Siro Darlan lança livro sobre adoção e escancara o preconceito que mantém crianças nos abrigos

Mais de 32 mil querem adotar, mas quase 6 mil crianças esperam: o paradoxo da adoção no Brasil

Siro Darlan lança livro sobre adoção e escancara o preconceito que mantém crianças nos abrigos

Perfil restrito dos candidatos e resistência a crianças negras, maiores de dez anos ou com deficiência explicam o abismo entre a espera e a realidade nos abrigos brasileiros

O Brasil vive uma contradição silenciosa e dolorosa. De um lado, mais de 32 mil pessoas estão habilitadas nos cadastros nacionais para adotar uma criança ou adolescente. Do outro, quase seis mil jovens aguardam nos abrigos por uma família. O número de pretendentes é quase seis vezes superior ao de crianças disponíveis — e ainda assim milhares seguem sem encontrar um lar.

O paradoxo se explica por um abismo de expectativas. A maioria dos candidatos busca crianças brancas, com até três anos de idade e sem irmãos. A realidade dos abrigos, porém, revela um perfil completamente distinto: mais de 5.630 crianças e adolescentes disponíveis são, em sua maioria, negros, maiores de dez anos ou pessoas com deficiência — perfis que ainda hoje enfrentam resistência entre os pretendentes habilitados.

Dados do Cadastro Nacional de Adoção (CNA) revelam que mais de mil crianças e adolescentes com deficiência estão na fila há anos. Reportagem especial do G1 publicada em março deste ano os classifica como "os últimos da fila", expondo o impacto da institucionalização prolongada e da falta de vínculo familiar no desenvolvimento psicológico e cerebral desses jovens.

O livro que propõe um novo olhar

É nesse cenário desafiador que o desembargador aposentado Siro Darlan lança "Nascidos do Coração: Histórias de Adoções", obra que reúne memórias, reflexões e relatos reais sobre adoção, infância e família no Brasil. O livro propõe um novo paradigma: romper preconceitos históricos e ampliar o olhar sobre vínculos familiares, pertencimento e afeto.

A obra subverte a visão tradicional da adoção como ato de caridade ou favor. Para Darlan, adotar é, antes de tudo, um ato de amor — mas também de justiça. Ao longo da narrativa, histórias reais ajudam a mostrar o impacto humano do acolhimento e como uma decisão pode transformar destinos e reescrever futuros.

Trajetória marcada pela justiça humanizada

A atuação de Siro Darlan na Vara da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro, a partir dos anos 1990, tornou seu nome referência nacional na proteção dos direitos de crianças e adolescentes. Sua carreira começou em 1982, como juiz na comarca de Silva Jardim, no interior fluminense, e consolidou-se em decisões que priorizavam o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) acima de qualquer formalismo burocrático.

"A ausência de amor ao próximo, a ganância e o preconceito destroem a sociedade", disse Darlan em entrevista ao Brasil 247, sintetizando o pensamento que guiou sua atuação por mais de três décadas no Judiciário.

O livro revisita temas que marcaram sua trajetória na magistratura: abandono, identidade, direito ao nome, cidadania e a aplicação de uma justiça verdadeiramente humanizada. Cada capítulo costura a experiência jurídica com o testemunho pessoal de quem dedicou a vida a garantir que crianças não fossem tratadas como ameaça, mas como cidadãs de direitos.

Projeto Justiça nas Comunidades: direito que vai ao encontro do cidadão

Dessa experiência na Vara da Infância e Juventude nasceu o "Justiça nas Comunidades", projeto pioneiro idealizado por Siro Darlan para ampliar o acesso a direitos básicos para populações vulneráveis. A iniciativa levava serviços judiciais e orientação jurídica diretamente a comunidades carentes, aproximando o Judiciário da realidade de milhares de famílias que, de outra forma, jamais teriam acesso à Justiça.

O projeto tornou-se modelo e inspirou políticas públicas de interiorização da justiça em diversos estados brasileiros, consolidando o entendimento de que o direito não pode ser privilégio de quem tem recursos para acessá-lo.

Literatura, cidadania e transformação social

Aos 77 anos, Siro Darlan segue expandindo sua atuação para além dos tribunais. Recentemente, tomou posse como acadêmico da Academia de Letras e Artes do Estado do Rio de Janeiro e assumiu a vice-presidência da Academia Brasileira de Letras do Cárcere, instituição que promove a literatura como ferramenta de ressocialização de pessoas privadas de liberdade.

A dupla inserção no universo literário reflete sua crença de que a transformação social passa também pela cultura, pela educação e pela palavra escrita — valores que "Nascidos do Coração" carrega em cada página.

Serviço

O lançamento de "Nascidos do Coração: Histórias de Adoções" ocorre nesta segunda-feira, 19 de maio, às 16h, no Auditório Alyrio Cavalieri, localizado no Juizado da Infância e da Juventude, na Praça Onze, 403, Centro do Rio de Janeiro. O livro é publicado pela Kotter Editorial e está disponível em pré-venda pelo site da editora.

Conclusão

A adoção no Brasil não padece de falta de candidatos — padece de falta de afeto disponível para quem mais precisa. Enquanto o perfil idealizado continuar sendo uma criança branca de colo, mais de cinco mil jovens seguirão invisíveis nos abrigos, aguardando que alguém enxergue neles não um peso, mas uma chance. O livro de Siro Darlan chega como um convite à reflexão — e, sobretudo, à ação. Afinal, como o próprio magistrado ensina, toda criança tem o direito de nascer do afeto.

#SiroDarlan #NascidosDoCoração #AdoçãoNoBrasil #InfânciaEJuventude #DireitosDaCriança #JustiçaHumanizada #AdoçãoTardia #ECA #KotterEditorial #RioDeJaneiro

Por Ultima Hora em 18/05/2026
Aguarde..