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Walter Felix Cardoso Junior
wfelixcjr3.carrd.co
Talvez o maior problema do Brasil de hoje não esteja apenas na audácia dos que abusam do poder, mas na hesitação dos que já perceberam o abuso e, ainda assim, continuam à espera de uma circunstância ideal para reagir.
A História nunca prometeu liberdade sem custo. Ao contrário: sempre ensinou que preservá-la exige algum grau de desgaste pessoal, desconforto moral e disposição para sustentar convicções quando o ambiente já conspira contra elas. Fingir que esse custo não existe, ou esperar indefinidamente que ele recaia sobre outros, é uma forma elegante de autoengano. Em certos casos, é comodismo. Em outros, já é capitulação.
Pascal já percebia algo dessa natureza: o homem raramente busca a verdade de forma desinteressada. Procura, antes, razões que sustentem aquilo que lhe convém. Não se trata, na maioria das vezes, de malícia deliberada, mas de uma inclinação constante de proteger a si mesmo.
O que se vê hoje entre nós parece resultar de duas formas de paralisia. A primeira é a da acomodação gradual. Os abusos avançam aos poucos, a anormalidade vai sendo servida em parcelas e o espírito se adapta ao que antes consideraria intolerável. A segunda é a do cálculo: mesmo quando o quadro já está claro, muitos preferem recuar diante do preço de enfrentá-lo. Não porque não entendam o que está acontecendo, mas porque desejam que o desgaste fique com terceiros.
É justamente aí que a situação se agrava. Um país não adoece apenas pela ação dos maus. Adoece também quando os decentes passam a chamar de prudência aquilo que, no fundo, já é omissão. O abuso não precisa de unanimidade para prosperar. Basta-lhe encontrar silêncio, medo, resignação e o hábito cada vez mais confortável de assistir sem se comprometer.
Durante muito tempo, o desconforto cresceu devagar, enquanto boa parte das pessoas de bem se adaptava ao calor. Agora, o problema já não é falta de percepção. O desvio está aí, ostensivo, reiterado, por vezes escandaloso. O que falta não é diagnóstico. É disposição. E essa talvez seja a parte mais dolorosa: quando todos enxergam, mas muitos ainda esperam, a inércia deixa de ser distração e começa a parecer escolha.
Não se trata de heroísmo teatral, nem de aventura irresponsável, nem de adesão cega a líderes ou facções. Trata-se de algo mais simples e mais exigente: sustentar ideias, defender valores, recusar a mentira e não terceirizar integralmente a própria responsabilidade moral. A democracia não começa apenas no voto. Começa quando alguém decide não se ajoelhar interiormente diante do abuso, mesmo antes de saber se vencerá.
Talvez já tenhamos passado da fase em que o mal avançava sem ser notado. O que temos agora é uma fase mais severa: a de uma sociedade que já percebe o que se passa, mas ainda mede demais o custo de reagir e suporta demais o preço de não o fazer. E a História, quando chega a esse ponto, costuma cobrar caro pela demora.
Por isso, a tarefa dos que ainda não desistiram é dupla: reduzir, sempre que possível, o custo do agir — pela palavra clara, pela convergência, pela organização e pela coragem serena — e aumentar o custo do não agir, tornando moralmente mais difícil a acomodação dos que ainda conservam consciência. Porque, em certos momentos, o maior risco já não está em reagir. Está em continuar assistindo.
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