Nova Friburgo, 207 anos: fundada por decreto, transformada pelo trabalho, sustentada pela memória

Por Jorge Tardin – professor de Direito

Nova Friburgo, 207 anos: fundada por decreto, transformada pelo trabalho, sustentada pela memória

Nova Friburgo nasceu de um encontro improvável: o de um decreto imperial com um sonho transportado por navio — mediado por um suíço visionário chamado Nicolas Gachet. Era 1818 quando Dom João VI autorizou, por escrito, que famílias suíças se instalassem nas serras da Capitania do Rio de Janeiro. O plano era ousado: terras, ferramentas, isenção fiscal e a promessa de um novo começo.

Em 4 de julho de 1819, 261 famílias desembarcaram no Rio. Vinham de Fribourg, Berna, Valais. Subiram a serra e chegaram ao Morro Queimado. Ali, com fé e silêncio, levantaram casas de pau-a-pique, abriram trilhas, plantaram milho e criaram cabras. O francês se misturava ao português, e o frio da alma se aquecia na fogueira das primeiras noites.

A Colônia Suíça não foi um projeto de dominação, mas de adaptação. Com o tempo, os colonos trocaram o dialeto por sotaque e o queijo alpino pelo feijão com farinha. Casaram-se com brasileiros, abriram comércios, ergueram escolas e igrejas. Deixaram de ser estrangeiros: tornaram-se serranos.

Poucos anos depois, em 1824, vieram os alemães. Cento e sessenta e dois homens e mulheres do Hunsrück chegaram antes mesmo de São Leopoldo (RS). Instalaram-se em Campo do Coelho. Lá, fundaram a primeira comunidade luterana do Brasil, orando em casa, em segredo, num país oficialmente católico. Décadas depois, o templo veio. Mas a liberdade, essa, já tinha sido plantada.

Nova Friburgo foi construída por muitos. Além dos suíços e alemães, houve quem não assinasse contrato, mas erguesse pedra sobre pedra. Escravizados negros, trazidos para carregar o peso da cidade nascente. Povos indígenas — Puris, Coroados —, que foram expulsos ou esquecidos. Italianos, portugueses pobres, libaneses, nordestinos e mineiros chegaram depois. Vieram sem brasão, mas com ferramenta, fé e saudade.

Nos anos 1930, os japoneses trouxeram o cultivo moderno de morangos e flores. Discretos, transformaram a paisagem rural e deixaram raízes que florescem até hoje.

No tempo do Império, Friburgo foi símbolo de civilidade tropical. Recebeu Dom Pedro II, foi moldada pela elite cafeeira, ganhou ferrovia e jardins franceses. Mas com a República, em 1889, vieram as perdas: o fim do patrocínio imperial, a decadência da aristocracia local e a fragmentação do território. Petrópolis virou capital fluminense. Friburgo, embora bela, foi esquecida pelos mapas do poder.

Em 2011, a cidade chorou sua maior dor. A tragédia das chuvas arrastou casas, vidas, memórias. Foram 429 mortos. Mas, como em 1819, Friburgo cavou com as próprias mãos. Reconstruiu ruas, praças, dignidade. A lama virou semente. E a semente, como sempre, floresceu.

Hoje, Nova Friburgo não é mais apenas uma colônia bem-sucedida. É um mosaico de resistências. De fé luterana e devoção católica. De queijo suíço e angu de milho. De gente que fala com o sotaque da serra, mas carrega no rosto muitas pátrias.

É cidade de contrato e calo. De decreto e improviso. De barro e beleza. E, acima de tudo, de memória.

Parabéns, Nova Friburgo.

Fundada por suíços.

Consolidada por alemães.

Adotada por japoneses, nordestinos, mineiros, libaneses e tantos outros.

Trabalhada por negros. Pisada por índios.

E sustentada por todos os que, mesmo sem nome em decreto, são raiz dessa serra.

Cidade que floresce entre a montanha e o esquecimento.

Cidade que resiste quando todos pensam que não vai.

Cidade que, aos 207 anos, ainda ensina: quando tudo falta, o que sustenta é o pertencimento.

 

Por Ultima Hora em 15/05/2025
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