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O ministro Fernando Haddad, sempre muito educado, lançou mais um pacote de medidas econômicas. Dessa vez, o alvo — veja só, que ousadia — são os mais ricos. Não todos, claro. Apenas aqueles que, depois de pagar um cafezinho com cartão black, ainda conseguem aplicar milhões em fundos de aplicação , criptoativos e outras estruturas que fariam qualquer contador honesto chorar de inveja.
Confesso, queridos leitores e leitoras, que tenho sido duro com o governo Lula. Não por birra — até porque minha cota de implicância já foi toda gasta com o último inquilino do Planalto — mas porque às vezes o governo parece um aluno esforçado que sabe a resposta certa, mas morre de medo de levantar a mão. E, convenhamos, a hesitação custa caro. Mas dessa vez, justiça seja feita: Haddad acertou o alvo. Ainda que tenha usado estilingue contra blindados.
A proposta é simples — e por isso mesmo quase subversiva. Cobrar imposto sobre lucros e dividendos de fundos do mercado financeiro, além de taxar criptoativos, especialmente os domiciliados no exterior. Nada de taxar grandes fortunas, claro — isso no Brasil ainda é considerado crime de lesa-pátria. Mas mesmo a tímida tentativa de tocar no rendimento do andar de cima já fez o mercado ranger os dentes e o Congresso fechar a cara.
Porque o Congresso, como se sabe, é aquele sujeito que vive cobrando do Executivo corte de despesas — desde que isso não mexa em suas próprias verbas. Falar em cortar gasto público virou o novo esporte da elite política, desde que esse gasto não se chame “emenda parlamentar”. Aí vira cláusula pétrea da Constituição informal de Brasília.
Na prática, o recado do Congresso é claro: “Corte tudo, menos o que é meu.” O ministro da Fazenda pode suar para equilibrar as contas, mas que nem pense em tocar nos bilhões destinados a irrigar redutos eleitorais com ambulâncias fantasmas e obras que misteriosamente só aparecem em época de eleição. O discurso é de austeridade; a prática, de gula.
E não pense o leitor que estou exagerando. Recentemente, parlamentares que bradam contra o “inchaço do Estado” reagiram com fúria quando o governo ensaiou limitar o crescimento das emendas. Faltou pouco para chamarem Haddad de comunista — ou pior, de alguém que faz conta.
O mais irônico é que, diante do pacote, os mesmos críticos do governo correm para as câmeras e redes sociais com uma ladainha conhecida: “o Executivo deveria cortar na própria carne”. Ora, o Executivo está com a carne moída desde 2016, enquanto o Legislativo segue com picanha na brasa e farofa de bilhões. Quem vê acha que Brasília é governada por monges franciscanos — até abrir o orçamento.
Haddad tenta, com sua serenidade de professor universitário, mostrar que o sistema tributário brasileiro é indecente: cobra mais de quem tem menos e quase nada de quem lucra no andar de cima. E que taxar o rendimento do capital é o mínimo de civilidade fiscal. Mas em Brasília, civilidade é artigo de luxo — e tributar quem realmente pode pagar é sempre tratado como afronta.
Resta saber se a sociedade vai entender o que está em jogo. Porque taxar lucros e dividendos não é socialismo: é apenas não ser otário. Mas no Brasil, justiça tributária ainda é tratada como se fosse uma heresia fiscal — dessas que fazem banqueiro suar frio e consultor tributarista ter pesadelos com igualdade.
É isso, queridos leitores. Mais uma semana, mais um round nessa luta de sempre: tentar fazer com que quem tem muito pague um pouco mais — e não só quem já está no limite. Enquanto isso, seguimos de olho, com a ironia afiada e a esperança (teimosa) de que a mudança um dia venha. Até a próxima semana, com mais análise e sarcasmo.
Até lá!
Filinto Branco – colunista político
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