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Nesta nova crônica volto-me para um tema que, embora pareça técnico, é profundamente humano: o capitalismo na era da inteligência artificial. Trata-se de um assunto vasto — e, por isso, nas próximas crónicas pretendo detalhar melhor alguns dos seus desdobramentos: o trabalho, a política, o Estado e, claro, o próprio homem diante das máquinas. Por ora, ofereço um panorama geral, um ponto de partida para entender como o sistema que um dia vendeu a ilusão de libertar o homem do trabalho físico apenas o transferiu de função — da força bruta à servidão tecnológica — e agora se prepara para dispensá-lo também do trabalho intelectual — e, de quebra, da necessidade de pensar. Camaleônico por natureza, o capitalismo muda de roupa sem nunca mudar de essência: já vestiu o macacão do operário, o terno do banqueiro e, agora, desfila de moletom e notebook debaixo do braço, com o crachá da inteligência artificial pendurado ao peito.
A “mão invisível” do mercado ganhou corpo e algoritmo: Google, X, Amazon, Meta — e, do outro lado do mundo, o TikTok, o braço digital da China que aprendeu a vender entretenimento como vício e vigilância como diversão. Se antes o capital comprava a força de trabalho, agora compra a nossa atenção. E o mais curioso é que a damos de graça — com cada clique e like .
Huxley temia que fôssemos dominados pelo prazer; Orwell, pelo medo — a ponto de, em 1984, o próprio orgasmo ser visto como ato subversivo, capaz de desviar a devoção ao Partido e enfraquecer o amor ao Grande Irmão. No fim, ambos acertaram. O capitalismo digital uniu Admirável Mundo Novo e 1984 num só pacote premium: vigiados com o nosso consentimento e entretidos com entusiasmo. Em vez do Grande Irmão, temos os simpáticos assistente virtuais — sempre atentos, sempre a escutar. O Google, por exemplo, sabe o que fazemos, o que gostamos e até o que ainda vamos desejar. A vigilância agora vem em forma de notificação — e nós ainda agradecemos.
Asimov acreditava que os robôs seguiriam leis morais (Três leis da Robótica), Ironia: os de hoje seguem apenas as leis de mercado. Já Philip K. Dick imaginou caçadores de andróides que já não distinguiam o humano do artificial. A sua visão ganhou carne e néon — o gás que ilumina as cidades futuristas com o seu brilho frio e artificial — em Blade Runner, aquele futuro chuvoso onde máquinas sonham com o que nunca poderão sentir e homens, exaustos, já nem sabem se ainda são humanos.
A inteligência artificial promete resolver até o “problema” do trabalho informal — o último reduto da criatividade humana. O capitalismo, que sempre se alimentou da precariedade, agora quer automatizá-la. Vem aí o Uber sem motorista, o motoboy sem motoqueiro, o professor sem sala e, quem sabe, o jornalista sem opinião. A tecnologia, vendida como libertação, avança como um exército disciplinado — eficiente para substituir trabalhadores, indiferente ao que dá sentido às suas vidas.
Quando setenta por cento da população perder o emprego — como muitos economistas já admitem sem corar — restará ao Estado assumir o papel de provedor da sobrevivência. As antigas “bolsas sociais” tornar-se-ão pilares do novo pacto social: o Estado transformado numa empresa de subsistência, garantindo que as massas possam comer, consumir e permanecer conectadas. O “Bolsa Família" — ou qualquer nome que venha a substituí-lo — deixará de ser exceção para se tornar regra, o mecanismo central para manter alguma ordem num país onde o mercado já não tem lugar para tanta gente. A automação não apenas elimina empregos; redefine o próprio sentido de trabalhar. Estamos a um passo de um mundo em que a maioria viverá de algum tipo de renda estatal, enquanto um punhado de empresas privadas disputa o monopólio da inteligência — e, portanto, do futuro. O rendimento básico universal, vendido como modernidade, será na prática a oficialização da obsolescência humana: o governo pagando para que o cidadão não atrapalhe o robô. O que nasceu como combate à pobreza converter-se-á na estratégia oficial para manter a paz social — um salário universal de resignação, não por ideologia, mas por necessidade.
Marx dizia que o capitalismo vivia da “mais-valia” — o valor extra que o trabalhador produzia e o patrão apropriava. Mas, e agora, quando já não há operários? A resposta é simples e inquietante: vem de nós mesmos. Somos o novo proletariado digital — não vendemos mais força de trabalho, mas dados, atenção e tempo. Cada clique, cada scroll (aquele gesto de deslizar a tela para ver o que vem a seguir), cada selfie é um ato produtivo. Produzimos lucro sem perceber, e o fazemos de graça, com entusiasmo e Wi-Fi. A mais-valia já não nasce no chão da fábrica, mas na tela do smartphone. E o patrão nem precisa mandar: basta sugerir.
O Estado, nesse novo tabuleiro, é um zelador digital: recolhe os dados que sobram, apaga incêndios sociais e tenta fingir que ainda governa algo. As grandes decisões — económicas, culturais e até éticas — são tomadas por códigos que ninguém entende, mas todos obedecem.
Os novos reis não usam coroa nem espada — usam servidor e satélite. Elon Musk decide o que é liberdade de expressão entre um lançamento de foguete e outro; Jeff Bezos acumula fortunas que fariam corar qualquer dinastia; Zuckerberg define o que é real, o que é falso e o que simplesmente não deve aparecer; e a Microsoft, braço discreto do império fundado por Bill Gates, governa em silêncio — integrando a inteligência artificial ao próprio sistema nervoso do planeta. Gates, aliás, conseguiu o feito raro de transformar a filantropia em modelo de negócio e a consciência social em ativo financeiro.
São os monarcas do silício, donos do tempo e da atenção. Controlam não só o que compramos, mas também o que pensamos. Criaram impérios sem fronteiras e sem bandeiras, apenas com “termos de uso” que ninguém lê — e todos aceitam. No seu universo, não há cidadãos nem trabalhadores, apenas usuários.
Enquanto o Estado se entretém com burocracias, eles exploram Marte, controlam fluxos financeiros e moldam comportamentos humanos com meia dúzia de linhas de código. São mais poderosos que muitos governos — e infinitamente menos responsáveis.
E, como se não bastasse, inventaram o dinheiro sem Estado. As criptomoedas nasceram como promessa de liberdade, mas viraram o novo fetiche do mercado: o capitalismo libertando-se até dos bancos centrais. Um sonho libertário transformado em cassino digital, onde fortunas sobem e caem ao sabor de um tuíte. Se Marx ressuscitasse, talvez atualizasse o manifesto: “Proletários do mundo, uni-vos — e comprem Bitcoin enquanto tá barato.”
O capitalismo, agora equipado com inteligência artificial, já pensa por nós — mas continua incapaz de sentir. E, no reflexo frio das máquinas, reconhece-se finalmente como sempre foi: racional, eficiente e desprovido de empatia. No fim, o admirável talvez não seja o mundo, mas a nossa capacidade quase infinita de nos adaptarmos ao absurdo. Porque o capitalismo, esse velho camaleão, nunca morre. Apenas faz update.
Filinto Branco - cronista de ideias
Nota do autor:
Nesta nova fase, assino como cronista de ideias. Não pretendo apenas comentar o presente — quero decifrá-lo, rindo um pouco dele (e de nós). Porque o futuro já chegou, e veio em versão beta.
Livros citados nesta crónica
Aldous Huxley – Admirável Mundo Novo (1932)
Uma distopia onde prazer, consumo e entretenimento são usados para controlar as pessoas. A liberdade desaparece sob a máscara da felicidade programada.
George Orwell – 1984 (1949)
Um regime totalitário que vigia tudo — inclusive o prazer. O orgasmo é praticamente proibido porque cria intimidade e emoção, duas ameaças ao Partido.
Philip K. Dick – Do Androids Dream of Electric Sheep? (1968)
O romance que inspirou Blade Runner. Num futuro decadente, máquinas simulam emoções e humanos lutam para lembrar o que os torna humanos.
Isaac Asimov – Eu, Robô (1950)
Coletânea que introduz as Três Leis da Robótica. Asimov imaginou máquinas morais — ironicamente, bem diferentes das que hoje obedecem apenas ao lucro.
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