diante da frouxidão, na solidariedade imediata com quem atravessou algo semelhante.

Aparece também na saudade.

Porque é possível sentir saudade até daquilo que foi duro. Não da lama em si. Não do gás. Não do desconforto ou do obstáculo que jazia chocante. Mas da juventude que atravessava, dos camaradas da frente e de trás, das vozes que encorajavam, do vozerio na saída e da impressão de que a vida, apesar de estreita e exigente, apontava para algum lugar inequívoco.

Com o passar dos anos, a memória se torna menos ansiosa por julgar e mais interessada em compreender.

Eu não gostaria de reduzir aquela experiência a uma denúncia tardia. Seria injusto com os homens que nos formaram, com os companheiros que a viveram comigo e com o jovem que, dentro do tubo, encontrou razão suficiente para continuar.

Também não gostaria de transformá-la numa receita intocável. O fato de uma prova ter-me formado não obriga as novas gerações a receberem exatamente os mesmos ingredientes, da mesma forma, sem reflexão ou aperfeiçoamento.

A memória adulta não precisa escolher entre adorar, condenar ou enterrar.

Pode reconhecer.

Pode agradecer.

Pode questionar.

Pode recolher a força recebida e, ao mesmo tempo, desejar que toda formação, militar ou não, saiba cada vez melhor distinguir dureza necessária de estreiteza herdada.

Há noites em que lembranças assim surgem sem convocação.

A casa está quieta. A companheira assiste à televisão no quarto. O velho soldado, aparentemente já distante das pistas que simulam o combate, dos campos espinhosos e das provas duras de formação, dedilha algumas palavras e, sem aviso, sente novamente o cheiro da terra úmida, a dificuldade da passagem, a presença dos camaradas — inclusive alguns que já se foram —, mais o gás, a lama e o corpo forçando espaço onde quase não havia espaço.

Talvez ouça ainda, muito ao longe, uma banda de música.

Talvez perceba que algumas travessias não pedem licença para voltar. Elas apenas se apresentam, porque ficaram guardadas não na memória dos fatos, mas na arquitetura interior de quem as viveu.

Naquele tubo, em 1971, entrei primeiro com a cabeça e com a imprudente coragem de um jovem cadete submetido a uma prova.

Saí dele um pouco mais capaz de suportar, de avançar e de confiar nos que me estimulavam a não parar.

Hoje, tantas décadas depois, posso olhar para aquela experiência com ternura, perplexidade, gratidão e algum direito à reflexão.

Se me perguntassem se deveria ter passado por aquilo, talvez eu levasse algum tempo antes de responder.

Mas, se me perguntarem se aquela travessia fez parte do homem que me tornei, a resposta será imediata:

fez.

E, se me perguntarem, afinal, se valeu a pena, responderei com a serenidade que só o tempo concede:

sim.

Valeu a pena.

Não porque todo aperto seja bom.

Não porque todo tubo mereça ser atravessado.

Não porque toda dureza forme melhor do que o cuidado.

Mas porque, naquele tubo, naquele tempo, entre lama, gás, cansaço, camaradas, Tenentes e os dobrados militares que minha própria imaginação fez soar do lado de fora, atravessei algo maior do que um obstáculo de instrução.

Atravessei uma fronteira de mim mesmo.

E talvez seja essa a razão pela qual, mesmo depois de tanto tempo, ainda compreendo que o tubo não foi apenas uma passagem.

Ele se tornou parte da minha morada interior.

Por Ultima Hora em 03/06/2026
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