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As eleições legislativas em Portugal confirmaram aquilo que muita gente preferia manter guardado na gaveta, ao lado dos pastéis de nata e dos livros de Camões: a extrema-direita chegou, tirou os sapatos, entrou em casa e está confortável no sofá. O Chega, liderado por André Ventura — ex-comentador desportivo com ambições messiânicas — saiu das franjas do sistema político para se tornar a terceira força no Parlamento, quase empatado com o histórico Partido Socialista. Para quem acreditava que Portugal estava vacinado contra surtos autoritários graças ao fado e à Revolução dos Cravos… é tempo de acordar e verificar se os cravos ainda estão vivos.
Estas eleições entregaram mais do que urnas cheias: ofereceram-nos um espelho. E o que se viu no reflexo não foi apenas o crescimento do Chega — foi o retrato nítido de um fenómeno que atravessa fronteiras com mais facilidade do que mochileiro europeu: a ascensão da nova direita como sintoma da revolta popular contra a política tradicional.
O Chega, com o seu discurso inflamado e o vocabulário de tasca (pequenos bares ou tabernas tradicionais) em dia, não representa apenas uma guinada ideológica. Representa um grito. Um grito confuso, muitas vezes contraditório, mas que ecoa forte. É o grito de quem olha para o sistema político e vê privilégios, ineficácia, corrupção, promessas vazias e tecnocratas que falam bonito e fazem pouco. André Ventura — o homem que promete “limpar Portugal” — pode não ter um programa de governo claro, mas tem algo que muitos partidos tradicionais perderam: timing e raiva direccionada.
E aqui está o ponto central: o crescimento da direita radical não é, na maioria dos casos, fruto de uma súbita paixão popular pelo conservadorismo clássico, nem por um renascimento ideológico baseado em Burke ou Hayek. Edmund Burke foi um político e filósofo britânico do século XVIII, considerado um dos pais do conservadorismo moderno, defensor da ordem, da tradição e da prudência política. Friedrich Hayek foi um economista e pensador liberal austríaco do século XX, conhecido por defender o livre mercado e criticar o intervencionismo estatal. Ambos são referências teóricas do pensamento conservador e liberal clássico — mas estão longe de ser leitura de cabeceira da nova direita populista.
É, antes de tudo, uma forma de protesto mascarada de projecto político. É o voto de quem não quer construir um novo edifício — quer derrubar o que está, mesmo sem saber o que vai nascer no lugar.
Na prática, muita gente escolhe candidatos da direita radical como quem carrega no botão “reseat” -repor definições de fábrica-.
E esta dinâmica não é exclusiva de Portugal. Um pouco por todo o lado, a política tradicional parece presa num ciclo de repetição: crises económicas tratadas com pacotes de austeridade reciclados, escândalos de corrupção em série, e uma elite política que, mesmo bem-intencionada, parece falar uma língua diferente da maioria da população. O resultado é previsível: cresce o apelo de quem aparece com promessas simples, frases de efeito e uma boa dose de raiva performativa.
Marine Le Pen, Giorgia Meloni, Santiago Abascal, Donald Trump, Javier Milei, André Ventura — todos surfam essa mesma onda. A retórica muda conforme o país, os alvos variam (muçulmanos, pretos, imigrantes, feministas, globalistas, professores...), mas o sentimento que os alimenta é o mesmo: rejeição do sistema, nojo da política tradicional e uma nostalgia por um passado que provavelmente nunca existiu.
Do outro lado do Atlântico, o trumpismo resiste como uma espécie de reality show político de temporada infinita, e no Brasil, o bolsonarismo está em modo zombie — morto-vivo, mas com apetite eleitoral intacto. Mesmo fora do Palácio do Planalto, Bolsonaro e os seus herdeiros políticos continuam influentes, embalados por uma base que mistura fé, ressentimento e patriotismo como quem prepara uma vitamina ideológica indigesta, mas energética.
A esquerda, por sua vez, muitas vezes parece paralisada. Ou tenta parecer demasiado respeitável para se sujar no lamaçal da política real, ou cai na armadilha de disputar o jogo da nova direita nas guerras culturais — onde frequentemente é devorada pela retórica simplista e estridente dos adversários.
O centro, então, fica numa espécie de posição fetal. Repete mantras sobre “diálogo”, “governabilidade” e “reformas estruturantes” enquanto o eleitorado grita “chega” — e não apenas como slogan.
A verdade é que há uma fractura aberta entre a política institucional e as pulsões populares. E onde há ferida, nunca faltam curandeiros de ocasião com promessas milagrosas — ainda que o remédio seja fita-cola numa hemorragia... ou gasolina num incêndio.
Portugal virou à direita. Mas o que assusta não é a direcção. É o impulso. E se a resposta continuar a ser arrogância ou negação, a guinada pode repetir-se — rotunda após rotunda — até que a estrada democrática vire um beco sem saída.
Saudações democráticas.
Filinto Branco - Colunista politico
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