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Por Jorge Tardin
Vivemos tempos em que os salões da República, outrora imaginados como lugares de sabedoria e escuta pública, se tornaram palcos de espetáculo vulgar e negociatas subterrâneas. O Congresso Nacional já não representa: encena. Deputados e senadores, eleitos num sistema eleitoral sequestrado por partidos-cartórios e campanhas bilionárias financiadas com recursos públicos, assumem seus cargos como gestores de interesses privados — comerciais, religiosos e familiares.
A falácia da representação democrática escancarou-se de vez com a institucionalização do Orçamento Secreto. Uma deformação ética e política que transformou o Leviatã republicano numa criatura cativa. O orçamento público, que deveria ser instrumento de justiça social e redistribuição, foi capturado para alimentar uma engrenagem de favores ocultos, lealdades compradas e votos silenciosamente negociados. Tudo longe dos olhos do cidadão comum, tudo à margem da transparência que legitima.
O episódio envolvendo a ministra Marina Silva, atacada por senadores em uma encenação cruel e desrespeitosa, revela mais do que intolerância com uma posição divergente. Mostra o quanto o debate público foi rebaixado à lógica da humilhação, da vaidade e da guerra cultural. Marina não foi criticada: foi desqualificada. Não por erros, mas por acertos. Por manter a firmeza ética e ambiental num ambiente onde isso virou crime de desobediência.
A mesma estrutura que a atacou é a que se alimenta do silêncio conveniente. Dos votos ocultos. Dos bilhões despejados em emendas sem controle. O Leviatã já não protege o povo — protege os que se apoderaram dele.
Há quem sustente que o sistema ainda funciona, que há freios e contrapesos. Mas quando a justiça é pressionada, o Executivo chantageado e o Legislativo transformado em balcão de negócios, resta pouco da arquitetura republicana sonhada na Constituição.
É hora de reconhecer: o modelo atual apodreceu. E seu mau cheiro se sente nos corredores do poder, nos gabinetes de intermediação e nas falas ocas dos que fingem governar, mas apenas mantêm o fluxo dos recursos. A política precisa reencontrar seu eixo — ou estaremos condenados à repetição de ciclos de cinismo.
É possível discordar das ideias de Marina Silva, mas é inadmissível calá-la com gritos, vaia ou deboche. Ela é um espelho daquilo que o Brasil pode ser quando a política reencontra a ética e a técnica, a espiritualidade e a razão, o cuidado e a coragem.
E se o Leviatã já não protege — sequestrado pelo cinismo, pela barganha e pelo silêncio comprado — resta-nos reconstruir. Com coragem, com fé, com amor à verdade.
Porque a democracia, sem justiça, vira teatro.
E o céu, sem cuidado, vira inferno.
Jorge Tardin é professor de direito – advogado, curador da Coalizão Veredicto do Capital
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