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Enquanto estado quebra e prefeitura briga na Justiça para não implementar políticas públicas, população em situação de rua cresce 51% em cinco anos
O Brasil terminou o mês de maio de 2026 com 388.855 pessoas vivendo em situação de rua, segundo o Cadastro Único para Programas Sociais, em levantamento do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas da Universidade Federal de Minas Gerais (OBPopRua/UFMG). O número é estarrecedor. Equivale à população de uma cidade como Niterói inteira vivendo sob marquises, em barracas de lona, nos vãos de viadutos.
São Paulo lidera o ranking com 159.290 pessoas. O Rio de Janeiro aparece em segundo lugar — com 35.406. Mas, proporcionalmente ao tamanho da economia e à arrecadação do estado, o número revela uma chaga ainda mais profunda: o Rio de Janeiro quebrou, perdeu R$ 3,6 bilhões no escândalo do Banco Master, e quem paga a conta são os que já estavam na fila do osso.
51% de crescimento em cinco anos e uma cidade que esconde os próprios números
Entre 2020 e 2025, a população em situação de rua no estado do Rio de Janeiro saltou de 23.433 para 33.656 pessoas — um aumento de 43%. Em maio de 2026, o número já chega a 35.406. São 51% a mais em seis anos. Quase 12 mil pessoas que não estavam nas ruas em 2020 e agora estão.
Na capital, a situação é ainda mais grave. O censo mais recente da Prefeitura do Rio, concluído em março de 2025 e divulgado sem qualquer destaque no início de 2026, aponta 8.195 pessoas em situação de rua na cidade — um crescimento de 4,2% em relação ao levantamento anterior. Os dados ficaram engavetados por quase um ano antes de virem a público. Sem alarde. Sem coletiva de imprensa. Sem plano de ação.
O MPF, a Defensoria Pública da União e a Defensoria Pública do Estado calculam que o número real na capital seja muito maior: 22,5 mil pessoas. Para todas elas, a prefeitura oferece apenas 3 mil vagas em abrigos. Um déficit de 19,5 mil vagas.
Paes disse que era o "principal problema" em 2022. Em 2025, vetou o comitê que poderia resolvê-lo
Em dezembro de 2022, o prefeito Eduardo Paes (PSD) afirmou em entrevista: "A população de rua é o principal problema hoje do Rio". A frase ecoou como um compromisso. Quase quatro anos depois, o que se vê é o oposto.
Em 2024, a Câmara dos Vereadores aprovou o Projeto de Lei 3639/2024, que ampliava e fortalecia o Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento da População em Situação de Rua (CIAMP RUA). O órgão é previsto pelo Decreto Federal 7.053/2009 e recomendado pelo Supremo Tribunal Federal na ADPF 976. Paes vetou integralmente.
O MPF classificou o veto como um retrocesso e ingressou com ação civil pública contra o município. Em janeiro de 2026, a Justiça Federal determinou que a prefeitura instituísse o CIAMP RUA em até 30 dias, elaborasse um plano emergencial e pactuasse com a União as ações necessárias. A decisão foi assinada pela juíza federal Angelina de Siqueira Costa. A prefeitura recorreu.
Em abril de 2026, o MPF voltou à carga: recomendou ao governo do estado que incluísse a sociedade civil no comitê estadual. O prazo de 45 dias foi dado. Até esta reportagem, não há confirmação de cumprimento.
Sete em cada dez são negros: a face racial da crise
Os dados da UFMG escancaram uma realidade que a sociedade insiste em maquiar: sete em cada dez pessoas em situação de rua no Brasil são negras. No Rio de Janeiro, a proporção se mantém. A população negra, que já enfrenta as maiores taxas de desemprego, menor acesso à saúde e à educação, e é alvo preferencial da violência policial, também é a maioria esmagadora entre os que perderam o direito ao teto.
O Rio de Janeiro concentra 69,6% de sua população em situação de rua na capital — contra 67,2% em São Paulo e 46,6% em Minas Gerais. Ou seja, a crise está concentrada onde o poder público municipal tem mais obrigação de agir. E não age.
Estado quebrado, prefeitura omissa e a população de rua pagando a conta
O cenário se agrava quando se olha para o estado como um todo. O Rio de Janeiro vive a mais grave crise institucional de sua história. A renúncia de Cláudio Castro, a liquidação do Banco Master com rombo de R$ 3,6 bilhões, a linha sucessória paralisada no STF, o presidente da Alerj barrado por Fux — tudo isso enquanto o estado deveria estar executando políticas públicas para os mais vulneráveis.
O programa "RJ Para Todos", criado em 2021 para atender a população em situação de rua e em vulnerabilidade socioeconômica, prevê a realização de estudos e pesquisas para entender as causas que levam as pessoas às ruas, além da publicação de indicadores. Até o momento, não há dados concretos divulgados sobre seus resultados.
Os restaurantes populares, como o do Centro do Rio, fecham nos fins de semana. As unidades de acolhimento são insuficientes. Os centros de assistência social, sobrecarregados. E o governo do estado, enredado em escândalos e disputas políticas, simplesmente não consegue entregar o básico.
Enquanto isso, o IBGE promete um censo para 2028
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística lançou, em abril de 2026, o primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua. O presidente do IBGE, Marcio Pochmann, anunciou que os resultados começarão a sair a partir de 2028. Ou seja: o Brasil vai esperar mais dois anos para saber exatamente quantas pessoas vivem nas ruas — e onde estão.
Para os 35.406 fluminenses que dormem ao relento hoje, 2028 é uma eternidade.
Fontes:
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