Teresa Leitão herda o pior momento da relação entre Lula e Alcolumbre

Senadora petista herda o desafio de destravar a PEC que reduz a jornada de trabalho enquanto o presidente do Senado resiste à pressão do Planalto; pesquisa Nexus/BTG mostra empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro no segundo turno

Teresa Leitão herda o pior momento da relação entre Lula e Alcolumbre

Missão árdua

A senadora Teresa Leitão (PT-PE) tornou-se, nesta segunda-feira (29 de junho), a nova líder do governo Lula no Senado, substituindo Jacques Wagner (PT-BA). A escolha, oficializada na última quarta-feira (24), coloca a primeira mulher a ocupar o cargo em meio a uma das mais delicadas crises institucionais entre o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional. O principal termômetro dessa relação tensa é o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que resiste abertamente às pautas prioritárias do governo federal.

A primeira agenda oficial de Teresa Leitão será uma reunião extraoficial com o presidente Lula ainda na tarde desta segunda-feira. O encontro, segundo fontes do Planalto, servirá para alinhar a estratégia de aproximação com Alcolumbre — uma relação que se deteriorou drasticamente desde o final de 2025. O cenário se agravou com a rejeição, pelo presidente do Senado, do nome do advogado-geral da União, Jorge Messias, para a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF), um revés político que ainda ecoa nos corredores de Brasília.

O nó da PEC 6x1

O ponto central da discórdia entre os poderes é a tramitação da PEC 221/19, que propõe a redução da jornada de trabalho no país e a extinção da escala 6x1. A proposta foi aprovada por ampla maioria na Câmara dos Deputados no dia 27 de maio, registrando 461 votos favoráveis e apenas 19 contrários no segundo turno. Agora, a matéria aguarda a apreciação dos senadores, onde o clima de consenso verificado na Câmara parece distante de se repetir sob a batuta da atual presidência da Casa.

O governo pressiona para que a matéria seja votada antes do recesso parlamentar, que começa em pouco mais de 20 dias. Do outro lado, Davi Alcolumbre já deixou claro a aliados e defensores da proposta que "a casa não será carimbadora" das decisões tomadas pelos deputados. O recado é direto e sinaliza que o Senado pretende impor seu próprio ritmo à pauta, possivelmente postergando a votação para depois do recesso e das eleições municipais, o que frustra os planos imediatos do Palácio do Planalto.

Os cotados para a relatoria

Nos bastidores do Senado, crescem os rumores sobre quem será escolhido para a relatoria da PEC 221/19. O nome do senador Omar Aziz (PSD-AM) ganhou força nos últimos dias devido ao seu perfil articulador, mas Rodrigo Pacheco (PSB-MG) também aparece como uma alternativa viável, embora ainda resista em aceitar o encargo. A definição do relator será um dos primeiros testes de fogo para a nova líder Teresa Leitão, que precisará costurar um acordo em meio a interesses profundamente divergentes entre a base governista e a oposição.

Empate técnico na sucessão

Enquanto o tabuleiro político se movimenta no Congresso, a pesquisa Nexus/BTG divulgada nesta segunda-feira (29) mostra um cenário eleitoral extremamente acirrado para a sucessão presidencial. Em uma simulação de segundo turno, o presidente Lula aparece com 47% das intenções de voto contra 44% do senador Flávio Bolsonaro (PL). O resultado configura um empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais, após o levantamento ouvir 2.009 eleitores entre os dias 26 e 28 de junho.

No cenário de primeiro turno, Lula lidera com 42%, seguido por Flávio Bolsonaro com 34%. O levantamento também revela dados preocupantes para ambos os lados no quesito rejeição: o senador fluminense chega a 51%, enquanto o atual presidente registra 49%. Os números indicam uma eleição profundamente polarizada, mas com o atual mandatário numericamente à frente, o que mantém a pressão sobre o governo para entregar resultados econômicos rápidos e eficientes.

Fogo amigo no bolsonarismo

Se o governo enfrenta resistência no Senado, Flávio Bolsonaro lida com uma crise interna que ameaça a coesão de sua base. A relação com a madrasta, Michelle Bolsonaro, tornou-se um ponto de alta tensão na pré-campanha, com divergências públicas sobre os rumos da oposição. Nos bastidores, aliados do senador tentam conter o desgaste público entre os dois, que colocou em dúvida a solidez da candidatura. A pré-campanha ainda nem começou oficialmente, e o primeiro racha já expõe fragilidades na principal chapa de oposição ao Planalto.

Desenrola para quem paga em dia

Ainda nesta segunda-feira, o presidente Lula lançou, no Palácio do Planalto, o Desenrola Adimplentes. Esta nova etapa do programa de renegociação de dívidas é voltada exclusivamente a consumidores que mantêm seus pagamentos em dia, mas buscam melhores condições de crédito. O critério principal para adesão é ter quitado ao menos quatro parcelas de dívidas de até R$ 15 mil. A medida visa ampliar o acesso a crédito em condições mais favoráveis e evitar que bons pagadores migrem para o endividamento crônico.

O programa foi desenhado pela equipe econômica e deve beneficiar especialmente trabalhadores informais, segundo o secretário de Reformas Econômicas do Ministério da Fazenda, Regis Dudena. Com essa iniciativa, o governo busca criar uma agenda positiva que dialogue diretamente com a classe média e os trabalhadores de baixa renda, tentando reverter os índices de rejeição apontados pelas pesquisas recentes. A expectativa é que o programa injete fôlego no consumo interno ainda no segundo semestre de 2026.

Perfil: Teresa Leitão

Maria Teresa Leitão de Melo, conhecida como Teresa Leitão, nasceu em Recife, em 7 de outubro de 1951. Pedagoga formada pela Universidade Católica de Pernambuco, iniciou sua trajetória profissional como professora da rede pública estadual em 1975. Sua carreira política é profundamente alicerçada na militância sindical, tendo sido dirigente do Sintepe (Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco) e da CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação).

Filiada ao PT desde a década de 1980, exerceu cinco mandatos consecutivos como deputada estadual (2003 a 2023), com atuação destacada na defesa da educação pública, direitos das mulheres e direitos humanos. Em 2022, tornou-se a primeira mulher eleita senadora por Pernambuco, com mais de 2 milhões de votos. No Senado, consolidou-se como uma voz influente na Comissão de Educação. Em 2026, atingiu um novo marco histórico ao ser nomeada a primeira mulher líder do governo no Senado Federal, sendo reconhecida por seus pares pela alta capacidade de diálogo e articulação política.

Por Ultima Hora em 29/06/2026
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