O Mandamento Esquecido: 'Não Roubarás' e o Desafio Ético do Brasil Contemporâneo

Por Silvia Blumberg

O Mandamento Esquecido: 'Não Roubarás' e o Desafio Ético do Brasil Contemporâneo

A tradição judaico-cristã nos legou um arcabouço moral profundo, cujas raízes remontam aos ensinamentos transmitidos a Moisés. Embora os Dez Mandamentos sejam os mais conhecidos, a tradição oral judaica, a Torá, expande esse código para 613 mandamentos, ou Mitzvot, que governam desde as relações interpessoais até a adoração divina. Dentre esses preceitos, "Não Roubarás" se destaca como um pilar fundamental da convivência social e da justiça. No entanto, em meio a escândalos e controvérsias que abalam o Brasil, a relevância deste mandamento parece ser tristemente esquecida, gerando uma crise moral e institucional que exige reflexão profunda

Os 613 mandamentos recebidos pelo povo judeu no Monte Sinai , que incluem 248 mandamentos positivos (faça isto) e 365 mandamentos negativos (não faça isto), formam um guia abrangente para a vida ética e espiritual. Eles abordam temas como justiça, caridade, honestidade, respeito à vida e à propriedade. O mandamento "Não Roubarás" (Êxodo 20:15; Deuteronômio 5:19) não se restringe apenas ao furto de bens materiais, mas engloba todas as formas de apropriação indevida, engano, fraude e exploração. Ele é a base para a confiança mútua, a integridade nas transações e a equidade na sociedade. Sem ele, a estrutura social se corrói, dando lugar à injustiça e ao caos.

O Brasil Diante do Espelho: Escândalos e a Violação do Mandamento

A aplicação prática do "Não Roubarás" revela um contraste gritante com a realidade brasileira atual, marcada por uma sucessão de escândalos que parecem desafiar a própria noção de probidade. A menção de casos como o Banco Master, Will e o  Resort de “parentes de ministros" ecoa a percepção pública de um sistema onde a corrupção parece entranhada nas mais altas esferas. A ideia de que ministros e familiares da mais alta corte da justiça estariam envolvidos em "roubos bilionários que afetam os investimentos e políticas públicas da população brasileira" é devastadora para a confiança nas instituições.

É particularmente revoltante quando tais alegações vêm à tona enquanto o país debate o aumento salarial de professores, acompanhado da inclusão destes no pagamento de impostos, numa demonstração de aparente desequilíbrio entre a punição da base e a impunidade do topo. A indignação se aprofunda com o envolvimento alegado de familiares do presidente em "roubos dos aposentados em bilhões", um ataque direto à dignidade e ao futuro de milhões de brasileiros que dedicaram suas vidas ao trabalho.

Além das questões internas, a política externa também levanta sérias preocupações éticas. O silêncio ou apoio a regimes autoritários, como as ditaduras que o presidente do país "apoia", ou a "caçada de Maduro", e a falta de "horror" diante da "escalada da violência do presidente russo contra a Ucrânia", podem ser interpretados como uma falha em defender princípios éticos universais de justiça e respeito à vida, ecoando, à sua maneira, a ausência do "Não Roubarás" no cenário global, onde a soberania e a paz são roubadas.

 As Pragas para Aqueles que Desrespeitam o "Não Roubarás"

A tradição religiosa e a própria história nos mostram que o desrespeito a mandamentos fundamentais gera consequências severas. Metaforicamente, as "pragas" para aqueles que não respeitam o "Não Roubarás" podem ser entendidas como:

1.  A Ruptura da Confiança Social: A sociedade se torna cínica, descrente em suas instituições e líderes, levando à desintegração do tecido social.
2.  O Colapso da Ética Pública: A corrupção se normaliza, tornando-se um "modus operandi" que impede o desenvolvimento justo e equitativo.
3.  A Penalização dos Mais Fracos: Os recursos desviados do erário público resultam em cortes na educação, saúde e infraestrutura, prejudicando diretamente os mais vulneráveis e perpetuando ciclos de pobreza.
4.  A Instabilidade Política e Econômica: A fuga de investimentos, a desvalorização da moeda e a instabilidade política são consequências diretas da corrupção sistêmica.
5.  A Desmoralização Coletiva: A sensação de impunidade mina a moral da sociedade, fazendo com que muitos percam a esperança na justiça e na possibilidade de um futuro melhor.

A Questão Que Não Quer Calar: Eleitores e Representantes do Povo nas Casas Legislativas e Judiciárias:

Diante de um quadro tão complexo, a pergunta sobre quais são os eleitores desta gente? e  Quem  são os representantes da população que seguem em silêncio e ou não se incomodam de assistir crimes que vão inviabilizar o país é crucial. A resposta é multifacetada. Por vezes, a lealdade partidária cega os eleitores para as falhas de seus líderes. Em outros casos, a desinformação, a manipulação, o desinteresse cívico ou a desesperança levam ao silêncio. A complexidade do sistema político e a dificuldade em discernir a verdade em meio a um turbilhão de notícias e acusações também contribuem para a inércia. A responsabilidade, contudo, recai sobre todos: eleitores que precisam se informar melhor e representantes que devem defender intransigentemente os interesses da na nação, e não os seus próprios.

O Papel da Cultura na Crise Moral e Institucional

E a cultura? Qual o papel dela neste momento? A cultura, em seu sentido mais amplo – arte, educação, valores e costumes é um espelho e um formador da sociedade. Ela pode estar a serviço da denúncia e da crítica, como voz da consciência coletiva, ou pode ser cooptada para legitimar o status quo, promovendo o conformismo ou a alienação. Quando a cultura se cala ou é instrumentalizada, ela falha em seu papel de questionar, inspirar e resgatar os valores éticos que sustentam uma nação. Uma cultura vibrante e engajada é essencial para manter acesa a chama da indignação justa e da busca por um país mais ético e justo.

 O Futuro Desejado: Reafirmando o "Não Roubarás"

A visão de um modelo de gestão para os próximos anos que perpetue a impunidade, a corrupção e o descaso com as necessidades básicas da população é, no mínimo, assustadora. É um caminho que inviabiliza o país, tirando da Educação, da Saúde – áreas prioritárias para o bem-estar dos brasileiros – os recursos vitais.

É imperativo que a sociedade brasileira reafirme o mandamento "Não Roubarás" em todas as suas dimensões. Isso significa exigir transparência, fiscalização rigorosa, punição exemplar para os corruptos e, acima de tudo, uma mudança cultural que valorize a honestidade e a integridade como pilares inegociáveis de qualquer projeto de nação. Apenas assim poderemos construir um futuro onde os valores éticos prevaleçam sobre a ganância, e onde os recursos públicos sirvam verdadeiramente ao povo.

Por Ultima Hora em 26/01/2026
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