Teatro do Absurdo

Por Lívia Louvel

Teatro do Absurdo

É difícil não enxergar uma peça mal ensaiada no anúncio de tarifas de 50% sobre os produtos brasileiros, feito por Donald Trump esta semana. Em um mundo onde cadeias produtivas são interdependentes e decisões comerciais reverberam em múltiplas camadas da economia global, a atitude soa mais como um ato impulsivo — um gesto “a quente” — do que como uma estratégia ponderada.

Na superfície, o pretexto é político. O julgamento de Jair Bolsonaro se tornou, para Trump, o estopim de uma reação que mira mais do que Brasília. Por trás da retórica, há também um recado dirigido às economias emergentes: os Estados Unidos não tolerarão regulações sobre liberdade de expressão ou tributos digitais que atinjam as grandes plataformas tecnológicas americanas.

No Brasil, gigantes como Google, Meta, Amazon e Twitter já se veem em um ambiente regulatório turbulento. Propostas de taxação de serviços digitais, exigências de maior transparência algorítmica e decisões do Supremo Tribunal Federal envolvendo bloqueios temporários — como no caso do Telegram e, mais recentemente, do X (antigo Twitter) — criaram um cenário de atrito constante entre o poder público e as Big Techs.

Mas o pano de fundo é mais amplo: a aproximação do Brasil com os BRICS, as conversas sobre uma moeda única para transações comerciais no bloco e o discurso em favor de uma ordem multipolar têm incomodado Washington. Para a Casa Branca, esse movimento, somado às regulações domésticas, soa como uma ameaça ao domínio americano no espaço digital e financeiro. Ao impor tarifas desse porte, o governo Trump sinaliza que qualquer tentativa de limitar o alcance de suas plataformas ou de reduzir a influência do dólar será enfrentada com força — mesmo que, para isso, se infle o preço do café nos supermercados americanos ou se comprometam bilhões de dólares em comércio bilateral.

O impacto econômico da medida, se levada adiante sem ajustes, deve ser moderado no plano macro, mas tende a se desdobrar em camadas de efeitos assimétricos.

A primeira é direta: siderurgia, agronegócio e aeronáutica estão entre os setores mais expostos. Em 2024, o Brasil exportou 9,6 milhões de toneladas de aço, gerando US$ 4,1 bilhões em receitas — dos quais 60% tiveram como destino os Estados Unidos. No caso do alumínio, as exportações totais somaram US$ 1,5 bilhão, sendo US$ 267 milhões direcionados ao mercado americano. A essas cifras, somam-se US$ 3,9 bilhões em café e US$ 850 milhões em suco de laranja, compondo um quadro de súbita perda de competitividade.

Para grandes conglomerados exportadores, ainda há alternativas — redirecionar parte da produção para a China ou a União Europeia. Já para o pequeno produtor, sem margens para manobra e dependente de cadeias locais, o choque é imediato. Nessas economias regionais, uma retração nas exportações rapidamente se traduz em menos empregos e menor circulação de renda.

Como consequência direta desse cenário, o anúncio das tarifas opera como gatilho de uma reação em cadeia: o Goldman Sachs já projeta que, se mantidas por um ano, as medidas podem retirar entre 0,3% e 0,4% do PIB brasileiro - uma retração relativamente contida em termos macroeconômicos, mas devastadora para municípios exportadores. Vale destacar que essa projeção não considera uma possível retaliação do Brasil, o que poderia ampliar as consequências para ambos os lados.

A segunda camada, menos visível, é a corrosão da confiança. Investidores e empresas, confrontados com medidas abruptas e imprevisíveis, tendem a paralisar decisões estratégicas. Planos de expansão são suspensos, cadeias de fornecimento são revistas e o custo de capital se eleva, criando um efeito dominó que pode se estender por anos.

A volatilidade cambial — o real desvalorizou 2% logo após o anúncio — é apenas o primeiro sintoma de um ambiente de negócios menos previsível e mais hostil ao investimento produtivo. Esse cenário pressiona o Banco Central brasileiro a manter taxas de juros elevadas por mais tempo para conter pressões inflacionárias importadas, além de encarecer o serviço da dívida pública. O resultado é um ciclo que restringe o espaço fiscal e reduz a capacidade do Estado de reagir com políticas anticíclicas.

Além disso, cresce o risco de o Brasil responder com medidas próprias, de tarifas compensatórias à revisão de acordos comerciais, ampliando a incerteza para ambos os lados. Esse tipo de escalada, comum em disputas comerciais, tende a desorganizar cadeias globais, alimentar pressões inflacionárias e prolongar o período de volatilidade.

A terceira camada, paradoxal, recai sobre o consumidor americano. Ao encarecer insumos brasileiros, as tarifas pressionam cadeias produtivas nos Estados Unidos. O café e o suco de laranja já registraram aumentos nas bolsas de commodities.

Cadeias industriais dependentes do aço brasileiro, como a automotiva e a construção civil, enfrentarão custos crescentes. Um estudo recente da Yale Budget Lab estima que, considerando apenas as novas tarifas, o impacto poderá adicionar cerca de US$?2.300 aos gastos anuais de uma família americana média, além de um incremento de 1,7% no nível geral de preços. Em cenários que incluem todo o conjunto de medidas tarifárias adotadas em 2025, o impacto pode chegar a US$?3.800 por família. Uma ironia para uma narrativa política que promete proteger empregos e reduzir custos internos.

Mas é no método da decisão que o teatro do absurdo se revela com mais clareza. Tarifas de tal magnitude, com potencial de desorganizar cadeias globais e gerar atritos diplomáticos, exigiriam, no mínimo, estudos de impacto, cenários alternativos e consultas a stakeholders.

Nada disso parece ter precedido o anúncio, feito em tom performático e sem aviso prévio a aliados ou ao mercado. A impressão é de uma medida improvisada, mais alinhada ao calor do momento e à lógica eleitoral do “América Primeiro” do que a um planejamento econômico sério.

No Brasil, a consequência pode ser uma maior insegurança para o pequeno produtor e um câmbio mais volátil, com reflexos indiretos no preço de alimentos e insumos importados.

Nos Estados Unidos, o custo de preservar uma narrativa de força pode ser sentido nas gôndolas e nas concessionárias. Para as Big Techs, o episódio expõe o dilema de operar em um mundo cada vez mais fragmentado, onde a diplomacia digital se tornou um campo de batalha e cada país busca impor suas próprias regras.

Em um cenário global já tensionado por disputas comerciais, decisões impulsivas amplificam incertezas e corroem a arquitetura de cooperação construída ao longo de décadas. Tarifas punitivas não criam prosperidade; apenas deslocam custos e alimentam ciclos de revanchismo.

É legítimo esperar que medidas dessa magnitude sejam fruto de planejamento criterioso, e não de uma reação visceral ao calor do momento. Caso contrário, o teatro do absurdo seguirá em cartaz — e nós, espectadores, caberá a nós pagar o ingresso mais caro: o da incerteza.

Lívia Louvel é economista e escreve às quintas-feiras. Na coluna Perspectiva, traduz os movimentos da economia em análises que geram valor e orientam decisões.

 

Por Ultima Hora em 10/07/2025
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