Assine nossa newsletter e fique por dentro de tudo que rola na sua região.
Queridos leitores e leitoras, se vocês estavam procurando uma boa notícia econômica, podem parar. Ela não veio. O que veio, na verdade, foi mais uma demonstração de criatividade fiscal — aquela criatividade típica dos governos quando precisam fechar as contas sem desagradar os de cima. A solução? Simples, eficaz e dolorosamente previsível: aumentar o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras).
Sim, o velho e confiável IOF — esse imposto discreto, elegante, que aparece escondido nas letras miúdas dos contratos de empréstimo, no câmbio, no seguro, no rotativo do cartão e em quase tudo aquilo que você só usa quando já não tem outra saída. Pois é justamente aí que o governo decidiu passar o chapéu.
O aumento do IOF pesa, sobretudo, em quem precisa recorrer ao crédito — e sejamos sinceros, crédito no Brasil não é exatamente sinônimo de investimento produtivo. É, mais frequentemente, o respiro de quem tenta fechar o mês, pagar uma conta atrasada, trocar a geladeira ou, simplesmente, não ser engolido pelos juros do cartão.
A justificativa oficial, claro, vem embrulhada em papel de presente: equilíbrio fiscal, responsabilidade, manutenção dos programas sociais. Tudo muito bonito no PowerPoint do ministro da Fazenda. Na prática, é aquele velho modelo de arrecadação conhecido dos brasileiros: quando falta dinheiro no caixa, olha-se para baixo — nunca para cima.
E aqui não há mistério. Quem mais sente o peso do aumento do IOF é aquela velha conhecida dos manuais de economia e das pesquisas eleitorais: a classe média. Essa mesma que, já pressionada pela inflação, pelos juros altos e pela eterna gangorra econômica brasileira, começa a olhar torto para Brasília — e não sem motivo.
Porque sejamos francos: quem precisa recorrer a empréstimos pessoais, financiamento de carro, crédito consignado, parcelamento de cartão ou câmbio para viajar não é exatamente o rentista da Faria Lima, nem quem sobrevive com o Bolsa Família. É justamente aquele grupo que paga escola particular porque desconfia da pública, que mantém um plano de saúde caríssimo, que financia seu próprio SUS paralelo — e que agora vê esse modelo de sobrevivência ser taxado mais uma vez.
Essa classe média — que foi decisiva para garantir a vitória de Lula no segundo turno de 2022, mais por rejeição à barbárie bolsonarista do que por encantamento — não é um eleitorado paciente. É pragmática, pouco ideológica e, sobretudo, vota olhando para uma única variável: o próprio bolso. E, convenhamos, esse bolso anda mais vazio do que nunca.
O governo, claro, tem seus motivos técnicos. A arrecadação ficou aquém, os gastos subiram, o Congresso cobra sua fatura em emendas, e a responsabilidade fiscal virou mantra desde que o mercado descobriu que também sabe fazer barulho. Mas, convenhamos, é sempre curioso como a criatividade fiscal nunca mira os andares mais altos da economia. Cortar gastos? Taxar fundos de investimento? Offshores? Grandes fortunas? Melhor deixar para depois. O caminho mais curto, mais rápido e, infelizmente, mais cruel é mexer no IOF — aquele imposto que pouca gente entende, mas todo mundo paga.
Enquanto isso, quem vive de dividendos, juros e aplicações sofisticadas segue blindado. Afinal, taxar os super-ricos, mexer com offshores, acabar com certos privilégios do setor público daria muito trabalho. Sem contar que são esses os amigos que financiam campanhas, articulam no Congresso e tomam aquele cafezinho gourmet no Salão Azul de Brasília.
O pano de fundo, queridos leitores, é ainda mais interessante. O governo, que já começa a sangrar nas pesquisas — espremido entre a inflação dos alimentos e as exigências insaciáveis do Centrão —, resolve testar até onde vai a paciência da sua própria base. A fórmula é conhecida: tenta agradar o mercado, entrega mais espaço ao Centrão e repassa a conta para quem não tem lobby nem bancada.
O risco político é evidente. Porque, se tem algo que desgasta qualquer governo — seja de direita, de centro ou de esquerda —, é quando o discurso de proteção social se choca com a prática de apertar quem carrega sozinho boa parte dos custos do país: a classe média, que financia, simultaneamente, o setor privado e o Estado. O mais curioso — ou talvez o mais trágico — é perceber que medidas assim acabam empurrando setores populares e da classe média para os braços de quem promete soluções mágicas. A história mostra — e não cansa de repetir — que é nesses terrenos férteis de frustração econômica que germinam os aventureiros, os salvadores da pátria, os gestores milagrosos e os outsiders que juram “acabar com tudo isso que está aí” — geralmente antes de se juntarem ao que está aí.
Portanto, anotem: da próxima vez que receberem aquela mensagem do banco avisando que o limite do cheque especial foi atualizado, saibam que o governo também atualizou sua parte.
No fim das contas, seguimos praticando aquele velho esporte nacional: financiar o Estado, os juros, o Centrão… e, com uma ponta de ironia, até um governo que jurou fazer diferente. Só que, cá entre nós, diferente mesmo seria se a conta, pela primeira vez, não sobrasse para quem vive no meio da corda — sem o luxo dos de cima e sem os amparos dos de baixo.
Bom domingo, com um friozinho aconchegante.
Filinto Branco – colunista político
Nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar!