São Gonçalo: Segundo maior colégio eleitoral do RJ, que trata seus cidadãos como refugiados urbanos, sem Barcas, sem Metrô e até sem Rodoviária

Trecho da Rodovia Niterói-Manilha (RJ-104) com letreiro indicativo | Crédito: Fábio Guimarães / Prefeitura de São Gonçalo

São Gonçalo: Segundo maior colégio eleitoral do RJ, que trata seus cidadãos como refugiados urbanos, sem Barcas, sem Metrô e até sem Rodoviária

A vergonha metropolitana: quase 1 milhão de pessoas, cidade maior que capitais não tem terminal rodoviário há 50 anos

Há algo profundamente perturbador quando uma cidade do tamanho de São Gonçalo — quase um milhão de almas — força seus moradores a uma peregrinação diária que mais parece um ritual de abandono.

Como diria o ditado popular, "casa de ferreiro, espeto de pau": uma metrópole cortada por três rodovias estratégicas que não consegue oferecer sequer um terminal rodoviário digno para sua população.

A realidade é crua e expõe uma ferida que sangra há décadas. Moradores como o segurança Adeilson Batista da Silva, de 47 anos, já passaram noites inteiras nas ruas de cidades vizinhas, expostos à violência e ao desamparo, simplesmente porque não existe uma estrutura básica que conecte São Gonçalo ao resto do país de forma civilizada.

"Tive que dormir na rua com a minha companheira. Arriscado. Lá em Itaboraí a quantidade de assaltos é muito grande", relata Adeilson, cuja experiência ilustra o drama cotidiano de centenas de milhares de gonçalenses.

A geografia do abandono

São Gonçalo é cortada por três artérias vitais — a RJ-104, RJ-106 e a BR-101 — que funcionam como corredores de passagem, mas nunca como portas de entrada civilizadas. A cidade cresceu colada às rodovias, numa expansão urbana que privilegiou o improviso em detrimento do planejamento.

Os dados do Departamento de Estradas de Rodagem (DER-RJ) revelam a pressão diária sobre essa malha: 32.686 veículos por dia na RJ-104 e 34.664 nos trechos da RJ-106. No meio desse fluxo intenso, embarcam e desembarcam moradores que transformaram as margens das rodovias em terminais improvisados.

O professor Paulo César Ferreira Junior, de 31 anos, desenvolveu uma "tática de sobrevivência urbana" para suas viagens. "Algumas vezes desço em algum ponto da BR para ficar mais fácil para ir para casa, ou então desço em algum ponto da RJ", explica, revelando como a ausência de infraestrutura obriga os cidadãos a se tornarem especialistas em geografia rodoviária.

O paradoxo do gigante adormecido

São Gonçalo é uma cidade de grande porte, com mais de 500 mil habitantes, mas funciona como se fosse um aglomerado urbano sem identidade própria.

A especialista explica que as primeiras rodoviárias brasileiras surgiram nos centros urbanos como símbolos de progresso e conectividade. "O posicionamento inicial das rodoviárias nos centros urbanos funcionava como um ícone. Sinalizava que havia transporte intermunicipal e servia como porta de entrada da cidade", pontua.

Em São Gonçalo, essa simbologia nunca existiu. A cidade cresceu sem esse marco civilizatório, condenando seus moradores a uma condição de invisibilidade estrutural que persiste há cinco décadas.

A evolução que nunca chegou

Daniele Lima, de 38 anos, que migrou de Petrópolis para São Gonçalo há três anos, experimentou na pele o choque de retrocesso. "Faz muita falta, porque às vezes a gente quer viajar para um lugar mais longe e precisa se deslocar para Niterói", relata, evidenciando como a ausência de infraestrutura básica afeta a qualidade de vida urbana.

A pesquisadora Queren Rocha, do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFF, identifica Alcântara como o local mais adequado para um futuro terminal. "Ali seria um ponto estratégico para um terminal, porque há linhas para várias regiões do Rio de Janeiro", afirma, sugerindo que soluções técnicas existem, mas falta vontade política.

A herança colonial que se perpetua

O historiador Rui Aniceto, da Faculdade de Formação de Professores da Uerj, oferece uma perspectiva histórica reveladora. As atuais rodovias que estruturam São Gonçalo nasceram como "antigas trilhas indígenas, apropriadas pelos colonizadores e transformadas em caminhos de escoamento de mercadorias".

"Esses caminhos são os que hoje conhecemos, como a via Porto Velho; a Francisco Portela; a Doutor March; e o caminho que ia para Maricá", explica Aniceto. A cidade, portanto, mantém uma lógica colonial de passagem, nunca de permanência ou acolhimento.

Os projetos que viraram fantasmas

Nos anos 1970 e 1980, havia projetos concretos para uma rodoviária na região central, onde hoje fica o Conjunto da Marinha. Outros planos surgiram nos anos 1980 e 1990, desta vez para Alcântara. Todos morreram na gaveta, vítimas de uma gestão pública que historicamente trata São Gonçalo como periferia, não como metrópole.

"Eles relataram que esses projetos foram discutidos considerando que São Gonçalo já era uma cidade de grande porte", lembra Aniceto sobre entrevistas com ex-prefeitos. A consciência do problema sempre existiu; a solução, nunca.

A resposta oficial que envergonha

Em nota, a Prefeitura atual afirmou que "vê como positiva a instalação de um terminal rodoviário", mas considera que há "outras iniciativas mais urgentes", citando o "ínfimo orçamento disponível". A resposta é um insulto à inteligência: como pode uma cidade de quase um milhão de habitantes ter orçamento "ínfimo" para infraestrutura básica?

A declaração oficial expõe a naturalização do abandono. São Gonçalo se acostumou a ser tratada como prima pobre da Região Metropolitana, mesmo sendo o segundo maior colégio eleitoral do estado.

O custo humano do descaso

Luciana Nemer resume o drama com precisão cirúrgica: "Além da insegurança do local, há o desconforto: não há como aguardar o ônibus em um espaço coberto. Não há vigilância. Dentro de um terminal rodoviário você tem segurança; na rua, não."

O resultado é uma população de quase um milhão de pessoas condenada a viver como nômades urbanos, expostos à violência, às intempéries e ao desamparo estrutural que deveria envergonhar qualquer gestor público minimamente civilizado.

A urgência que não pode mais esperar

São Gonçalo não é mais uma cidade em formação. É uma metrópole consolidada que exige infraestrutura compatível com seu porte. A ausência de uma rodoviária não é apenas uma questão de conveniência; é uma questão de dignidade urbana e cidadania básica.

Enquanto outras cidades de grande porte evoluem seus sistemas de transporte, São Gonçalo permanece presa a uma lógica colonial de abandono. Seus moradores merecem mais que promessas vazias e orçamentos "ínfimos". Merecem ser tratados como cidadãos de uma metrópole, não como refugiados urbanos em sua própria cidade.

A pergunta que fica é simples e devastadora: até quando uma cidade de quase um milhão de habitantes vai aceitar ser tratada como se não existisse?

Com informações Agenda do Poder

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Por Ultima Hora em 13/12/2025
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