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Confesso, caros leitores e leitoras, que por muito tempo acreditei que havia uma espécie de hierarquia natural da substituição tecnológica. Inicialmente, os empregos de escritório que envolvem tarefas repetitivas seriam eliminados, em seguida algumas funções intelectuais mais previsíveis também deixariam de existir e somente muito mais tarde, quem sabe em um futuro remoto repleto de robôs metálicos e ruas excessivamente limpas, seria a vez do trabalho manual e pesado desaparecer.
No fim das contas, era sensato supor que as máquinas conseguiriam aprender a preencher planilhas antes de se aventurarem a erguer paredes sob o calor do sol de fevereiro.
No entanto, o século XXI optou por apressar esse cronograma.
Em crônicas recentes, tenho defendido uma tese que pode ser considerada incômoda: o trabalho humano começa gradualmente a perder centralidade econômica. Isso foi inicialmente notado nos escritórios. A inteligência artificial começou a produzir textos, organizar relatórios, analisar contratos, produzir imagens, criar softwares e executar tarefas que, até pouco tempo atrás, exigiam anos de formação acadêmica e doses perigosas de café.
Depois vimos a automação avançar sobre a guerra. Agora ela chega ao território que muitos imaginavam protegido: o trabalho braçal.
E talvez haja um significado simbólico importante nisso. Por séculos, o trabalho manual foi considerado o último bastião inevitavelmente humano. Ainda que a máquina fosse capaz de realizar cálculos, organizar e processar informações, ela ainda estaria longe de igualar a capacidade de transportar cimento, colher produtos agrícolas ou erguer cidades. Pois bem. A distância encurtou.
Para entender a magnitude da transformação, basta observar dois setores que por muitos anos pareceram indestrutíveis: a agricultura e a construção civil.
Em áreas rurais, a mudança já começou há bastante tempo, mesmo que uma parte da mentalidade urbana ainda perceba o agronegócio brasileiro como uma combinação de novela do campo com calendário de cooperativa agrícola dos anos 90. O agronegócio contemporâneo funciona, cada vez mais, como uma imensa plataforma tecnológica ao ar livre.
Tratores equipados com GPS cruzam as lavouras com uma precisão milimétrica. Colheitadeiras automatizadas calculam produtividade em tempo real. Drones monitoram lavouras, identificam pragas, pulverizam defensivos e analisam solo. Sensores controlam irrigação. Softwares decidem o melhor momento para plantar, colher e distribuir.
Em diversos casos, uma propriedade que há dez anos exigia vinte ou trinta trabalhadores permanentes agora é capaz de produzir mais com apenas metade desse número. A plantação não diminuiu. Foi o ser humano que perdeu o seu lugar central.
A indústria da construção começa a trilhar um caminho semelhante. Máquinas realizam trabalhos pesados, os canteiros de obras estão se tornando mais automatizados, estruturas pré-moldadas diminuem o número de trabalhadores e as novas tecnologias eliminam etapas inteiras do processo de construção. Impressoras 3D já constroem paredes. Robôs empilham blocos de construção.
Sistemas digitais de planejamento transformam grandes equipes em pequenos grupos de operadores e técnicos. Um edifício que, há dez anos, exigia cem operários, hoje pode ser gerenciado por sessenta. Amanhã, quiçá por trinta.
Nada disso domina totalmente o presente. Ainda assim, o contorno do horizonte já está definido.
É provável que ainda leve um tempo até que apareça um robô saboreando um café em um copo de plástico, apoiado sobre um saco de cimento, enquanto discute o resultado da partida de quarta-feira. Algumas experiências humanas continuam difíceis de automatizar. Ainda assim, a trajetória parece bem definida.
A tecnologia decidiu democratizar a insegurança profissional.
Durante muitos anos, o conselho dado aos jovens era: “estude para não acabar no trabalho braçal”. A questão é que, neste momento, o algoritmo coloca em risco a profissão de advogado, o robô representa uma ameaça ao operário e o trator autônomo coloca o trabalhador rural em uma situação precária. É a primeira vez em um longo período que diversas classes sociais começam a sentir algo semelhante: a desconfiança de que a economia pode estar, gradualmente, se desacostumando da presença humana.
É aqui que surge uma intrigante contradição.
O capitalismo sempre garantiu que a tecnologia iria libertar o homem do trabalho duro. Sim, ele conseguiu. Geramos mais, com maior rapidez e com menos intervenção humana do que em qualquer outra época da história. O que ocorre é que as sociedades não se sustentam apenas com produtividade.
Também dependem de sua capacidade de proporcionar às pessoas um papel econômico, uma utilidade reconhecida e uma sensação de pertencimento dentro do funcionamento da sociedade.
Durante séculos, o trabalho organizou silenciosamente a vida cotidiana. Estabelecia horários, hábitos, interações sociais, transporte público e até mesmo o clima geral das segundas-feiras. A pergunta “o que você faz?” transformou-se em uma espécie de resumo informal da existência humana.
Mas o que acontece quando milhões de pessoas continuam existindo e o sistema já não sabe exatamente onde encaixá-las?
Talvez este seja o verdadeiro debate do século XXI. Não apenas como gerar empregos, mas como reorganizar uma civilização construída inteiramente ao redor do trabalho num momento em que a própria lógica produtiva começa a precisar de menos trabalhadores.
E existe algo quase irônico nisso tudo. Passamos séculos sonhando com máquinas que nos libertassem do esforço físico. Agora começamos lentamente a perceber que o trabalho talvez não fosse apenas um fardo econômico. Era também uma das engrenagens invisíveis que organizavam sentido, rotina e pertencimento.
As máquinas finalmente aprenderam a trabalhar.
Agora somos nós que começamos a procurar função.
Filinto Branco
Cronista de ideias
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