Washington chamou o PCC de terrorista – e o Brasil se viu no centro de uma guerra política e econômica

Washington chamou o PCC de terrorista – e o Brasil se viu no centro de uma guerra política e econômica

A classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas globais pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, anunciada no último mês, não foi apenas uma decisão de política externa. No Brasil, ela se transformou em um campo de batalha entre o governo federal, a oposição bolsonarista e o setor produtivo, com desdobramentos que tocam a soberania nacional, a economia real e a disputa eleitoral de 2026.

O nó entre Flávio Bolsonaro e Trump

Senador pela oposição, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) articulou nos bastidores uma aproximação direta com aliados de Donald Trump para que a classificação fosse anunciada antes das eleições brasileiras. Em conversas gravadas e reveladas pela imprensa, Flávio teria dito a interlocutores que a medida "isola o governo Lula e fortalece a narrativa de que o PT é conivente com o crime organizado". A estratégia, no entanto, tem gerado reações dentro do próprio Senado. Parlamentares da base governista acusam o senador de usar uma decisão de soberania estrangeira para alavancar a candidatura do pai – e a própria reeleição – num movimento que classificam como "interferência inaceitável".

A jogada lembra o tarifaço de Eduardo Bolsonaro em 2025, quando o então deputado federal propôs sobretaxas a produtos americanos como resposta a críticas de Trump ao governo brasileiro. Agora, o irmão mais velho inverte o sinal: em vez de retaliar, Flávio buscou alinhamento.

Soberania em xeque

A classificação do PCC e do CV como terroristas globais não é uma simples mudança de nomenclatura. Ela impõe sanções financeiras automáticas a qualquer pessoa ou empresa que mantenha relações comerciais ou financeiras com as facções – e abre a possibilidade de os EUA realizarem operações unilaterais em solo brasileiro, sob o argumento de combate ao terrorismo. O governo brasileiro, por meio do Ministério da Justiça, já emitiu nota técnica contestando a decisão, argumentando que o crime organizado interno deve ser enfrentado com base na legislação nacional e em cooperação bilateral, não por decreto estrangeiro.

O mundo corporativo, porém, não esperou a definição jurídica. Bancos e corretoras já começaram a bloquear contas de empresas suspeitas de vínculo com o PCC, em especial no setor de combustíveis e logística, onde a facção tem forte atuação. O receio é que a classificação terrorista atinja não apenas os criminosos, mas também empregos e investimentos legítimos.

O efeito colateral na economia

O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil no primeiro trimestre de 2026 registrou crescimento de 0,3% em relação ao trimestre anterior, bem abaixo das projeções do mercado, que esperavam 0,6%. Economistas do Banco Central já apontam a incerteza gerada pela classificação terrorista como um dos fatores que frearam investimentos externos. "Empresas americanas e europeias estão revendo contratos com parceiros brasileiros por medo de contaminação indireta com as facções", afirmou um analista do Itaú BBA. O setor de logística e transportes, fortemente presente nas regiões Norte e Nordeste, pode ser o mais afetado.

A dança das cadeiras no Rio

No cenário político fluminense, a classificação terrorista já provocou a primeira baixa. O governador Claudio Castro (PL), que vinha sendo cotado como candidato ao Senado na chapa de Bolsonaro, desistiu da disputa na última quarta-feira. Em nota lacônica, alegou "motivos pessoais e de reavaliação de projetos". Nos bastidores do Palácio Guanabara, a versão é outra: Castro não queria ter seu nome associado a uma decisão que poderia gerar sanções a empresas que atuam no estado, especialmente no setor de transportes e energia, e preferiu se resguardar. A vaga agora é disputada entre o ex-ministro da Justiça Anderson Torres e a deputada federal Dani Cunha (União-RJ).

 A Operação Carbono Oculto e o PCC na Faria Lima

Enquanto o debate político se acirra, a Polícia Federal avança com a Operação Carbono Oculto, que investiga a lavagem de dinheiro do PCC por meio de créditos de carbono e empresas de consultoria ambiental. As investigações apontam que pelo menos três escritórios na Faria Lima, o coração financeiro de São Paulo, mantinham contratos de fachada com lideranças da facção. Até o momento, dois executivos foram presos e uma corretora foi fechada.

A operação jogou luz sobre um ponto incômodo: o crime organizado não está apenas nas periferias e nos presídios. Ele fincou raízes no mercado financeiro, e a classificação terrorista americana, ainda que contestada, pode ser a ferramenta que o Brasil não teve para cortar esses vínculos.

 O acordo de Celina Leão e o Banco de Brasília

No Distrito Federal, a governadora Celina Leão (PP) negociou um acordo com o Banco do Brasil e com a Caixa Econômica Federal para injetar R$ 4,7 bilhões no Banco de Brasília (BRB), que enfrenta rombo em suas contas devido a operações de crédito mal avaliadas com empresas do setor de transporte e de construção civil. O resgate foi aprovado em regime de urgência na Câmara Legislativa, mas a oposição denuncia que parte dos recursos pode parar em empresas investigadas na Operação Carbono Oculto. Celina nega e afirma que o acordo é "técnico e necessário para evitar uma crise bancária local".

Parlamentares em evidência

No Congresso, três nomes têm se destacado no debate sobre a classificação terrorista e seus impactos. A deputada Adriana Ventura (Novo-SP) protocolou um projeto de lei que obriga o governo brasileiro a adotar sanções equivalentes às americanas, sob o argumento de que "não podemos tratar criminosos como grupos terroristas apenas quando convém aos Estados Unidos". Já o deputado Alex Manente (Cidadania-SP) apresentou requerimento para convocar Flávio Bolsonaro a depor na Comissão de Relações Exteriores, sob suspeita de tráfico de influência. O senador Efraim Filho (União-PB), por sua vez, articula um acordo para que a matéria seja debatida em audiência pública conjunta das comissões de Segurança Pública e de Relações Exteriores, tentando blindar o Senado de pressões externas.

O ranking de influência dos parlamentares, divulgado nesta semana pelo site Congresso em Foco, mostra Adriana Ventura em 1º lugar, seguida por Alex Manente e Efraim Filho, refletindo a centralidade do tema na agenda legislativa.

### O que esperar

O jogo está longe do fim. A classificação terrorista americana pode ser um trunfo ou uma armadilha para a oposição bolsonarista. Enquanto Flávio Bolsonaro celebra a medida como "vitória contra o crime", o governo federal aciona a diplomacia para reverter a decisão em foros multilaterais. No meio do caminho, a economia real já sente o calafrio. E o eleitor, em outubro, terá que decidir em quem confiar para enfrentar uma crise que mistura crime, dinheiro e soberania como nunca se viu no Brasil.

 Fontes

*Nota oficial do Departamento de Estado dos EUA sobre classificação de organizações criminosas (30/05/2026)

*Nota técnica do Ministério da Justiça e Segurança Pública do Brasil (31/05/2026)

*Relatório de investimentos do Itaú BBA para o segundo trimestre de 2026

*Dados do PIB brasileiro do primeiro trimestre de 2026 – IBGE

*Gravações obtidas pela coluna Valéria Costa – Vies Político

*Documentos da Operação Carbono Oculto – Polícia Federal (disponíveis no sistema e-Cac)

*Nota oficial da Governadora Celina Leão sobre acordo com BRB (30/05/2026)

*Ranking de influência legislativa – Congresso em Foco (maio/2026)

Por Ultima Hora em 01/06/2026
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