Morre La Madre de Plaza de la Candelária e Vigário Geral

Siro Darlan, jornalista, advogado, Vice-Presidente da Academia Brasileira de Letras do Cárcere

Morre La Madre de Plaza de la Candelária e Vigário Geral

Morreu nesta segunda-feira (20) a advogada e ativista Cristina Leonardo, uma das mais importantes defensoras dos direitos humanos no Brasil. Sua trajetória foi marcada pela firme atuação em casos emblemáticos de violência estatal, entre eles as chacinas da Candelária e de Vigário Geral, ocorridas em 1993, no Rio de Janeiro, que expuseram ao mundo a brutalidade das ações policiais contra moradores de rua e moradores de favelas.

Cristina, uma das mais aguerridas defensoras dos direitos humanos dedicou sua vida à defesa das vítimas da violência institucional e de suas famílias, garantindo que a justiça não se limitasse ao discurso. Sua atuação foi fundamental para que os familiares das vítimas conseguissem identificar e indiciar suspeitos, além de conquistar indenizações do Estado — algo raro em casos de crimes cometidos por agentes públicos.

Com uma trajetória construída na interseção entre o Direito, o ativismo social e a defesa das populações marginalizadas, Cristina Leonardo tornou-se uma referência para gerações de advogados e militantes que atuam nas favelas e periferias brasileiras. Sua prática combinava técnica jurídica com sensibilidade humana, sempre voltada à reparação e ao reconhecimento da dignidade das pessoas historicamente silenciadas.

Para André Fernandes, fundador da Agência de Notícias das Favelas, que foi também secretário executivo da Casa da Paz de Vigário Geral e atuou muito ao lado de Cristina, sua partida deixa uma lacuna irreparável. 

“Ela tinha um grande cuidado e afeto com os familiares das vítimas das chacinas”, afirmou Fernandes.

 

A importância da advogada Cristina Leonardo na defesa dos direitos humanos no Brasil é significativa e multifacetada. Ela se tornou uma figura proeminente, especialmente na era digital, por utilizar sua plataforma para amplificar causas que muitas vezes são negligenciadas pela mídia tradicional e pelo poder público.

Vamos detalhar os principais pilares de sua atuação:

1. Advocacia em Casos de Alto Impacto e Violência de Estado

Cristina Leonardo é conhecida por atuar na defesa de vítimas de violência estatal, particularmente em casos que envolvem:

- Autores de Crimes e Vítimas do Sistema: Ela defendeu pessoas que cometeram crimes, mas que também são vítimas de violações graves de direitos humanos dentro do sistema prisional ou durante a ação policial. Sua atuação busca garantir o devido processo legal e combater tortura, tratamentos desumanos e execuções sumárias.

· Famílias de Vítimas da Violência Policial: Ela representou famílias de pessoas mortas em operações policiais, especialmente nas periferias e favelas, dando voz a essas pessoas e lutando por justiça e reparação. Um dos casos mais emblemáticos que a tornou nacionalmente conhecida foi a defesa de Raul Santiago, criador do projeto Papo Reto, no Complexo do Alemão. Raul era constantemente ameaçado por sua atuação jornalística denunciando abusos policiais.

2. Combate ao Genocídio da População Negra e Periférica

Sua atuação está intrinsecamente ligada ao combate ao que muitos movimentos sociais denominam de "genocídio da população negra e periférica". Cristina utilizou o direito como ferramenta para:

· Desnaturalizar a Violência: Ela desafia a narrativa de que a morte de jovens negros e pobres é um "dano colateral" inevitável da guerra às drogas.

· Expor o Racismo Estrutural: Através de suas ações judiciais e de sua fala pública, ela demonstra como o sistema de justiça e a polícia operam de forma seletiva e racista.

3. Ativismo Digital e Comunicação como Ferramenta de Resistência

Um dos aspectos mais inovadores de seu trabalho foi o uso estratégico das redes sociais, especialmente o Twitter (agora X) e o Instagram.

· Tribunal da Opinião Pública: Ela "julgava" casos publicamente, explicando nuances jurídicas de forma acessível e mobilizando a opinião pública sobre injustiças. Isso gera pressão social que, por vezes, influencia o andamento de processos ou impede a consolidação de versões únicas da polícia.

· Pedagogia Jurídica: Cristina traduz o "juridiquês" para uma linguagem popular, empoderando pessoas comuns com conhecimento sobre seus direitos. Ela ensinou, por exemplo, o que fazer em uma abordagem policial, quais são os direitos de um preso e como famílias podem buscar reparação.

· Denúncia em Tempo Real: Durante operações policiais em favelas, ela frequentemente amplificava relatos de moradores e ativistas locais, servindo como um canal de denúncia rápido e eficaz que contorna a censura ou a desinformação oficial.

4. Defesa dos Direitos das Mulheres e Enfrentamento ao Machismo

Como uma mulher atuando em um ambiente extremamente hostil (o direito penal e a segurança pública são campos muito masculinizados), sua própria presença representou um ato de resistência. Ela:

· Enfrentou ameaças e misoginia: Constantemente alvo de ataques machistas e ameaças de morte, ela os denuncia publicamente, expondo o custo pessoal de ser uma mulher na linha de frente da defesa de direitos humanos.

· Deu visibilidade a casos de mulheres: Atuou em defesa de mulheres vítimas de violência de gênero e do sistema de justiça, mostrando as intersecções entre racismo, classe e machismo.

5. Crítica ao Sistema de Justiça e ao Punitivismo

Cristina Leonardo foi uma crítica ferrenha do sistema de justiça criminal brasileiro, que ela apontava como seletivo e excludente. Sua atuação vai além da defesa de casos individuais e busca:

· Questionar a lógica punitiva: Ela argumentava que o sistema prisional brasileiro não ressocializa, mas sim aprofunda as desigualdades e a violência.

· Defender Alternativas à Prisão: Foi uma voz importante na defesa de penas alternativas e da desencarceração, especialmente para crimes não-violentos e para populações vulneráveis.

Críticas e Controvérsias

Sua atuação não é isenta de críticas. Setores mais conservadores e defensores de uma linha "dura" na segurança pública a acusam de:

· "Defensora de Bandidos": Uma crítica comum e simplista, que ignora o papel fundamental do direito de defesa em um Estado Democrático de Direito.

· Criminalização da Polícia: Seus críticos argumentam que seu trabalho deslegitima a ação policial e coloca todos os policiais em uma mesma categoria de "violadores".

  Essas críticas, no entanto, foram frequentemente usadas por ela para ilustrar a polarização e a dificuldade de se discutir segurança pública e direitos humanos de forma racional no Brasil.

A importância de Cristina Leonardo reside em sua capacidade de articular a atuação jurídica técnica com o ativismo social e a comunicação de massas. Ela não é apenas uma advogada que atuava nos tribunais; ela foi uma intelectual pública que educava, mobilizava e confrontava estruturas de poder. Em um contexto de crescentes violações de direitos humanos e de um debate público cada vez mais polarizado, sua voz tornou-se essencial para dar visibilidade às vítimas do Estado e para desafiar as narrativas hegemônicas sobre crime, castigo e justiça no Brasil.

Cristina Leonardo deixa órfãos milhares de excluídos pela ausência de politicas publicas inclusivas e uma advocacia cada vez mais carente de pessoas que se dediquem à causa dos direitos humanos que provem que efetivamente a advocacia não é uma profissão para covardes.

Cristina Leonardo entra na história do Brasil como uma das grandes mulheres e advogadas que honraram sua profissão colocando-se à serviço dos perseguidos por causa da justiça

Por Ultima Hora em 21/10/2025
Aguarde..