Os Donos do Jogo: conheça a história real do Jogo do Bicho que baseia a série

A história da série se desenrola no Rio de Janeiro onde o jogo do bicho exerce poder, corrompe a polícia e disputa territórios.

Os Donos do Jogo: conheça a história real do Jogo do Bicho que baseia a série

Da esquerda para a direita: Profeta, Galego e Mirna Guerra, personagens da série Os Donos do Jogo.

Profeta cresceu como uma criança adotada em uma família do interior do Rio de Janeiro. Seu pai chefiava o jogo do bicho na cidade de Campos dos Goytacazes. Visto desde cedo como o “diferente”, foi justamente ele quem demonstrou mais talento para os negócios.

Seu talento para o crime fez ele querer mais. O Profeta almejava expandir para o Rio de Janeiro, a capital do Jogo do Bicho. Lá, descobre um ambiente muito mais complexo, marcado por acordos frágeis, guerras familiares e redes de poder que atravessam décadas.

A trajetória de Profeta é ficção. Mas o universo que molda a história é real.

A seguir, você entende o que a série inventa e o que ela retrata com impressionante verossimilhança.

A origem do jogo do bicho: de rifa de zoológico a sistema nacional

A história do jogo do bicho começa muito antes das guerras familiares, das cúpulas e das fortunas que apareceram no século XX e são representadas na série Donos do Jogo.

O jogo nasceu em 1892, no bairro de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, em um momento de crise econômica e instabilidade política após a queda da monarquia.

O protagonista desse início é João Batista Viana Drummond, o Barão de Drummond. Um monarquista convicto, amigo pessoal de Dom Pedro II e fundador do primeiro zoológico da cidade. 

Com a proclamação da República, Drummond perde privilégios, apoio estatal e, sobretudo, financiamento. O zoológico estava prestes a fechar. Foi nesse contexto que surgiu uma ideia simples: uma rifa diária que usava animais como símbolos de aposta.

Como funcionava?

  • 25 animais diferentes representavam 25 grupos de números.
     
  • Ao comprar o ingresso para o zoológico, o visitante recebia um bilhete estampado com um desses animais.
     
  • No fim da tarde, Drummond revelava qual animal havia sido sorteado.
     
  • Quem tivesse o bilhete vencedor recebia 20 vezes o valor pago.

Era uma forma de atrair público e funcionava como uma ferramenta de sobrevivência de um zoológico prestes a falir.

O jogo foi para além do Zoológico

Como a chance de ganhar era muito maior do que qualquer loteria da época, o jogo rapidamente escapou dos portões do zoo. Comerciantes, vendedores ambulantes e donos de pequenos armazéns começaram a vender bilhetes por conta própria, replicando o modelo nas ruas, becos e mercados.

O jogo se espalhou tão rápido que, em 1895, o governo republicano decidiu proibi-lo. Tarde demais.

O jogo já havia virado um hábito cotidiano, especialmente entre trabalhadores pobres que viam na aposta uma chance simples de ganhar algum dinheiro.

As condições perfeitas para um mercado ilegal

O Brasil recém-republicano reunia exatamente os fatores que permitem o crescimento de um mercado clandestino:

  1. Urbanização acelerada, com multidões de pobres sem empregos estáveis.
     
  2. Grande fluxo de imigrantes, que traziam redes comunitárias e habilidades mercantis.
     
  3. Circulação crescente de dinheiro, com a industrialização nascente após a abolição.
     
  4. Baixa capacidade de repressão estatal, já que o jogo era apenas contravenção.

O resultado foi claro: o jogo do bicho se consolidou como uma prática popular e diária, imune às tentativas de repressão.

De hábito popular a empresa criminosa

Nas primeiras décadas do século XX, os papéis se ajustaram:

  • Apontadores (vendedores de rua).
     
  • Gerentes (responsáveis pelas zonas de aposta).
     
  • Banqueiros (quem bancava os prêmios e controlava o negócio).

A estrutura era capitalista e meritocrática, quem pagava em dia, organizava melhor ou expandia com eficiência ganhava terreno. Foi assim que começaram a surgir os primeiros “barões” da contravenção.

Por que durou tanto?

Porque o jogo criou mecanismos para sobreviver:

  • Reputação de pagamento garantido: nunca deixar o apostador sem prêmio.
     
  • Publicação de resultados em postes e muros: transparência para gerar confiança.
     
  • Uso da Loteria Federal como referência: reduzindo a chance de fraudes.
     
  • Incentivos a funcionários: empréstimos, gorjetas e “segurança”.
     
  • Rede de proteção política e policial: o ponto mais sensível e mais eficiente.

Para entender a história de Os Donos do Jogo, é impossível ignorar a figura que moldou o submundo carioca no século XX: Castor Gonçalves de Andrade e Silva.

Quem era Castor de Andrade e Silva?

Castor Gonçalves de Andrade e Silva foi o maior bicheiro da história do Rio de Janeiro.

Ele herdou o negócio da família em Bangu, profissionalizou as bancas, organizou territórios e criou alianças com policiais e políticos. Com isso, tornou-se o chefe mais influente da contravenção carioca no século XX.

Ao mesmo tempo, financiou o Bangu Atlético Clube e atuou como patrono da Mocidade Independente de Padre Miguel, usando o Carnaval e o futebol para ampliar seu poder social.

Castor consolidou a estrutura que transformou o jogo do bicho em uma organização hierárquica, poderosa e profundamente enraizada na vida do Rio. Em uma entrevista com o Jô Soares, Castor se portava como uma pessoa inocente e carismática. 

Os Donos do Jogo: uma história fictícia baseada em uma realidade

Na série Os Donos do Jogo, o que é real não são os personagens, mas a estrutura do universo retratado. A produção acerta ao mostrar que o jogo do bicho no Rio de Janeiro foi controlado por famílias organizadas, com herdeiros disputando territórios, pactos feitos em cúpulas de chefes, e uma relação profunda com Carnaval, futebol, políticos e setores da polícia.

A violência como forma de resolver conflitos, a divisão da cidade em áreas de influência e a adaptação recente dos grupos às apostas online também são fatos documentados.

Os personagens são reais?

Os personagens são ficcionais, porém inspirados em figuras históricas do jogo do bicho. A série mistura características, trajetórias e perfis de vários bicheiros conhecidos para criar tipos dramáticos.

De forma geral:

  • Galego lembra Castor de Andrade — pela postura, influência no Carnaval e estilo de liderança.
     
  • Suzana e Mirna Guerra se inspiram na relação das irmãs Shanna e Tamara Garcia, herdeiras de Maninho.
     
  • Búfalo tem elementos do Zé Personal, bicheiro assassinado após disputa por herança.
     
  • Profeta combina traços de Bernardo Bello e Maninho Garcia, herdeiros que tentaram expandir territórios e enfrentaram conflitos internos.

Portanto, não há personagens reais, mas há ecos claros de pessoas que existiram e marcaram a história da contravenção no Rio de Janeiro.

Por Brasil Paralelo

Por Ultima Hora em 17/11/2025
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