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Escrito por Robson Augusto
Enquanto o Ministério da Defesa fala em crise orçamentária, falta de recursos e risco à operacionalidade das Forças Armadas, generais e almirantes seguem ocupando imóveis públicos de altíssimo padrão, com piscinas, áreas verdes, vista privilegiada e aluguéis simbólicos pagos à União.
Dados recentes e levantamentos exclusivos da Revista Sociedade Militar revelam que oficiais generais das Forças Armadas usufruem de imóveis de altíssimo padrão em algumas das regiões mais elitizadas do país. Com localizações privilegiadas, áreas de lazer dignas de resorts,piscinas bem cuidadas e aluguéis que beiram o simbólico, o contraste entre o discurso de contingenciamento e a realidade do alto comando levanta questões sobre a gestão dos recursos públicos.
Alguns imóveis, segundo relatado à reportagem da Revista Sociedade Militar por fonte militar, são considerados imóveis “de representação” e com isso recebem uma maior atenção, equipe de militares encaregada da limpeza e manutenção, serviços de jarginagem etc.
“tem militares designados para manter a residência em padrão de representação, mas não são todas. O mundo ideal seria acabar com isso, receber visitas oficiais no quartel ou no ministério da Defesa e não na casa do comandante, se é que recebem, eu nunca vi… ainda mais aqui em Brasília, onde tem um monte de OM perto, mas isso vem de longa data e acaba facilitando as coisas para o oficial morador, que não paga nem a própria internet… “, explica o suboficial da Marinha, dob condição de ser mantido o anonimato.
De fato, uma licitação aberta pela Marinha do Brasil demonstra que essas residências funcionais têm sua manutenção custeada com verba pública. Valores estimados no pregão eletrônico Nº 90036/2024-00 mencionaram números acima de R$ 365 mil para jardinagem em Próprios Nacionis Residenciais de representação da Marinha do Brasil. O serviço incluia jardinagem e manutenção de canteiros ornamentais.
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“Pregão Eletrônico Nº 90036/2024 – (Lei Nº 14.133/2021) – Objeto: Objeto: Pregão Eletrônico – Contratação de serviços de jardinagem e paisagismo nos Próprios Nacionais Residenciais (PNR) de Representação Funcional do Comando do 7º Distrito Naval no Distrito Federal. Edital a partir de: 20/12/2024 das 09:00 às 11:30 Hs e das 14:00 às 17:00 Hs Endereço: Esplanada Dos Ministérios – S/n, Bloco N, Anexo a – 2 – Plano Piloto – BRASÍLIA (DF)“.

Militar lavando automóvel no PNR do Comandante da Marinha – registro Google MAPS
Pouca gente sabe, mas alguns dos oficiais das cúpulas armadas que residem em PNR de representação tem serviços de TV por assinatura e internet banda larga totalmente custeados pela UNIÃO. A justificativa é que nos imóveis são realizados reuniões de trabalho e recepção de autoridades. Como mencionado pelo suboficial “S”, se as mencionadas recepções e reuniões fossem realizadas dentro das instituições, como se faz em outras repartições públicas, esses valores não sairiam do bolso do cidadão pagador de impostos.
“… garantir a continuidade da prestação de serviços de telecomunicações necessários ao adequado funcionamento das atividades institucionais vinculadas ao Estado-Maior da Armada em Brasília-DF, compreendendo o fornecimento de acesso à internet banda larga, telefonia fixa e televisão por assinatura. Os serviços serão disponibilizados em imóvel classificado como Próprio Nacional Residencial
de Representação (PNR de Representação), utilizado institucionalmente pelo Estado-Maior da
Armada para apoio a atividades administrativas, protocolares e de representação, incluindo
recepção de autoridades civis e militares, realização de reuniões …“, diz a correspondência eletrônica assinada em 20 de março de 2026, enviada ao TCU, obtida com exclusividade pela reportagem.

Fotografia de trechos de documento do Estado Maior da Armada com dispensa de licitação para contratação de internet e TV a cabo
As residências de alto padrão
O contraste mais gritante entre a penúria alegada e o luxo desfrutado ocorre em Brasília, no coração do poder. Enquanto o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, lamenta que “nossa frota vai envelhecendo” e que, em breve, “teremos marinheiro sem navio”, a Marinha do Brasil mantém seis propriedades de altíssimo luxo destinadas ao topo da sua hierarquia.
Estes imóveis estão situados na Península dos Ministros (SHIS, Quadra 12, Lago Sul), possivelmente o metro quadrado mais cobiçado e elitizado da capital federal, dividindo a vizinhança com os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado. Entre as propriedades, destaca-se a residência funcional do Chefe do Estado-Maior da Armada:
Próprio Nacional Residencial para uso de Almirante de Esquadra – Península dos Ministros Fonte: Google Maps
O Custo do Luxo (Para Eles e Para Nós): Enquanto um cidadão comum precisaria desembolsar entre R$ 30 mil e R$ 40 mil de aluguel mensal para morar nessa mesma quadra (com imóveis à venda superando facilmente os R$ 30 milhões), oficiais que ocupam lugar na cúpula da Marinha pagam apenas a taxa padrão militar: 5% de seus soldos. Isso se traduz em um “aluguel” irrisório de cerca de R$ 750 mensais.
Para efeito de comparação, em 2020, o governo federal conseguiu arrecadar cerca de R$ 18 milhões com a venda de apenas dois imóveis deteriorados na mesma região. Manter essas propriedades imobilizadas representa um patrimônio bilionário inativo exclusivo para meia dúzia de oficiais.

Residência do Chefe do Estado Maior da Armada em Brasília na Península dos Ministros. Captura de tela de Google Earth
O Paraíso naval em Salvador
Se em Brasília o luxo tem vista para o Lago Paranoá, na Bahia o privilégio encontra o mar. O comando do 2º Distrito Naval (Salvador) reserva para seu Vice-Almirante um verdadeiro complexo de residências exclusivas, também ao custo mensal de cerca de R$ 650:

Imoveis da Marinha no morro do Gavazza em Salvador – BA
A Fortaleza de Generais em Brasília
O Exército Brasileiro não fica atrás em matéria de acomodações na capital. No Setor Militar Urbano (SMU), encontra-se a famosa Quadra Residencial de Generais (QRG), uma verdadeira fortaleza particular.
As propriedades, que chegam a ostentar 2.000 metros quadrados de área construída, são protegidas por um forte esquema de segurança — que, inclusive, blindou a cúpula das tensões sociais das recentes eleições. Além do espaço assombroso das casas, os generais têm à sua disposição, dentro da própria quadra, sem precisarem pisar nas ruas comuns de Brasília:
E os investimentos ali não param. Está em construção mais uma “casa milionária” na QRG. Orçada em R$ 3.566.942,34, a mansão entregará 658 m² de área interna ao novo oficial contemplado, dispondo de quatro suítes gigantescas. Novamente, enquanto a União gasta milhões na construção e o mercado cobraria pelo menos R$ 9.000 de aluguel, o general pagará cerca de 700 reais por mês.

Imóvel do Exército Brasileiro no Distrito Federal – PNR de oficial general
Exemplo (Forçado ou não) no Exército de Cuiabá
Curiosamente, é do próprio Exército que vem uma das poucas movimentações contrárias a esse fluxo de privilégios. Em junho de 2025, através da Portaria nº 2.492, a Força Terrestre decidiu se desfazer de uma mansão de 700 m² (com piscina) no bairro Santa Rosa, a área mais nobre de Cuiabá (MT), que servia de residência para o general comandante da 13ª Brigada.
A justificativa foi pragmática: o imóvel “não mais atende às necessidades da administração militar”. O plano agora é alienar o bem para aplicar os recursos em necessidades reais, como a construção de uma usina fotovoltaica (para economizar energia) e a ampliação de hotéis de trânsito.
O Peso do privilégio
Nenhum desses benefícios é ilegal. Todos os generais e almirantes estão rigorosamente amparados pelas regulamentações militares e pela legislação sobre os Próprios Nacionais Residenciais. O ponto central, entretanto, é ético e econômico.
Enquanto a base da tropa sofre com achatamento salarial e o próprio Ministro da Defesa reclema da falta de recursos, uma pequena elite fardada desfruta de um padrão de vida inatingível para a maior parte dos cidadãos brasileiros.
Um deputado chegou a questionar a necessidade de se manter esse tipo de privilégios: “O comandante da Marinha tem uma casa em um morro de Salvador com uma baita vista. Há essa necessidade?” Parlamentares articulam a tramitação do PLP 118 de 2024, que prevê a alienação de imóveis sob a guarda das Forças Armadas Brasileiras.
Vender apenas parte dessas propriedades milionárias em bairros nobres, pela ótica de parlamentares como Fernando Monteiro, sobrinho do Ministro da Defesa, injetaria cifras colossais nos cofres de uma Defesa que clama por orçamento. Até que essa racionalização saia do papel para a cúpula, o brasileiro continuará pagando a conta e os generais, apenas cerca de R$ 700.
“Dispõe sobre a destinação, para o Ministério da Defesa, das receitas obtidas com a alienação de bens móveis e imóveis das Forças Armadas, com a finalidade de investimento e melhor estruturação da Pasta; e dá outras providências“, diz a nota de definição do PLP 118 de 2024.
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