O Mundo na Velocidade da Luz, a Política na Velocidade da Carruagem

*Por Everton Gomes

O Mundo na Velocidade da Luz, a Política na Velocidade da Carruagem

Eleições chegando. Entre tantos temas sugeridos para o debate público, sinto que falta o principal. Acordo cedo, percorro as notícias e vejo que as fronteiras do mapa viraram meras linhas de giz sob a chuva.

De um lado, as manchetes expõem armas de guerra que chegam ao Rio com a facilidade de uma ponte aérea — fruto de uma logística global que ignora alfândegas. De outro, o asfalto revela o drama de imigrantes que se juntam aos nossos camelôs na informalidade das calçadas, tentando sobreviver com sotaques diversos em uma metrópole que pode ser muito hostil para quem não é turista de grandes eventos.

Como cidadão, sinto a indignação; como especialista em gestão pública, percebo que nossa política está anêmica porque tenta resolver problemas do agora com ferramentas de museu. Nossa lógica partidária ainda é baseada em modelos criados para um mundo de fronteiras fechadas, onde as carruagens ditavam a velocidade das coisas. Esse formato "congelado" no passado não cabe mais nas nossas urnas.

Hoje, vivemos no que Milton Santos chamou de meio técnico-científico-informacional, onde o crime, o dinheiro e as crises climáticas operam em redes instantâneas e globais. Enquanto o mundo se integra por fluxos digitais e logísticos, nossa democracia — e quiçá a latino-americana — patina em um isolacionismo que nos imobiliza.

Na Europa, esse passo já foi dado. Lá, entenderam que estruturas de representação hoje requerem fronteiras mais amplas e criaram os Europartidos — legendas que operam além das nações. Aqui, nossas instituições de integração regional ainda são estruturas que, embora importantes, carecem de poder real para transformar a realidade de forma coordenada.

Por isso, defendo uma inovação institucional urgente para o nosso continente: a criação de um Estatuto do Partido Transnacional.

Precisamos de uma personalidade jurídica compartilhada que permita às legendas terem mandato e governança que atravessem as fronteiras. Somente com essa escala jurídica poderemos formular políticas que sejam, de fato, vinculantes e eficazes para proteger nossos biomas, combater a logística do crime e garantir o Direito à Cidade para todos.

A política brasileira não pode continuar sendo um museu de novidades. Se as crises não param na fronteira, nossa capacidade de governar e transformar a realidade também precisa ser transnacional. O Rio, como metrópole que pulsa o mundo, exige uma representação à altura da complexidade deste tempo.

Sobre o autor:

*Everton Gomes é Gestor Público, Mestre em Ciência Política (UFF), Bacharel em Direito (UFRJ) e Especialista em Gestão Governamental e Políticas Públicas.

Por Ultima Hora em 25/03/2026
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