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Abrasel RJ aponta crise de mão de obra como maior desafio para setor de bares e restaurantes
O setor de bares e restaurantes no Rio de Janeiro enfrenta desafio estrutural que vai além de questões econômicas conjunturais. Com 50 mil estabelecimentos na região e 4.400 filiados apenas à Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), a profissão que representa porta de primeiro emprego para milhares de jovens sofre com falta de mão de obra qualificada e persistente informalidade. Maurício Costa, presidente da Abrasel RJ e diretor geral do Bar do Adão, apresentou diagnóstico preciso durante participação na Super Rio Expo Food 2026: o Brasil vive situação de pleno emprego com a menor taxa de desemprego da história recente, mas isso transfere pressão brutal para estabelecimentos que dependem intensivamente de força de trabalho.
A dimensão do setor e sua representatividade
A Abrasel funciona como associação nacional com representatividades estaduais que transcendem simples sindicação tradicional. No Rio de Janeiro, os 4.400 estabelecimentos filiados englobam muito mais que bares e restaurantes convencionais. O segmento representa lanchonetes, padarias, hamburguerias, pizzarias — toda a cadeia de alimentação fora do lar. Essa amplitude revela complexidade do setor que não é monolítico, mas composto por múltiplos formatos de negócio com desafios similares mas necessidades específicas.
A distinção entre associação e sindicato é relevante para compreender posicionamento da Abrasel. Enquanto sindicatos frequentemente mantêm vínculos com estruturas políticas ou ideológicas específicas, a associação funciona com financiamento 100% via parceiros e mensalidades de associados, mantendo independência maior. Isso permite que Abrasel articule posições que equilibram interesses de empregadores e trabalhadores, evitando alinhamentos que comprometam uma das partes.
O cenário de pleno emprego e suas consequências
O Brasil atravessa paradoxo econômico relevante. A menor taxa de desemprego da história convive com dificuldade aguda de contratação em setores específicos. Para bares e restaurantes, essa realidade traduz-se em impossibilidade prática de recrutar pessoal — não porque não haja desemprego nacional, mas porque mercado de trabalho está aquecido em múltiplos segmentos simultaneamente, criando competição acirrada por profissionais disponíveis.
Costa identificou que setor é "intensivo em mão de obra", o que significa que custos laborais representam percentual significativo do orçamento operacional. Diferente de setores que conseguem compensar falta de pessoal através de automação, bares e restaurantes dependem de contato humano direto para produção e entrega de serviços. Essa característica torna questão de disponibilidade de trabalhadores não apenas problema administrativo, mas ameaça existencial para viabilidade de operações.
A informalidade como marca estrutural
Dados de pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV) apresentados na entrevista revelam que 38% da força de trabalho brasileira atua sem formalização — sem carteira assinada, sem direitos trabalhistas, em situação de vulnerabilidade legal. No segmento específico de bares e restaurantes, a situação é dramaticamente pior: 42% de toda força de trabalho funciona na informalidade.
Essa predominância de trabalho informal não é acidental, mas responde a dinâmica estrutural do setor. Bares e restaurantes experimentam variação significativa de demanda conforme dias da semana. Fins de semana concentram picos de movimento que requerem quantidade maior de pessoal, enquanto dias úteis permitem operação com equipes menores. Contratar pessoal em regime formal para cobrir picos sazonais resultaria em custos fixos insustentáveis para pequenos empreendedores.
A flexibilidade versus insegurança jurídica
Costa introduziu distinção crucial que frequentemente permanece obscura em debates sobre trabalho informal: diferença entre flexibilidade e insegurança jurídica. Flexibilidade é capacidade de adaptar quantidade de pessoal conforme demanda, adequando custos a receitas. Insegurança jurídica é ausência de proteção legal para profissionais, deixando-os vulneráveis a exploração, sem acesso a benefícios previdenciários, sem cobertura em caso de acidentes, sem direito a rescisão apropriada.
A solução apresentada pela Abrasel aponta para modelagem legal diferenciada: trabalho intermitente. Essa modalidade permite contratação de profissionais por hora trabalhada, com formalização adequada e todos os direitos garantidos, mas sem necessidade de manter vínculo permanente de tempo integral. O trabalhador pode ser contratado conforme demanda, mas quando trabalha, trabalha sob proteção legal completa.
Essa abordagem representa vitória legislativa significativa para o setor, permitindo que estabelecimentos formalizem contratações sazonais sem incorrer em custos fixos inviáveis. Para profissional, significa segurança jurídica mesmo trabalhando por demanda — acesso a fundo de garantia, contribuição previdenciária, proteção contra acidentes, legitimidade da relação contratual.
Os encargos trabalhistas e o pequeno empresário
Costa enfatizou que maioria do setor é composta por pequenos e médios empresários. A média nacional é de seis a sete funcionários por estabelecimento. Para empresários desse porte, custos trabalhistas representam proporção significativa do faturamento. Encargos previdenciários, impostos sobre folha, custos de contratação formal — tudo isso multiplica-se quando se trata de operação pequena onde margem de lucro é tipicamente reduzida.
A desburocratização emerge como pauta central da Abrasel. Simplificar processos de formalização, reduzir custos de admissão, permitir modelos de contratação flexíveis — essas medidas beneficiam simultaneamente empreendedor (que consegue contratar formalmente) e trabalhador (que acessa proteção legal). O equilíbrio é delicado: muito rigor regulatório força informalidade; falta de regulação deixa trabalhadores desprotegidos.
O ecossistema equilibrado entre empregador e trabalhador
Costa insistiu em conceito importante frequentemente perdido em debates sobre relações de trabalho: não existe "lado A" e "lado B" entre empregador e colaborador, mas ecossistema onde todos os atores precisam prosperar simultaneamente. Esse posicionamento da Abrasel diferencia-se de sindicatos mais radicalizados que frequentemente veem relação trabalhista como antagonismo zero-sum.
A Abrasel trabalha em parceria com sindicatos laborais que representam trabalhadores, reconhecendo legitimidade de ambos os lados. A defesa é por segurança de setor que gere mais renda, melhores condições de trabalho e remuneração adequada — não porque altruísmo, mas porque ecossistema próspero beneficia todos. Sociedade ganha com mais oferta de serviços de gastronomia de qualidade, estabelecimentos ganham com profissionais motivados e retidos, trabalhadores ganham com oportunidades de emprego e remuneração digna.
A Super Rio Expo Food como plataforma de articulação
A Super Rio Expo Food 2026, uma das maiores feiras de gastronomia e supermercados da América Latina, funciona como espaço de articulação para setor. A Abrasel mantém stand significativo que representa menos ponto de venda que hub de relacionamento. Naquele espaço, associados trocam experiências, compartilham desafios, descobrem soluções inovadoras que pares já implementaram.
A feira consolida importância à medida que abraça simultaneamente supermercadistas e empresários de bares e restaurantes, criando ecossistema onde diferentes segmentos da cadeia alimentar encontram-se. Para Abrasel, participação em evento dessa magnitude é fundamental para manter visibilidade institucional e demonstrar ao mercado e ao governo que setor tem força e articulação.
Perspectivas para o futuro do setor
O desafio imediato é converter flexibilidade necessária em formalidade possível. Marcos legais como trabalho intermitente representam progresso, mas ainda há resistência de setores que preferem informalidade total para evitar qualquer custo. Educação de pequenos empreendedores sobre benefícios de formalização — redução de riscos legais, maior segurança, acesso a crédito — torna-se pauta educativa relevante.
Simultaneamente, pressão por desburocratização deve prosseguir. Processos de admissão simplificados, custos reduzidos, modelos de contratação adaptados à realidade do setor — essas mudanças regulatórias podem viabilizar formalização em massa. A meta é transformar os 42% de informalidade em formalidade segura, onde todos os atores — empreendedores, trabalhadores, sociedade — ganham com maior proteção legal e segurança institucional.
Fontes: Entrevista ao Jornal da República — Última Hora (24 de março de 2026); Super Rio Expo Food 2026; Abrasel RJ — Associação Brasileira de Bares e Restaurantes; Fundação Getulio Vargas (FGV) — Pesquisa sobre Informalidade no Brasil; Ministério do Trabalho e Previdência Social; Legislação sobre Trabalho Intermitente (Lei nº 13.467/2017 — Reforma Trabalhista); Dados de Emprego e Desemprego do Brasil 2026; Associações Sindicais Laborais do Rio de Janeiro.

Repórter Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ
Por Robson Talber @robsontalber
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