'O caos está anunciado': ativista Elizabeth Bezerra denuncia colapso do saneamento nas Vargens e risco de enchente para 25 mil famílias

Moradora e ativista Elizabeth Bezerra denuncia o colapso do saneamento nas Vargens, a contaminação do Complexo Lagunar de Jacarepaguá e o avanço da especulação imobiliária sobre áreas úmidas protegidas por tratado internacional

Direto do 23º Fórum de Meio Ambiente da Região do Recreio e Barra: a crise hídrica que ameaça a Zona Oeste do Rio

Rio de Janeiro — Enquanto a Zona Oeste da cidade vive uma explosão imobiliária sem precedentes, com novos condomínios e centros comerciais surgindo a cada mês, um problema antigo segue sem solução: o saneamento básico. A denúncia é de Elizabeth Bezerra, moradora e ativista da região das Vargens, que participou do 23º Fórum de Meio Ambiente da Região do Recreio e Barra da Tijuca para expor uma realidade que, segundo ela, o poder público insiste em ignorar.

"Temos 33 rios que deságuam no Canal do Rio Morto ou no Canal do Portelo. Esses rios recebem todo o esgoto da região de Vargem Grande e Vargem Pequena porque praticamente não temos uma central de esgoto", afirmou.

O diagnóstico: 33 rios contaminados e um complexo lagunar sufocado

O cenário descrito por Elizabeth é de um ecossistema inteiro comprometido. Os 33 cursos d'água que cortam a região das Vargens transportam esgoto in natura das residências e condomínios — muitos dos quais possuem estações de tratamento próprias que, segundo a ativista, não são fiscalizadas — e desaguam no Canal do Rio Morto, que por sua vez alimenta a Lagoa de Jacarepaguá.

"Se eles têm as Vargens como área de lazer, é o quintal do lazer deles. Eles são o nosso quintal para a questão de recursos hídricos, porque tudo vai desaguar na Lagoa de Jacarepaguá, que acaba, por sua vez, via Lagoa do Camorim, desaguando na Lagoa da Tijuca", explicou.

O resultado é um efeito dominó de contaminação que atinge não apenas as Vargens, mas toda a cadeia lagunar da Zona Oeste — incluindo a Lagoa de Marapendi e o Canal das Taxas, que perdeu sua fonte natural de renovação de água quando o curso do Rio Morto foi artificialmente desviado para o mar.

O dinheiro que sumiu: R$ 700 milhões e nenhuma resposta

A luta por saneamento na região não é nova. Elizabeth relembra que, desde 2019, foram realizadas audiências públicas com a participação da então Cedae (antes da privatização), do Ministério Público, da Comissão de Meio Ambiente da Alerj e de outras instituições. O resultado foi um termo assinado e um projeto orçado em R$ 700 milhões.

"Até hoje a gente não sabe o que aconteceu com essa verba. Era um projeto muito bom e Jacarepaguá continua sofrendo. Não só a região das Vargens, mas Rio das Pedras, parte de Curicica, Camorim — todo mundo sofrendo com a ausência de saneamento", denunciou.

Os R$ 250 milhões da Iguá: dragagem não é saneamento

Em 2021, a Iguá Saneamento assumiu a concessão dos serviços de água e esgoto na Zona Sudoeste do Rio, com um contrato de 35 anos e investimentos previstos de R$ 2,7 bilhões. Até 2025, a concessionária atingiu a marca de R$ 1 bilhão investidos, segundo dados oficiais. Desse total, R$ 250 milhões foram destinados à dragagem do Complexo Lagunar da Barra e Jacarepaguá — a maior operação do tipo já realizada na região.

Elizabeth, no entanto, faz uma distinção importante: "Esses R$ 250 milhões da Iguá não eram dinheiro que fazia parte desses R$ 2 bilhões. Ele é outorga da venda da Cedae, da privatização, e não foi destinado ao saneamento em si, mas muito mais à limpeza e dragagem das lagoas."

A crítica é cirúrgica: dragar as lagoas remove sedimentos, mas não resolve a origem do problema — o esgoto que continua sendo despejado diariamente nos rios. "O que está sendo feito a nível de saneamento é a recuperação da ETE no Bosque da Barra. São coisas pontuais, porque essa verba não contempla o volume de obra que precisa ser executado."

Em 2025, uma reportagem do RJ2, da Globo, flagrou a própria Iguá despejando esgoto in natura no mar da Barra da Tijuca, evidenciando a gravidade da situação.

A especulação imobiliária e o crime do aterro com lixo

Para além do saneamento, Elizabeth aponta um agravante: a especulação imobiliária desenfreada, que avança sobre áreas que deveriam ser protegidas. Ela cita o sistema de autodeclaração da prefeitura, que permite que construtores informem por conta própria o que pretendem construir, sem fiscalização efetiva.

"Não há uma supervisão, não tem estudo de impacto ambiental, impacto territorial, e impermeabiliza essa área. Chove, a água não foi embora para lugar nenhum", alertou.

A ativista denuncia ainda uma prática criminosa que se tornou comum na região: o aterramento de terrenos com lixo. "Esse aterramento com lixo contamina não só os lençóis freáticos, mas o próprio ar, porque vai liberar monomoléculas que podem acarretar inclusive na qualidade de saúde."

O problema é que a região das Vargens é formada por áreas úmidas — solos que funcionam como esponjas naturais, absorvendo a água da chuva e alimentando o lençol freático. Quando esses solos são impermeabilizados ou aterrados com resíduos, perde-se a capacidade de drenagem natural e a contaminação se espalha.

O Tratado de Ramsar e a maior floresta urbana do mundo ameaçada

Elizabeth lembra que as áreas úmidas da região estão incluídas no Tratado de Ramsar, um acordo internacional assinado em 1971, no Irã, que estabelece a importância da preservação de zonas úmidas em áreas urbanas. O Brasil é signatário desde 1993.

"O Rio de Janeiro vem dizimando essas áreas pela especulação imobiliária, através de licenciamentos não idôneos, que não levam em consideração o impacto ambiental, o impacto de vizinhança, o impacto territorial", afirmou.

Outra preocupação é o Maciço da Pedra Branca, que abriga a maior floresta urbana nativa do mundo, com 12.500 hectares de Mata Atlântica. Apesar de sua importância ecológica — incluindo o sequestro de carbono, a regulação térmica e o abastecimento de nascentes —, o parque estadual só teve seu plano de manejo aprovado recentemente, décadas depois do Parque Nacional da Tijuca.

"A área de amortecimento do maciço, tanto no seu flanco sudoeste quanto no seu flanco sudeste, é de importância vital, principalmente para áreas como Bangu e Realengo, onde a temperatura chega facilmente acima de 40 graus", destacou Elizabeth.

O caos anunciado: 25 mil famílias sob risco de enchente

O alerta mais grave, no entanto, é sobre o que está por vir. Elizabeth cita um estudo do Instituto Pereira Passos, de 2008, que mapeou as regiões inundáveis do Rio de Janeiro. A bacia lagunar de Jacarepaguá foi apontada como a área de maior problemática e a primeira a sofrer danos.

"Se executadas todas as licenças que a prefeitura planeja para aquela área, possivelmente 25 mil famílias fiquem debaixo d'água", advertiu.

A combinação é explosiva: impermeabilização do solo, aterramento de áreas úmidas, assoreamento das lagoas, canais obstruídos e um sistema de drenagem que já não dá conta. Quando uma maré alta coincide com uma chuva forte — fenômeno cada vez mais frequente com as mudanças climáticas —, a água não tem para onde ir.

"Desde 2008, o Instituto Pereira Passos fez um estudo sobre regiões inundáveis do Rio de Janeiro. A área que eles apontaram como a de maior problemática e a primeira a sofrer esse dano foi a bacia lagunar de Jacarepaguá, que hoje está muito reduzida", completou.

A pergunta que fica

Elizabeth encerra a entrevista com uma reflexão que ecoa o pensamento de Martin Luther King: "A omissão também é um ato de vandalismo." Para ela, o poder público não pode mais se esconder atrás de obras pontuais e promessas não cumpridas.

"Qual é a resposta que a gente tem para isso? Qual a resposta que o estado, os poderes instituídos têm para nós? Essa é a pergunta que nós deixamos. O caos está anunciado e ninguém está fazendo nada."

Sobre Elizabeth Bezerra

Elizabeth Alves Bezerra é moradora da região das Vargens, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, e há anos atua como liderança comunitária na defesa do meio ambiente e do saneamento básico. Integrante do movimento SOS Vargens e de fóruns populares de planejamento urbano, Elizabeth participou de audiências públicas e debates sobre a recuperação hídrica da região desde 2019, incluindo reuniões com o Ministério Público, a Comissão de Meio Ambiente da Alerj e a Cedae. Além do ativismo ambiental, Elizabeth é escritora e autora de romance, com milhares de seguidores nas redes sociais, onde usa sua plataforma para amplificar a causa do saneamento e da preservação das áreas úmidas da cidade. Sua atuação é reconhecida por organizações da sociedade civil e pela imprensa independente como uma das vozes mais lúcidas na defesa do Complexo Lagunar de Jacarepaguá e do Maciço da Pedra Branca.

Repórter Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ

Por Robson Talber @robsontalber 

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Por Ultima Hora em 28/06/2026
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