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Tenho minhas restrições — e não são poucas — aos excessos do Supremo Tribunal Federal. Em vários momentos, o STF ultrapassou a linha entre julgar e governar, entre garantir direitos e protagonizar disputas políticas. Mas entre críticas legítimas e uma sanção internacional contra um de seus ministros, há um abismo. E é nesse abismo que Donald Trump decidiu mergulhar — com gosto.
No mesmo dia em que anunciou a punição a Alexandre de Moraes, ou melhor, ao nosso Xandão, o governo Trump retirou discretamente cerca de 700 produtos brasileiros da lista do tarifaço. Um gesto tão calculado quanto simbólico. Com uma mão, afaga o agronegócio; com a outra, cutuca o STF. No mundo de Trump, diplomacia é performance — e sanção, recado eleitoral.
A justificativa para punir Alexandre de Moraes é tão frágil quanto inquietante. Invocaram a Lei Magnitsky, criada para punir oligarcas russos e torturadores profissionais, para enquadrar um ministro que combateu uma tentativa de golpe institucional no Brasil. O problema não é jurídico, é ideológico: Xandão virou símbolo de resistência institucional — e, por isso mesmo, precisa ser punido.
Mas o que mais impressiona é como se pune um ministro em 2025. Não é com tanques, nem com embaixadores convocados. É com cliques. Congelamento de contas, bloqueios financeiros, suspensão de cartões. Tudo isso — veja bem — sem julgamento, sem contraditório, sem uma linha de defesa. É o novo poder imperial: digital, asséptico, inapelável.
Mesmo que o Xandão opere só em reais, só em bancos brasileiros, ele pode — sim — ter problemas, e sérios. O sistema financeiro global é uma teia finíssima, onde nenhum banco quer ser o nó que rompe o fio com Wall Street. A maioria das instituições brasileiras depende de correspondentes nos EUA, da rede Swift, das bandeiras internacionais de cartões e das benditas — ou malditas — bigtechs que processam até a compra de um cafezinho. Entrou na lista de exclusão americana? Cartões bloqueados, contas congeladas, contratos suspensos. Não por decisão judicial brasileira, mas por reflexo condicionado: o medo de sanções, multas, processos — ou da simples exclusão do jogo.
Mesmo operando em reais, o risco existe. Porque, no fim das contas, até o real precisa pedir licença para circular no mundo. O botão de “desligar” está lá — e não está conosco. Soberania? Só no discurso de 7 de Setembro. A verdade incômoda é que vivemos todos dentro de um sistema que não controlamos. O dólar manda, o sistema financeiro global fala inglês com sotaque de compliance, as bigtechs decidem o que circula, o que cala e o que trava. E os cartões — dóceis como sempre — seguem ordens que vêm de lá, com um sorriso de chip. Se até um ministro do supremo pode ser “desplugado” da vida moderna sem aviso prévio, o que resta para o resto de nós? Rezar para não chamar atenção — ou voltar ao dinheiro em espécie.
E nem o Banco do Brasil escaparia ileso se resolvesse desobedecer a ordem vinda de Washington. Mesmo sendo estatal, também precisa operar com dólares, acessar a rede Swift, lidar com bancos internacionais — e, claro, não quer virar persona non grata no sistema global. Uma transação errada, uma insistência patriótica, e pronto: sanções, bloqueios, isolamento. No xadrez geoeconômico, até os bancos públicos jogam com as regras do império.
No fundo, os EUA já não precisam invadir nada. Basta uma sanção aqui, um bloqueio ali, e o recado está dado. Soberania virou item de museu. E o Brasil, como tantos outros, assina termos de uso sem ler as letras miúdas.
Enquanto isso, Brasília reage com sobriedade. Lula protesta, o Itamaraty se pronuncia, o STF se solidariza — e, pela primeira vez, os presidentes da Câmara e do Senado também lançaram notas públicas contra o ato. Essa demonstração conjunta, embora tardia, revela que a agressão não é só jurídica, mas política, atingindo o coração do equilíbrio institucional brasileiro. No entanto, apesar do coro de vozes oficiais, a sensação ainda é a de que estamos sempre um passo atrás.
Trump, ao sancionar Xandão, mandou recado para os seus — e para os nossos também. O herói da extrema-direita global não esquece dos seus aliados. E não perdoa quem os enfrentou. No Congresso brasileiro, parte da oposição aplaudiu. Afinal, quando o juiz é Alexandre de Moraes, até ataque estrangeiro vira piada interna.
Mas não é piada. É o STF, é o sistema de Justiça, é a autonomia institucional brasileira sendo atacada de fora — com apoio de dentro. Não é sobre gostar ou não de Xandão. É sobre o direito do Brasil de resolver seus conflitos sem precisar pedir bênção à Casa Branca. E, mais do que isso, é um recado ao planeta: não mexam com o Império — a punição será virulenta.
Se o governo quiser virar esse jogo, precisa parar de correr atrás da bola — e começar a ditar o ritmo da partida. A nova guerra não se trava mais com tanques, mas com narrativas, códigos binários e bloqueios bancários. É uma disputa por controle simbólico e infraestrutural. E, nesse tabuleiro, até um ministro do Supremo pode ser transformado em vilão global — sem julgamento, sem defesa, só com um clique.
Até a próxima — antes que o algoritmo resolva nos desconectar também.
Filinto Branco - Colunista Político
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