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A luta dos entregadores de aplicativos no Brasil ganha intensidade.
Enquanto as plataformas de delivery expandem seus negócios, trabalhadores que colocam suas vidas em risco nas ruas enfrentam uma realidade cada vez mais cruel: remuneração que caiu pela metade em seis anos e um projeto de lei que, segundo seus líderes, ratifica a escravização moderna do trabalho.
No epicentro dessa mobilização estão dois personagens determinados: Marcelo Bul, conhecido como Russão, presidente da Associação Movimento dos Entregadores do Rio de Janeiro (AMERJ), e Alexsandro Moizinho, coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Direitos. Ambos enfrentam o PLP 152/2025 com denúncias contundentes sobre a opacidade algorítmica e a redução drástica de ganhos.
Taxas que desaparecem: de R$ 7 para R$ 3.
A denúncia de Russão é matemática e dura.
No iFood, uma das maiores plataformas, as taxas por entrega caíram de R$ 7 para meros R$ 3. Em seis anos, desde 2020, a remuneração dos entregadores despencou, enquanto os aplicativos multiplicaram seus faturamentos e suas avaliações na bolsa de valores.
"Isso não é apenas um número. É a diferença entre pagar aluguel, alimentar a família e dormir na rua", afirma Russão em tom que não deixa margem a interpretações. Cada entrega representa um risco: acidentes, assaltos, desgaste físico intenso.
E o ganho é cada vez menor.
Os entregadores relatam que, para sobreviver, precisam trabalhar 12 ou 14 horas por dia, em condições perigosas, sem qualquer proteção legal.
Não há auxílio-doença, não há cobertura de acidentes, não há seguro. Se um entregador se acidenta trabalhando, quem arca com o custo é o Sistema Único de Saúde (SUS), financiado por todos os brasileiros, enquanto as plataformas lucram sem responsabilidade.
O algoritmo opaco: controle total das máquinas.
Russão não para na questão salarial. A transparência algorítmica é outra ferida aberta. As plataformas controlam, através de algoritmos fechados, quais entregadores recebem quais pedidos, de quanto será a remuneração e até quem é punido ou bloqueado sem explicação.
"Você trabalha para uma máquina que você não consegue entender. O algoritmo decide se você trabalha amanhã, se ganha mais ou menos, se é bloqueado. Isso é controle absoluto", denuncia o presidente da AMERJ.
Entregadores reportam serem desativados da plataforma sem direito a justificativa. Nenhuma transparência, nenhum diálogo, apenas a desconexão.
A demanda é clara: os algoritmos precisam ser abertos à inspeção pública e aos próprios trabalhadores.
Não é tecnofobia. É o direito elementar de saber por quais regras você está sendo julgado e remunerado.
Alexsandro Moizinho e a escravização moderna
Alexsandro Moizinho, que coordena o Movimento dos Trabalhadores Sem Direitos, usa palavras ainda mais contundentes. Para ele, o modelo atual de trabalho por aplicativo é uma forma contemporânea de escravização.
"Não é exagero dizer isso. O trabalhador não tem direitos, não tem proteção, não tem voz. Trabalha sob pressão constante de algoritmos opacos, ganha cada vez menos e assume todos os riscos", afirma Moizinho.
O movimento que coordena reúne entregadores, motoristas de transporte e outros trabalhadores informais que vivem à mercê das plataformas.
A estrutura é perversa: a plataforma não é empregadora, logo não investe em segurança, treinamento ou cobertura. O trabalhador arca com tudo bicicleta, moto, combustível, reparo, alimentação, seguro pessoal. E recebe cada vez menos.
PLP 152: o projeto que não atende ninguém.
O Projeto de Lei Complementar 152/2025, que trata da regulamentação de motoristas e entregadores por aplicativo, deveria ser a oportunidade de correção. Mas entregadores, movimentos sociais e até o próprio governo federal se posicionaram contra.
O projeto estabelece que esses profissionais são "trabalhadores autônomos plataformizados", perpetuando a ficção legal de que não há relação de emprego. Mais grave: o texto não estabelece transparência algorítmica e não garante um piso mínimo, justamente as duas demandas centrais dos entregadores.
O governo federal, através de comunicados oficiais, declarou-se contrário ao PLP 152. A razão é explícita: o projeto "não estabelece transparência para os entregadores nem garante um piso mínimo, o que pode, inclusive, reduzir a remuneração dos trabalhadores". Quando até o governo vê o projeto como prejudicial, a mensagem é clara.
A demanda por R$ 10: um mínimo de dignidade.
Entregadores como Israel Alcântara e Thaciano Rocha, que lideraram protestos nas ruas, exigem um piso mínimo de R$ 10 por entrega. Não é um pedido luxuoso. É a conta de quanto custa viver.
R$ 10 por entrega, com correção anual pela inflação, garante que um entregador que realize 15 entregas por dia arrecade R$ 150. Trabalhando 25 dias por mês, seria R$ 3.750, ainda abaixo do salário mínimo (que está em torno de R$ 1.412 em 2026). Mesmo assim, é uma proposta que as plataformas rechaçam sistematicamente.
A questão subjacente é de justiça distributiva: por que o algoritmo que gera bilhões para as empresas não pode garantir o mínimo de sobrevivência para quem o operacionaliza?
O reconhecimento jurídico ainda não chegou.
Há sinais de esperança vindo da Justiça. Em decisão recente, o Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo reconheceu vínculo empregatício entre entregadores e a plataforma iFood em um caso específico.
Não é uma sentença que mude tudo, mas é um precedente que questiona a legalidade da ficção autônoma.
Porém, decisões judiciais isoladas não resolvem o problema estrutural. É necessária uma lei que reconheça direitos, garanta transparência e estabeleça piso mínimo. O PLP 152 não faz nada disso.
A mobilização continua.
Entregadores continuam protestando. O Breque dos Apps, que reúne entregadores e motoristas para paralisações estratégicas, segue mobilizando. Russão e o movimento não recuam.
A AMERJ continua pressionando por uma regulamentação que de fato proteja, não que legalize a precariedade.
"Nós não queremos ser empresários. Nós queremos ser trabalhadores com direitos. Queremos um piso digno, queremos transparência no algoritmo, queremos ser tratados como gente, não como máquinas", resume Russão a luta.
A questão é se o Congresso Nacional, sob pressão de gigantes do setor de tecnologia, conseguirá transformar essa mobilização em lei. Por enquanto, o PLP 152 segue como símbolo de uma legislação que, em vez de proteger, consolida a exploração.

Por Ralph Lichotti e Robson Talber @robsontalber
Repórter Oscar Muller @oscarmulleroficial
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