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A multipropriedade é uma ideia interessante. Muitas pessoas compram um pedacinho do tempo de um hotel ou de um resort. Em vez de uma pessoa ser dona de tudo, várias dividem. É como se dez amigos comprassem juntos uma casa de praia e combinassem quem usa em cada semana.
Isso, por si só, não é problema. Pode ser até inteligente. Permite que mais gente realize o sonho de viajar, de ter férias organizadas, de participar de algo maior.
O problema começa quando a história fica mais complicada do que deveria.
Imagine que esses dez amigos prometem reformar a casa. Cada um coloca dinheiro. Só que, em vez de o dinheiro virar tinta, cimento e telhado novo, ele começa a rodar de um bolso para outro. Vai para um primo, volta para outro amigo, passa por uma empresa que promete ajudar, depois aparece em outro lugar.
E a casa continua com o teto furado.
Quem olha de fora pode até ouvir discursos bonitos. Pode ouvir que está tudo sob controle. Pode ouvir que a reforma está “em andamento”.
Mas a pergunta simples permanece:
O dinheiro virou obra?
Quando aparecem notícias sobre investigações, operações policiais, bancos citados, empresas ligadas entre si, o que as pessoas sentem não é apenas curiosidade. É insegurança.
Porque dinheiro é confiança.
Se você entrega sua mesada para alguém guardar, você espera que ela esteja lá quando precisar. Se descobre que ela foi usada para outra coisa, mesmo que ninguém tenha sido condenado por nada, a confiança já ficou rachada.
No mercado é parecido.
Não precisa existir sentença para existir medo. Basta parecer confuso. Basta parecer que o dinheiro corre mais rápido do que o concreto sobe.
E medo se espalha rápido. Mais rápido que samba-enredo.
Investidores ficam cautelosos. Compradores ficam inseguros. Bancos ficam desconfiados. E o modelo inteiro começa a balançar.
A multipropriedade pode ser uma boa ideia. Pode gerar empregos, turismo, desenvolvimento. Pode cumprir a função social da propriedade, como diz a Constituição, e respeitar o consumidor.
Mas só se for clara. Só se for simples. Só se for verdadeira.
Carnaval tem máscara. Negócio não pode ter.
Se o rei está vestido, ótimo.
Se não está, alguém precisa dizer.
Porque no fim, quando a música acaba e a fantasia cai, sempre existe uma conta.
E quase sempre quem paga a conta é quem acreditou na história.
Prof. Jorge Tardin
Engenharia Jurídica Estruturante
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