Ricardo Couto promete enxugamento; Alerj antecipa eleição para blindar seus deputados

Governo de transição quer 'limpeza'; deputados correm para colocar novo presidente na Alerj antes disso

Ricardo Couto promete enxugamento; Alerj antecipa eleição para blindar seus deputados

Alerj se apressa para eleger novo presidente antes de governo de transição fazer "limpeza" administrativa

Assembleia antecipa para sexta eleição que decide novo comandante. Douglas Ruas é o favorito e pode ocupar posição-chave na sucessão do governo estadual

A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro articula uma corrida contra o tempo. Nesta sexta-feira (27), apenas dois dias após a cassação de Rodrigo Bacellar pelo Tribunal Superior Eleitoral, pode acontecer a eleição de um novo presidente da casa. A pressa dos deputados tem uma razão política clara: impedir que o governo de transição, sob comando do desembargador Ricardo Couto, avance em uma promessa já anunciada de enxugamento da máquina pública.

Bacellar perdeu seu mandato na terça-feira (24) e foi declarado inelegível por oito anos. Seu afastamento destrava um jogo político que havia ficado preso há meses, quando o ministro Alexandre de Moraes determinou seu afastamento preventivo por suposta ligação entre o poder público e o Comando Vermelho. Agora, com a cassação confirmada, a sucessão deixa de ser uma possibilidade e passa a ser uma obrigação.

O favorito e seu caminho para o poder

Douglas Ruas, deputado estadual e ex-secretário das Cidades, emerge como o grande favorito para assumir a presidência da Alerj. Aos 34 anos, Ruas integra a estrutura do Partido Liberal, mesma sigla do então governador Cláudio Castro. Segundo interlocutores políticos, ele já contaria com cerca de 40 votos na assembleia — número suficiente para vencer, já que apenas 36 votos são necessários.

A eleição de Ruas representaria mais que uma simples mudança de comando legislativo. Ela garantiria aos deputados uma posição privilegiada na ordem sucessória do governo estadual, conforme estabelece a legislação. Com Guilherme Delaroli, vice de Bacellar, afastado da linha sucessória, a cadeira de presidente da Alerj pode se converter em poder de fato sobre as próximas decisões do estado.

A ameaça da "limpeza" administrativa

Ricardo Couto, presidente do Tribunal de Justiça que agora governa em caráter transitório, já sinalizou suas intenções. Em entrevistas recentes, o desembargador afirmou sua intenção de fazer uma "limpeza" na administração estadual, com corte de secretarias inteiras e eliminação de cargos que considera desnecessários. A declaração soou como um aviso aos deputados: mudanças estruturais virão em breve.

Para a Alerj, particularmente para os deputados vinculados ao grupo político que apoiava Cláudio Castro, a possibilidade de um presidente alinhado com seus interesses no cargo máximo da casa ofereceria proteção. Uma presidência ocupada por Ruas significaria uma trincheira legislativa capaz de negociar com o governo de transição, discutindo cortes propostos e protegendo bases políticas consolidadas ao longo dos anos.

A antecipação que não é casual

O regimento interno da Alerj permite que a eleição ocorra dentro de um prazo de até cinco sessões, mas a intenção dos deputados é reduzir drasticamente esse período. A convocação da votação para sexta-feira representa uma aceleração deliberada. A expectativa é que a decisão formal que determinou a vacância do cargo ocupado por Bacellar chegue à Alerj nas próximas horas, permitindo que a sessão extraordinária seja convocada imediatamente.

Pela legislação estadual, a eleição deve acontecer em sessão extraordinária, com votação aberta e nominal — embora essa regra esteja sob disputa no Supremo Tribunal Federal, onde o ministro Luiz Fux suspendeu justamente essa modalidade de votação, exigindo sigilo de voto. Essa discrepância entre as regras estaduais e as federais representa mais um nó na complexa teia jurídica que envolveu a sucessão no Rio desde a condenação de Castro.

Um tabuleiro político em movimento

O cenário configura-se como um tabuleiro onde cada peça representa interesses conflitantes. Douglas Ruas, cotado como novo presidente da Alerj, simultaneamente flerta com a possibilidade de candidatura ao governo do estado em eleição direta — caso o Supremo Tribunal Federal decida que esse será o caminho para escolher o próximo governador. Sua proximidade com a base legislativa, se confirmada a eleição desta sexta, potencializaria sua posição como candidato.

De outro lado, o PSD de Eduardo Paes, ex-prefeito do Rio, defende as eleições diretas e coloca em xeque exatamente essa dinâmica que favoreceria grupos já consolidados na política fluminense. A legenda teme que uma eleição indireta realizada com base nas regras originais da Alerj abra caminho para perpetuação de estruturas políticas antigas.

Fontes: Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ), Supremo Tribunal Federal (STF), Agência Brasil, G1 Globo, Veja Brasil

 

Por Ultima Hora em 25/03/2026
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