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Há loucos que não sabem que o são. Há os que fingem ser. E há aqueles que oscilam entre os dois ? até que se tornam indecifráveis. Donald Trump parece transitar por esse terceiro território. Sua loucura é tática, performática, calculada. E, por isso mesmo, mais perigosa.
A chamada “Teoria do Louco” não nasceu na Casa Branca, embora tenha sido ali cultivada como doutrina. Muito antes de Richard Nixon tentar convencer os soviéticos e os vietnamitas de que ele poderia, num rompante de fúria, apertar o botão nuclear, já havia gestos ensaiados de irracionalidade como método de pressão.
Durante a Crise de Suez, em 1956, Dwight Eisenhower flertou com a imprevisibilidade ao forçar a mão contra os próprios aliados britânicos e franceses para projetar uma imagem de severidade e instabilidade diante de Nasser e da URSS. Foi um ensaio empírico do que viria, anos depois, a ser sistematizado com precisão teórica.
A formulação veio em 1960, com Thomas Schelling, professor de Harvard e pai da aplicação da teoria dos jogos à geopolítica moderna. Em A Estratégia do Conflito, apresentou o conceito que revolucionaria a lógica da dissuasão: a racionalidade da irracionalidade. A ameaça torna-se mais eficaz quando se acredita que você pode perder o controle ou quando a escalada parece plausível. Quando o blefe é sustentado por uma reputação cuidadosamente cultivada sobre a imprevisibilidade.
Richard Nixon capturou essa lógica e a transformou em estratégia deliberada, mas foi Donald Trump quem a levou à caricatura perigosa, misturando caos estratégico com impulsividade performática, em um mundo saturado de ruído. Seu governo, suas campanhas e suas tarifas são variações do mesmo tema: parecer incontrolável para obter concessões. Desestabilizar antes de conquistar. Intimidar antes de negociar.
As negociações conduzidas sob a performance trumpista revelaram-se, em muitos casos, favoráveis aos Estados Unidos. Recentemente, Japão, Indonésia, União Europeia e outros cederam em pontos estratégicos, concederam isenções a produtos norte-americanos e aceitaram cláusulas que alteraram o equilíbrio comercial. Trump redesenha as regras em movimento, forçando os outros a responderem dentro de uma lógica que já não controlam. E por vezes vence.
Há método. Há ritmo. E há também um roteiro, ainda que encenado em chave de absurdo. O caos é ensaiado. A instabilidade, cultivada. E esta colunista, que num primeiro olhar interpretou os fatos com a lente da ingenuidade, como se visse apenas desordem, reconhece agora, à luz da história, a presença de uma estratégia disfarçada de desatino. Sofisticada justamente por ser desconcertante.
O Brasil não foi escolhido por acaso, tampouco por razões técnicas. A imposição de tarifas tem pouco a ver com impacto econômico direto e muito com valor simbólico. Somos suficientemente relevantes para gerar ruído e diplomáticos demais para retaliar com dureza. Atacar um parceiro como o Brasil projeta força, sinaliza imprevisibilidade e ativa narrativas protecionistas diante de um público interno sedento por gestos duros. Ao fim, o país vira vitrine ? ou coadjuvante ? de uma encenação pensada para outro palco.
A resposta brasileira, no entanto, permanece ancorada em manuais. Técnicos redigem notas. A diplomacia recorre à OMC. O governo hesita entre o silêncio e o protesto polido, como se estivéssemos diante de um parceiro previsível, racional, guiado por parâmetros institucionais. Não estamos. A imagem do Ministro da Fazenda afirmando que “não há razões econômicas” para as tarifas ilustra esse descompasso: um argumento de lógica formal usado contra um gesto de ilógica planejada.
Mas o Brasil não precisa ? nem deve ? seguir esse roteiro alheio.
Diante disso, três caminhos se impõem. O primeiro é a acomodação: ceder e absorver os impactos, como tantos fizeram. O segundo, a retaliação: responder com medidas espelhadas, correndo riscos geopolíticos e comerciais. O terceiro, e talvez mais exigente, é reforçar nossa posição com inteligência. Isso significa aprimorar a diplomacia comercial, redesenhar a política industrial com foco em agregação de valor e competitividade, e buscar acordos que reduzam nossa vulnerabilidade externa. Hoje, essas ferramentas operam fragmentadas e sem continuidade ao passar dos governos. Reagir à imprevisibilidade exige, paradoxalmente, estratégia de longo prazo.
Nesse jogo, o poder real não está apenas em dar as cartas, mas em escrever as regras. Trump faz isso ao estilo do Louco ? não como descontrole, mas como ruptura performática. No tarô, mais do que um jogo, uma leitura de arquétipos ancestrais, o Louco é a energia primordial da ruptura, o salto no vazio, o início radical que desestabiliza o conhecido. Alguns o descartam como tolo. Outros o temem como gênio à beira do abismo.
Se Trump representa esse arquétipo em sua forma mais radical, cabe ao Brasil decidir com qual carta responderá. Talvez não haja poder maior do que conhecer o jogo ? e recusar a ilusão de que não há alternativa. Porque sempre há.
Lívia Louvel é economista e escreve às quintas-feiras. Na coluna Perspectiva, traduz os movimentos da economia em análises que geram valor e orientam decisões.
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