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O mês é dedicado às mulheres e felizmente há muitas em destaque e fazendo a roda girar.
No empreendedorismo cultural tem sido também terra fértil e lugar de desbravamento e muitas conquistas.
Nessa matéria especial em homenagem ao universo feminino conversamos com a produtora cultural Ana Ventura Miranda, que ousadamente deu seus primeiros passos nessa direção por entender a necessidade de se intercambiar cultura e proporcionar uma troca rica ente Portugal e o mundo, especialmente no que tange a contemporaneidade. Ela vem fazendo história.
Com a palavra Ana Ventura:
Última Hora: Sua história com o mundo da arte começa como atriz. O que te despertou para a área artística? Houve influência familiar?
Desde pequena, sentia uma paixão genuína pela dança e pela representação. Cresci em Torres Vedras, uma cidade pequena onde as oportunidades culturais eram limitadas, mas isso nunca me impediu de lutar pelos meus sonhos.
A série televisiva "Fama" foi muito importante para eu entender o meu amor pelas artes.
Ana Ventura : Era uma janela para um mundo onde os meus sonhos faziam sentido, onde via refletida a minha própria vocação artística. Mas antes disso, foram os livros que me abriram caminho. Os livros foram a minha primeira porta para a criatividade e para sair do lugar onde eu estava para ultrapassar fronteiras. Cada página me permitia ser alguém diferente, viver histórias que me transportavam muito além do meu contexto.
UH: Houve influência familiar?
AV: Uma profissão nas artes nunca teria sido a primeira escolha dos meus pais.
Compreendiam que era um caminho incerto e precário. No entanto, sempre me
apoiaram incondicionalmente. Escolheram confiar em mim, permitiram-me seguir os
meus sonhos e acreditaram no que o meu coração me dizia. Esse apoio genuíno foi a
maior herança que podia receber a liberdade para ser quem realmente sou.
UH: Você decide seguir para Nova York e lá começa um novo tempo na sua vida profissional. O que te motivou a escolher por Nova York?
AV: Na realidade, a minha escolha era o Rio de Janeiro e o Brasil, mas resolvi passar em Nova Iorque antes de vir para o Rio de Janeiro. Naquela altura, tinha algumas propostas de trabalho no Brasil e achei que seria estratégico ir à Nova Iorque primeira, fazer cursos de aperfeiçoamento, porque isso ia valorizar o meu currículo como atriz e a minha experiência em termos de cinema. Pensava que seria um passo importante antes de chegar ao Brasil.
O que aconteceu foi inesperado e transformador. Os três meses que tinha previsto passar em Nova Iorque transformaram-se em mais de 20 anos. Nova Iorque abriu portas inimagináveis. A cidade permitiu-me ser do meu tamanho e ter a audácia de concretizar a minha visão para as artes e para Portugal.
No entanto, o Brasil esteve sempre no meu coração. Desde o início do Arte Institute,
realizamos projetos em várias cidades brasileiras através da promoção de Portugal e da cultura dos países de língua portuguesa. Isso permitiu-me continuar a ter uma ligação muito próxima com o Brasil e a ter contato com questionamentos extremamente avançados e inquietantes sobre a cultura, que sinto sempre que o Brasil consegue ter e está muitíssimo avançado em diversos temas desta área.
Como sempre digo… o meu corpo é português, a minha cabeça é nova iorquina, e a
minha alma e o meu coração são cariocas.
UH: Quais suas primeiras atividades por lá?
AV: Fiz variadíssimas coisas em Nova Iorque. Comecei por fazer cursos de atuação, de
representação e cinema, que era o motivo porque tinha ido para Nova Iorque. Tal como os meus colegas estudantes, realizei alguns trabalhos temporários em restaurantes.
Quando percebi que iria ficar mais tempo em Nova Iorque, comecei a trilhar um
caminho profissional mais consistente e acabei a trabalhar na Missão de Portugal junto das Nações Unidas. Trabalhei também como jornalista para a televisão portuguesa, bem como em órgãos de imprensa escrita portuguesa e brevemente na Rádio em Português das Nações Unidas.
Posteriormente, trabalhei na renomada Galeria Sonnabend e, a seguir, fundei o Arte
Institute, que se tornou, até agora, a grande concretização e missão da minha vida.
No fundo, este percurso profissional permitiu que se construísse em mim uma visão de como eu gostaria de ver Portugal representado no mundo. Por ter trabalhado em
multinacionais, por ter sido atriz, produtora e jornalista, consegui apreender e criar um modelo inovador de como mostrar o Portugal contemporâneo em todo o mundo.
UH: Em 2011 você funda o Arte Institute para divulgar a arte e cultura portuguesa contemporânea. Quais as primeiras iniciativas do Instituto?
AV: Há 15 anos, quando criei o Arte Institute, o meu grande objetivo era mostrar em Nova Iorque o Portugal contemporâneo. Na altura, Portugal era um país pouco
conhecido e tão pouco considerado o destino turístico dos americanos que é hoje.
Com as primeiras iniciativas, como o "NY Portuguese Short Film Festival", o primeiro
festival de curtas-metragens portuguesas nos Estados Unidos, e o "Summer Night Series at Union Square Park", conseguimos abrir portas e concretizar o nosso objetivo
primeiro: mostrar Portugal contemporâneo e internacionalizar os artistas portugueses. A partir daí seguiram-se muitos outros eventos.
Durante todo este percurso passamos por 39 países, 121 cidades e promovemos mais de 1.500 artistas em todo o mundo. E foi-se tornando cada vez mais evidente que todos os países da CPLP e toda a comunidade lusófona faziam parte desta ação. Desde o início tínhamos algumas relações com o Brasil, mas fomos aprofundando com outros países que falam português, em África e também em Macau e Timor. Hoje, o nosso grande objetivo continua sendo promover os artistas portugueses contemporâneos e impulsionar projetos que unam artistas da lusofonia em várias áreas multidisciplinares.
UH: O que você prioriza divulgar?
AV :A prioridade, o objetivo e a missão do Arte Institute continuam as mesmas: promover a cultura portuguesa contemporânea; a criação de projetos multidisciplinares que envolvam artistas portugueses contemporâneos e do mundo lusófono; e a sua internacionalização global.
Continuamos a discussão do melhor caminho para estabelecer novas formas de diálogo entre a cultura, o negócio e o turismo.
É fundamental criar uma relação saudável com todo este avanço que será inevitável nas nossas vidas.
UH: O Instituto se expandiu mundo afora. Qual sua análise sobre o efeito do intercambio cultural produzido pelos festivais?
AV : É realmente um feito inédito a expansão do Arte Institute globalmente e a forma como impulsionou a internacionalização dos artistas portugueses contemporâneos. A riqueza do Arte Institute é ter conectado os artistas portugueses com diversas comunidades artísticas de todo o mundo. Quando trabalhamos todos juntos somos mais fortes e quando integramos várias culturas no mesmo projeto a beleza e a força que isso cria é extraordinária.
Um excelente exemplo é o projeto "Sobre o Mar Poesias", que durante mais de 10 anos ajudamos a internacionalizar, juntando o escritor angolano Ondjaki, o músico brasileiro Marcelo Magdaleno e o artista plástico português António Jorge Gonçalves, integrando literatura, música, artes plásticas e por vezes dança para mostrar a beleza e força da língua portuguesa.
UH: Como você exercita seu olhar para o novo, já que você trabalha com o contemporâneo?
AV: Exercito o meu olhar para o novo - vivendo. Como em tudo na minha vida, observo o mundo à minha volta, as pessoas, os ambientes, a vida a acontecer. Para tudo, sempre é uma questão de realmente olhar e de exercitar a empatia, de nos tentarmos colocar no lugar do outro. Só assim podem surgir novas reflexões que, quando estamos apenas no nosso ponto de vista, fica difícil perceber e imaginar.
O trabalho com o contemporâneo exige exatamente isto: uma abertura constante ao que está a acontecer agora, uma escuta atenta dos artistas, das comunidades, das
transformações sociais e culturais. Quando observamos com verdadeira empatia e
tentamos compreender as perspectivas alheias, conseguimos identificar o que é
relevante, o que é urgente, o que merece ser amplificado e discutido.
UH: O que mais tem te chamado atenção no cenário contemporâneo das artes?
AV: O que mais me chama a atenção no cenário contemporâneo das artes é como a cultura pode realmente ser um motor transformador de aproximação das pessoas e culturas, funcionando como uma plataforma e um lugar seguro para discussão de ideias. Acho que isto é profundamente necessário no mundo em que vivemos hoje e devemos integrar tudo o que está acontecendo no panorama mundial nas produções artísticas dos dias de hoje.
A arte contemporânea é um espaço onde convergem questões políticas, sociais,
ambientais e humanas urgentes. Os artistas criam porque têm algo importante a dizer
sobre o momento em que vivemos. O que me fascina é ver como usam as suas criações para dialogar, para questionar, para propor caminhos alternativos.
É aí que reside o verdadeiro poder da arte: na sua capacidade de nos unir, de nos fazer
pensar diferente e de nos inspirar a construir um mundo melhor.
UH: Qual a principal característica você observa nos jovens artistas, contemporâneos? Destacaria a pluralidade de tarefas que hoje em dia um artista tem de conseguir realizar.
AV: O digital transformou toda a forma de produção criativa e exige que os artistas sejam polivalentes. Para além das capacidades criativas e artísticas é preciso compreender redes sociais, produção de conteúdo, marketing digital e gestão de projetos. Esta é a realidade do nosso tempo.
Mais do que nunca hoje em dia a resiliência e a criatividade são necessárias para
transformar limitações em oportunidades que usam as ferramentas digitais.
UH: Sendo uma mulher empreendedora, a frente de seu tempo, quais os principais desafios para se posicionar no mercado?
AV: Os principais desafios para qualquer pessoa, mas especialmente para as mulheres, é sermos e mantermo-nos quem somos. Seguir os nossos sonhos, a nossa visão com convicção e autenticidade. Parece ainda ser difícil usar certos adjetivos quando falamos de mulheres. Dizem muitas vezes que sou energética. Poucas vezes ouvi esse adjetivo aplicado aos homens.
Dito isto, adoro ser mulher. Valorizo muito olhar o mundo através dos meus olhos de
mulher que me permitiu sentir, construir, observar e descobrir caminhos diferentes. É
um privilégio e uma força que só nós mulheres conseguimos entender.
Vi recentemente uma estatística do Parlamento Europeu que mostrava que 60% dos
europeus acreditam que as mulheres na política tomam decisões mais acertadas. Isto é uma prova de que a sensibilidade e a perspectiva feminina começam cada vez mais a ser encaradas de forma positiva e confiável.
Temos de nos valorizar umas às outras e trabalhar em equipa. Cada vez que uma mulher consegue chegar mais longe, ela expande o que é possível para todas nós.
UH: Qual segredo para se conseguir se manter produzindo arte, especialmente em diferentes países?
AV: É consequência do trabalho, de ter clareza na direção, de saber para onde estamos a ir e com objetivos e uma missão definida. Por termos agarrado todas as oportunidades que apareceram e termos criado parcerias em tantas partes do mundo foi possível tornar o Arte Institute uma força de internacionalização global.
Através dessas parcerias globais, criamos um networking e temos know-how, que
poucas organizações lusófonas têm no mundo e na área da cultura. Além disso,
desenvolvemos uma enorme capacidade de implementação de projetos internacionais e em todas as áreas artísticas. Com mais investimento poderíamos já ter criado outros modelos que seriam também inovadores e de impacto, no entanto, como sempre digo, quando temos menos investimento temos de ter mais imaginação. O importante é continuar, sempre.
UH: Que dica você daria a uma jovem empreendedora?
AV: O meu melhor conselho é ter clareza sobre o que verdadeiramente acreditamos e o que genuinamente nos impulsiona. Os nossos valores, a nossa paixão e o nosso
compromisso com o trabalho são o que sustenta uma carreira com significado.
Especialmente quando o caminho está por definir e as estruturas à nossa volta foram
concebidas tendo em conta outras realidades diferentes da nossa.
Quando sabemos o que nos move no nosso âmago, tomamos decisões com coerência e força. Desta convicção interior, as estratégias surgem naturalmente. O fundamental de tudo é acreditar e a paixão, combinadas com o trabalho árduo. É a paixão com que
abordamos o trabalho que transforma o esforço em propósito.
Rodeia-te sempre de pessoas que te impulsionem para a frente e que acreditem no
projeto, mesmo antes dos resultados serem visíveis, quando apenas tens uma ideia e
uma intuição.
O meu pai sempre me disse que "a sorte protege os audazes.” ….Essa frase guiou-me
sempre!
UH: O melhor de trabalhar com arte?
AV :O melhor de trabalhar com a arte é: trabalhar com a arte. É a possibilidade de estar constantemente rodeado de criatividade, diversidade de perspectivas e propósito. É poder transformar paixão em ação, conectar pessoas e culturas através da expressão artística, e contribuir para que o talento português e lusófono seja reconhecido globalmente. É também a liberdade de inovar, de criar novos modelos e de saber que cada projeto, parceria, artista promovido, deixa um legado que transcende fronteiras. Quando trabalhas com arte, estás a construir pontes culturais e a deixar um caminho aberto num mundo melhor.
UH: Um sonho artístico…
AV: Um sonho artístico é continuar a fazer o trabalho que fazemos no Arte Institute e a criar cada vez projetos com mais impacto, que possam envolver cada vez mais artistas e que isso seja importante para o impulso das suas carreiras tanto em Portugal como na lusofonia.
Espero também que as novas mostras de Portugal Contemporâneo, tanto a que vai
acontecer no Lincoln Center nos Estados Unidos, como a segunda edição no Brasil,
abram cada vez mais portas para que artistas de todos estes países possam criar novos projetos multidisciplinares e que essas visões artísticas possam fazer o mundo avançar na direção certa.
Aproveito para convidar todos a virem ao Vivo Rio, no dia 31 de maio, para conhecer a
banda portuguesa Capitão Fausto, que volta ao Brasil para atuar com Jovem Dionísio e Terno Rei. Este concerto é resultado da primeira mostra de Portugal Contemporâneo no Brasil, realizada entre novembro de 2025 e janeiro de 2026, demonstrando como os projetos conjuntos entre Portugal e Brasil abrem novas portas para artistas e permitem ao público brasileiro descobrir a música contemporânea portuguesa. O projeto conta com o apoio da Galp.
UH: Projetos futuros...
AV: O meu maior projeto futuro é aquele que tenho todos os dias quando acordo: ser feliz.
Tudo o resto — os meus sonhos, a minha família feliz, as minhas ideias, conquistas,
visões, o Arte Institute — nasce naturalmente deste compromisso que é o único que
tenho comigo. A autenticidade, a criatividade, o propósito, a capacidade de olhar à nossa volta com empatia e com os olhos do coração, é o reflexo do caminho para a felicidade. É neste processo que tudo acontece, floresce e continua corajosamente se inovando e recriando.
“Um anjo é uma crença, com asas e braços que te podem carregar. Não é para ter medo, e se não te conseguir sustentar, procura por algo novo.”
Hannah Pitt, "Angels in America" de Tony Kushner
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