O novo comportamento urbano: carros elétricos, algoritmos e o futuro que já circula em silêncio - Por Jorge Tardin

O novo comportamento urbano: carros elétricos, algoritmos e o futuro que já circula em silêncio - Por Jorge Tardin

Uma revolução silenciosa atravessa as avenidas brasileiras. Não vem com sirenes ou decretos, mas embutida num hatch elétrico acionado por aplicativo, deslizando sem o ronco do motor. Chama-se BYD, mas seu verdadeiro nome é mudança de comportamento urbano.

O que vivenciamos transcende um fenômeno de mercado — é uma inflexão cultural. Uma reorganização radical dos conceitos de posse, deslocamento e convivência nas cidades. Em maio de 2025, a montadora chinesa ultrapassou a Toyota em vendas no varejo e tornou-se a quarta marca mais vendida no Brasil. Seus modelos 100% elétricos, como o Dolphin, lideraram em 18 capitais. O dado é expressivo, mas seu significado vai além: enterra-se a era da propriedade sobre quatro rodas, substituída pela cultura do acesso sob demanda — o clique que supera a chave, a tomada que substitui o tanque.

O ocaso do reinado automotivo

Se no século XX o urbanismo curvava-se ao automóvel — com viadutos, avenidas e oceanos de asfalto —, hoje esse modelo desmorona. Algoritmos de mobilidade, veículos por assinatura e motores silenciosos costuram novos pactos urbanos. Plataformas como Uber e 99, aliadas à popularização dos carros elétricos compartilhados, já transformam a paisagem das metrópoles. O que era propriedade virou acesso; o que era garagem, fluxo; o que era barulho, dado.

Contudo, essa transição impõe desafios que o entusiasmo não pode camuflar: ? A infraestrutura elétrica brasileira ainda carece de investimentos robustos e planejamento federativo coordenado.

? A concentração do setor em poucas plataformas e fabricantes exige vigilância antitruste e marcos regulatórios eficazes.

? A inclusão social permanece questão central: como garantir que a mobilidade do futuro não exclua os territórios do presente?

O Código Civil na contramão da história

Nosso ordenamento jurídico ainda trata o automóvel como "bem móvel", vestígio conceitual de um tempo em que possuí-lo era símbolo de prestígio patrimonial. Ignora que hoje o carro é, também, plataforma digital, ponto de energia e espaço de compartilhamento dinâmico.

As lacunas jurídicas são evidentes:

? Como regular o uso por frações horárias?

? Quem responde por acidentes em veículos alugados por algoritmo?

? Como definir responsabilidade civil em contratos autônomos?

Além das cláusulas adaptadas e seguros por quilometragem em teste, urge uma reforma que incorpore:

? Regramento de smart contracts e contratos performativos automatizados;

? Parâmetros de sustentabilidade no ciclo completo (da extração de lítio ao descarte de baterias);

? Mecanismos regulatórios contra abusos econômicos em plataformas digitais.

A tramitação da nova proposta de Código Civil no Congresso não pode ignorar essa mutação em curso — e o direito civil do século XXI não pode prescindir de uma gramática tecnológica.

A nova gramática urbana e seus intérpretes

O cidadão que hoje opta por apps, bicicletas elétricas ou carros por assinatura não é o mesmo da década passada. Ele é mais urbano que automobilista, mais digital que proprietário. Suas escolhas individuais reconfiguram zoneamentos, impactam redes de energia, transformam o conceito mesmo de mobilidade.

Capitais como Brasília, Vitória e Natal, onde a BYD já lidera em vendas, tornaram-se laboratórios vivos dessa transição. Mas há também ensaios discretos de futuro em Armação dos Búzios, onde desde 2010 frotas de veículos elétricos leves — carrinhos de golfe adaptados — são integradas à operação de resorts. São projetos que revelam o potencial da mobilidade de baixo impacto aliada à hospitalidade inteligente. Nestes microcosmos, o futuro não apenas chega — ele é testado silenciosamente.

E é exatamente nesse ponto que soluções como a Sinapsi’s & Sinergias ganham relevo: ao articular inovação jurídica, engenharia operacional e identidade territorial, elas oferecem um caminho para transformar boas ideias em pactos duradouros.

O desafio da governança inclusiva

A verdadeira inteligência urbana não está no silício, mas na capacidade de converter tecnologia em benefício coletivo. De nada adianta uma frota elétrica de última geração se ela for inacessível à maioria.

? Como evitar que a mobilidade elétrica se torne privilégio das elites urbanas?

? Como integrar favelas, zonas rurais e periferias a esse novo ecossistema de transporte?

? Que políticas públicas podem garantir que a “cultura do acesso” não repita os vícios da exclusão?

 

A cidade que se forma no retrovisor só será inteligente se for socialmente justa, legalmente sustentável e energeticamente viável. E isso exige uma nova engenharia jurídica — uma que não apenas codifique o que existe, mas também projete o que ainda não ousamos regulamentar.

A cidade mudou. O cidadão mudou. Falta o Direito mudar. E talvez essa mudança deva começar por onde tudo está sendo silenciosamente ensaiado: em Búzios, de onde a brisa do futuro sopra para o Rio — e para todo o Brasil.

Jorge Tardin Advogado, professor de Direito e curador da Coalizão Veredicto do Capital

 @jorge_tardin_prof

Por Ultima Hora em 04/06/2025
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