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Lá em Xerém, onde o tempo corre mais devagar e o verde ainda dita o ritmo da vida, Zeca Pagodinho anda fazendo o que sempre fez de melhor: cuidando. Sem discurso, sem palco, sem samba de microfone aberto. Apenas com o coração.
O cantor cedeu parte de sua propriedade — oito mil metros quadrados — para a criação da Horta Urbana de Xerém. O espaço, que poderia ser apenas mais um recanto particular, virou mesa farta para muita gente. Legumes, verduras, comida de verdade. Mais de uma tonelada já colhida, partilhada e levada para dentro das casas da comunidade.
A ideia veio em família, como quase tudo que é genuíno. Cresceu rápido, criou raiz e hoje alimenta corpos e afetos. Zeca resumiu do jeito que só ele sabe: a vida não é pra ser vivida sozinho. É pra dividir. O que se ganha, o que se planta, o que se é.
Quem acompanha sua história sabe que não é novidade. Xerém nunca foi cenário — sempre foi casa. Há décadas, o Instituto Zeca Pagodinho forma crianças, revela talentos, acolhe sonhos. Em tempos difíceis, o sambista nunca se escondeu atrás da fama. Quando a água sobe, ele aparece. Quando falta, ele reparte.
Nada disso vem com alarde. Não há marketing, não há pose. Há simplicidade. Há presença. Há aquele jeito de quem entende que sucesso de verdade é quando sobra um pouco para o outro.
Entre um samba e outro, Zeca segue fazendo o que talvez seja sua obra mais bonita: transformar o entorno com gestos pequenos, constantes e profundamente humanos. E mostrar, mais uma vez, que gentileza também pode ser um legado.
Por: Arinos Monge.
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