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Crivella vira a página: depois de aprovar as duas pautas mais polêmicas do ano, deputado vai ao Senado

Brasília, 28 de maio de 2026 — Marcelo Crivella chegou à Câmara dos Deputados em fevereiro de 2023 como um nome do passado. Ex-senador, ex-prefeito do Rio, ex-ministro — um político que já tinha ocupado os principais cargos do Executivo e do Legislativo e parecia ter entrado numa fase de acomodação da carreira. Menos de três anos e meio depois, o cenário é outro. Nesta quinta-feira, Crivella conquistou a mais importante vitória parlamentar de sua trajetória: a aprovação em dois turnos, pela Câmara dos Deputados, da PEC 5/2023, proposta de sua autoria que amplia a imunidade tributária das entidades religiosas para a compra de bens e serviços. A aprovação ocorre no mesmo mês em que o PL 2.162/2023, o chamado PL da Anistia, de sua autoria, foi transformado na Lei 15.402/2026.
O feito é raro. Raríssimo. Um deputado em primeiro mandato ver dois projetos de sua autoria — um deles uma emenda constitucional — serem aprovados pelo plenário é algo que escapa à média do Congresso Nacional. Crivella não apenas conseguiu: fez isso em meio a um governo adversário, com um partido de oposição dividido e sob os holofotes de um escândalo político que sacudiu o Palácio do Planalto e o STF.
A PEC que reescreve a relação entre igreja e Estado
A PEC 5/2023 altera o artigo 150 da Constituição Federal para estender a imunidade tributária de templos religiosos, partidos políticos, sindicatos e entidades de educação e assistência social sem fins lucrativos aos tributos incidentes sobre a aquisição de bens e serviços. Na prática, as instituições religiosas deixarão de pagar tributos como ICMS, ISS, IPI e PIS/Cofins na compra de veículos, equipamentos, material de construção e outros itens necessários à sua atividade.
O texto, relatado pelo deputado Dr. Fernando Máximo (PL-RO), foi aprovado com ampla margem e segue agora para o Senado Federal, onde o relator designado é o senador Esperidião Amin (PP-SC). A expectativa é de que a tramitação na Casa revisora ocorra ainda no primeiro semestre de 2026.
Crivella defendeu a proposta com um argumento que repetiu à exaustão nos debates: "Não existe imunidade tributária para igrejas sobre o consumo, apenas sobre renda e patrimônio. A compra de um microfone para o púlpito, de um veículo para o trabalho social, de material para construir uma creche — tudo isso é tributado. O que a PEC faz é corrigir essa distorção."
O líder do PT, deputado Pedro Uczai (SC), foi um dos principais opositores. Questionou se a medida permitiria que palestrantes religiosos recebessem cachês de R$ 200 mil sem tributação ou que igrejas comprassem aeronaves de R$ 20 milhões com isenção fiscal. "Como alguém dá uma palestra, ganha 200 mil e não terá tributação? Ou alguém compra um avião de 20 milhões de reais porque será destinado a atividade religiosa?", indagou.
Uczai alertou que a ampliação da imunidade pode elevar a alíquota padrão dos novos tributos sobre consumo (IBS e CBS) em 0,5%, pressionando ainda mais a carga tributária sobre a população.
Crivella rebateu: "É só isto que queremos: que a imunidade prevista na Constituição aconteça na prática. Não é nenhuma benfeitoria para as igrejas. Já existe sobre a renda, já existe sobre o patrimônio, e agora vamos corrigir sobre o consumo."
A Lei da Anistia e o xadrez político
A aprovação da PEC 5 coroa um mês de maio que já havia sido marcante para Crivella com a sanção da Lei 15.402/2026, originada do PL 2.162/2023 — o projeto que anistiou os participantes das manifestações de cunho político ocorridas entre 30 de outubro de 2022 e a data de entrada em vigor da nova legislação.
Em entrevista à Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, Crivella revelou os bastidores da negociação. O relator Paulinho da Força (Solidariedade-SP) propôs inicialmente uma dosimetria que reduziria em 11 anos as penas dos condenados — solução intermediária que não emplacou. "O governo não aceitou a dosimetria, o PL não aceitou a dosimetria, não houve acordo", disse.
Sem o meio-termo, a base de apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro optou pela anistia ampla. "Muitos líderes dizem: 'Crivella, se a opção for 27 anos de cadeia, 17 anos, 14 anos para aquela senhora que passou o batom, eu voto na anistia'", relatou.
O PL da Anistia, que havia sido idealizado originalmente em 2023 e enfrentou resistência de diferentes setores do Congresso e do STF, ganhou tração à medida que as penas aplicadas pelo Supremo aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro se tornaram mais severas. "Quando as penas foram se somando, penas altíssimas, e editoriais de jornais no Rio, São Paulo, Nordeste, Centro-Oeste e Sul começaram a arguir a dimensão da pena", explicou Crivella, defendendo que a lei veio como resposta a um sentimento da opinião pública.

A pré-candidatura ao Senado e a força eleitoral
As vitórias legislativas ocorrem em um momento estratégico da carreira de Crivella. O deputado é pré-candidato ao Senado Federal pelo Republicanos nas eleições de outubro de 2026, em uma disputa que promete ser uma das mais acirradas do país.
A mais recente pesquisa Genial/Quaest, divulgada em abril, mostrou Crivella empatado tecnicamente na faixa dos 8% a 12% das intenções de voto, em um cenário com cinco nomes numericamente próximos. Levantamento diferente, com recorte específico, apontou o deputado com 21,5% na corrida pelo Senado — atrás apenas de Cláudio Castro (ex-governador e também pré-candidato) e da ex-senadora Benedita da Silva (PT).
A vantagem de Crivella sobre os concorrentes é a capilaridade. Como bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, denominação fundada por seu tio Edir Macedo, o deputado possui uma máquina eleitoral que alcança milhares de templos em todo o Estado do Rio de Janeiro. A base evangélica, combinada à sua exposição parlamentar nas duas grandes pautas do momento — a anistia e a imunidade tributária —, o coloca em posição de força para a reta final da campanha.
Segundo a Gazeta do Povo, Crivella tem procurado não se manifestar publicamente sobre o impeachment de ministros do STF enquanto articula a formação da chapa ao Senado. A estratégia é clara: ampliar o arco de alianças sem queimar pontes com setores moderados do eleitorado fluminense.
O engenheiro que virou bispo, senador, prefeito e voltou
Marcelo Bezerra Crivella nasceu no Rio de Janeiro em 9 de outubro de 1957. Filho único, começou a trabalhar aos 14 anos como auxiliar de escritório. Antes de entrar para a política, foi taxista para pagar os estudos de Engenharia Civil. Formou-se pela Universidade Santa Úrsula e pela Faculdade de Engenharia Civil de Barra do Piraí (atual UGB).
Aos 20 anos, começou a frequentar a Igreja Universal do Reino de Deus, fundada por seu tio Edir Macedo. Tornou-se pastor e, mais tarde, bispo licenciado. Antes de ingressar na política institucional, atuou como missionário na África do Sul durante o apartheid, onde fundou escolas e projetos sociais que atendiam comunidades marginalizadas.
A carreira política começou em 2002, quando foi eleito senador pelo Rio de Janeiro com 3,5 milhões de votos — a maior votação do estado naquele pleito. No Senado, foi vice-líder do governo Lula e líder da bancada do Partido Liberal. Em 2005, fundou ao lado do então vice-presidente José Alencar o Partido Republicano Brasileiro (PRB), hoje Republicanos, do qual foi líder no Senado.
Foi reeleito senador em 2010. Em 2012, assumiu o Ministério da Pesca e Aquicultura no governo Dilma Rousseff, onde permaneceu até 2014. No ano seguinte, disputou o governo do Rio, perdendo para Luiz Fernando Pezão. Em 2016, venceu a eleição para a Prefeitura do Rio de Janeiro, governando a cidade entre 2017 e 2020. Em 2022, foi eleito deputado federal com 110.450 votos.
Acumula condecorações como a Ordem do Mérito Aeronáutico (Grau de Grande Oficial), a Ordem do Mérito da Defesa e a Ordem do Mérito Aeronáutico. É casado com Sylvia Jane Crivella há mais de quatro décadas, tem três filhos e dois netos. Cantor e compositor gospel, mantém mais de 650 mil seguidores no Instagram e 37 mil ouvintes mensais no Spotify. É autor de livros religiosos e musicais que integram seu perfil multifacetado de engenheiro, pastor e político.
Fontes: Câmara dos Deputados — Biografia e perfil do deputado Marcelo Crivella; Agência Câmara de Notícias; G1 (Luiz Felipe Barbiéri); Folha de S.Paulo (João Gabriel e Augusto Tenório); CNN Brasil (Emilly Behnke); Gazeta do Povo; Genial/Quaest; JOTA; O Globo (coluna Pulso); Poder360; revista Fórum; Valor Econômico; Agência Brasil; Wikipedia; perfil oficial do deputado no Republicanos10
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