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Por: Alvaro Maciel
No vigor da estreante de Niterói um manifesto contra o silenciamento: saiba como a escola transformou a Sapucaí em um palco de resistência e homenagem poética.
Por: Alvaro Maciel
O Carnaval de 2026 no Rio de Janeiro consolidou-se como um marco de resistência cultural e um poderoso instrumento de revisão histórica, com várias agremiações do Grupo Especial e Série Ouro colocando a negritude, a ancestralidade afro-indígena e o protagonismo feminino negro no centro dos desfiles. Esses enredos funcionaram como verdadeiras aulas a céu aberto, reescrevendo narrativas oficiais e valorizando biografias de intelectuais, líderes religiosos e resistência popular.
A Festa de Momo abre espaço para transgressão de valores, inversão de papeis, desmistificações, provocações e reinvenção do imaginário popular. Durante a festa do Carnaval, a rigidez das regras do cotidiano social é temporariamente suspensa para permitir a vivência da ampla liberdade no espaço público. Essa permissão, então, passa a ser um direito.
O Carnaval carioca, com sua diversidade de linguagens e espaços, passou a simbolizar o território onde o Brasil se encontra com suas verdades mais profundas e muitas vezes relegadas ao esquecimento. No entanto, o que a estreante de Niterói apresentou na Marquês de Sapucaí transcendeu a categoria de um simples desfile. O que vimos, em sua essência, foi um manifesto estético e político em favor da liberdade de expressão, reafirmando o samba como a voz de um povo que se recusa a ser silenciado.
O enredo da Acadêmicos de Niterói apresentado no Carnaval 2026, "Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil", foi desenvolvido pelo carnavalesco Tiago Martins e pelo enredista Igor Ricardo e conta a trajetória de vida e a ascensão política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O Samba-Enredo tem a autoria de: Teresa Cristina, André Diniz, Paulo Cesar Feital, Fred Camacho, Junior Fionda, Arlindinho Cruz, Lequinho, Thiago Oliveira e Tem-Tem Jr. O intérprete foi Emerson Dias. Como compositor eu não poderia deixar de parabenizar essa galera inspiradíssima pela a autoria de um samba enredo tão lindo, que considero uma obra prima.
A coragem da agremiação manifestou-se, primeiramente, nos bastidores. Ao garantir autonomia total aos seus artistas, a direção permitiu o florescimento de uma liberdade criativa rara. Sem as amarras do conservadorismo visual ou temático, a estética apresentada foi autêntica, crua e pulsante. Essa "liberdade de criar" traduziu-se em uma plástica que não apenas decorava a avenida, mas narrava uma história de resistência à censura e ao apagamento cultural.
Um dos pontos mais sensíveis e potentes do desfile foi a intersecção entre a liberdade política e a liberdade de existência da mulher brasileira. Ao trazer para o centro do enredo a figura de Dona Lindu, a escola personificou a luta de milhões de mulheres que, muitas vezes em voos solitários, enfrentam a estrutura social para criar seus filhos com dignidade. Ela como uma heroína do cotidiano, lembrando que a liberdade começa no direito de ter voz dentro da própria história e na luta por um futuro para os seus, evidentemente, jamais poderia imaginar que naquele momento sua atitude mudaria não só a realidade de seus filhos, mas a de milhões de brasileiras e brasileiros.
Essa conexão visceral entre a realidade brasileira, com suas chagas sociais, e o brilho gigantesco da Avenida, encontrou eco imediato nas arquibancadas. O público não foi apenas espectador: totalmente seduzido, foi cúmplice. O samba-enredo, entoado em uníssono, como um hino, serviu como uma validação popular de que a mensagem da escola era necessária e urgente. No samba, quando a plateia canta com tal vigor, ela está, na verdade, assinando embaixo do manifesto proposto pela agremiação e seus poetas.
Os olhos abertos da Justiça e vendados da mídia corporativa não entenderam “o enredo deste samba”. A escola de Niterói posicionou-se como um verdadeiro bastião contra o silenciamento. Em tempos onde o diálogo é frequentemente testado e de crise discursiva, transformar a avenida no palco da diversidade e da resistência é um ato de bravura. Uma “loucura” daquelas que bagunçam o coreto do real. O desfile provou que o Carnaval continua sendo a maior e mais legítima expressão de criatividade popular do país, um espaço sagrado onde a liberdade não é apenas um conceito, mas uma prática marcante, vivida em cada passo e cada batida de tambor.
Ao final do desfile, ficou o recado: a liberdade de expressão é o oxigênio da democracia e a alma da folia. Nossa estreante saiu de Niterói determinada e, com a garra de sua comunidade, chegou para mostrar que é uma das guardiãs desse legado libertário que o Carnaval oferece. A audácia da escola de provocar a própria liberdade carnavalesca para expor um tema polarizador, demonstra que o Carnaval, embora plural, não está imune às tensões do ambiente político.
A escola, ao optar por um enredo "progressista" de impacto direto, assumiu o risco de sofrer as consequências tanto na esfera judicial/política quanto na apuração das notas, dividindo opiniões entre a arte política e o entretenimento técnico. Ficam em aberto algumas perguntas: vale à pena correr tanto risco por conta de enredo polêmico? A projeção positiva que a escola obteve nesse período lhe trará ganhos futuros efetivos? A agremiação vai manter essa postura de Bastião da Liberdade para os próximos desfiles? Afinal, não é esse espírito aventureiro e desafiador que faz do Carnaval do Rio uma das maiores festas do Planeta?
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