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Zenilda Maria Portella, comissionada da Assembleia de Roraima, teve R$ 500 mil apreendidos em investigação sobre corrupção eleitoral
A Polícia Federal deflagrou uma operação que resultou na apreensão de R$ 500 mil em espécie com Zenilda Maria Portella, de 75 anos, mãe da deputada estadual Angela Portella (PP-RR). O caso, que aconteceu em setembro de 2024, expõe um esquema de movimentação suspeita de valores na Assembleia Legislativa de Roraima, uma das casas legislativas com maior número de comissionados do país. A investigação apura possível corrupção eleitoral e levanta questionamentos sobre a gestão de recursos públicos no estado.
Operação flagra saque milionário em agência bancária
Na sexta-feira que antecedeu o feriado de 7 de setembro de 2024, Zenilda Portella foi surpreendida pela Polícia Federal ao sair de uma agência bancária em Boa Vista. A então diretora-executiva do Programa de Atendimento Comunitário da Assembleia havia acabado de sacar R$ 500 mil em dinheiro vivo. Os agentes federais apreenderam tanto os valores quanto o celular da funcionária pública, dando início a uma investigação por suspeita de corrupção eleitoral.
A defesa de Portella alegou que os saques em espécie eram "normais e corriqueiros" e não ocorriam apenas em época eleitoral. Documentos apresentados pelos advogados revelaram que, entre abril e julho de 2024, foram retirados R$ 2,15 milhões em espécie, sempre em dias úteis. A justificativa apresentada foi de que o dinheiro seria destinado ao pagamento de fornecedores e prestadores de serviços.
Zenilda ocupava o cargo de comissionada desde janeiro de 2024, recebendo R$ 12 mil mensais como diretora-executiva. Após a operação, houve uma mudança significativa em sua posição: ela foi transferida para o cargo de assessora técnica no mesmo setor, com salário reduzido para R$ 2.520 mensais. A mudança levanta questionamentos sobre as circunstâncias que levaram à redução drástica de sua remuneração.
Assembleia de Roraima mantém estrutura controversa de comissionados
A Assembleia Legislativa de Roraima chama atenção nacional por manter 4.334 funcionários comissionados, incluindo parentes de deputados e vereadores, pastores evangélicos, profissionais liberais e até beneficiários do Bolsa Família. Esta estrutura representa uma das maiores taxas de cargos de confiança do Brasil, gerando questionamentos sobre a real necessidade de tantos funcionários para atender apenas 24 deputados estaduais.
Em agosto de 2024, a folha de pagamento dos comissionados consumiu R$ 17 milhões dos cofres públicos. A diversidade de profissionais contratados inclui desde dentistas e designers de sobrancelhas até árbitros que atuam em jogos da CBF. Muitos desses funcionários exerceram atividades paralelas durante o expediente oficial, comprometendo a eficiência do serviço público.
O setor de comissões permanentes da casa empregava 714 servidores comissionados, um número que especialistas consideram desproporcional para as 22 comissões existentes. A estrutura também atende gabinetes em Boa Vista e no interior do estado, mas a quantidade de funcionários levanta suspeitas sobre possíveis irregularidades na gestão de pessoal.
Conflito de interesses e dupla jornada profissional
Além de seu cargo na Assembleia, Zenilda Portella exercia a função de procuradora na empresa de construção de seu filho, que mantém contratos com o governo de Roraima. Esta situação configura um claro conflito de interesses, já que a funcionária pública tinha acesso privilegiado a informações governamentais enquanto representava uma empresa contratada pelo próprio estado.
A defesa alegou que o dinheiro apreendido tinha origem em contratos públicos e seria utilizado para pagamentos a fornecedores. No entanto, a forma de movimentação - sempre em espécie e em valores elevados - despertou a atenção dos investigadores. A prática de manter grandes quantias em dinheiro físico é considerada suspeita pelos órgãos de controle, especialmente quando envolve servidores públicos.
Após a apreensão, Portella ingressou na Justiça tentando recuperar os R$ 500 mil. Em sua petição, solicitou tramitação prioritária por ser idosa e pediu os benefícios da Justiça gratuita, alegando ser "juridicamente pobre". O contraste entre esta alegação e os valores movimentados em espécie gerou questionamentos sobre a real situação financeira da funcionária.
Investigação expõe nepotismo e irregularidades administrativas
A deputada Angela Portella, filha de Zenilda, mantém uma sobrinha em seu gabinete, evidenciando a prática de nepotismo que permeia a estrutura da Assembleia roraimense. Procurada pela reportagem, a parlamentar não se manifestou sobre o caso envolvendo sua mãe nem sobre as irregularidades apontadas na casa legislativa.
O ouvidor-geral da Assembleia é o deputado Isamar Júnior (Podemos), filho do pastor Isamar, presidente da Assembleia de Deus Brasil. Seu gabinete abriga dois religiosos como assessores e a esposa de um pastor evangélico ligado à congregação do pai. Esta configuração levanta questionamentos sobre a independência dos órgãos de controle interno da casa.
A Assembleia informou que não compactua with irregularidades e determinou a instauração de sindicância para apurar as denúncias. A casa legislativa afirmou que mantém controle de frequência e cumprimento de jornada, mas a efetividade desses mecanismos é questionada diante das evidências apresentadas.
Transparência e controle social em xeque
A Assembleia de Roraima destacou que mantém informações sobre gestão de pessoal disponíveis em seu Portal da Transparência. No entanto, a mera disponibilização de dados não garante o controle efetivo dos gastos públicos, especialmente quando há suspeitas de irregularidades na contratação e utilização dos funcionários comissionados.
O caso de Zenilda Portella representa apenas a ponta do iceberg de um sistema que permite a contratação massiva de cargos de confiança sem critérios técnicos claros. A investigação da Polícia Federal pode revelar outras irregularidades na gestão de recursos públicos do estado, especialmente considerando os altos valores movimentados em espécie.
A sociedade roraimense aguarda os desdobramentos da investigação, que pode resultar em mudanças significativas na estrutura administrativa da Assembleia. O caso também serve como alerta para outros estados sobre a necessidade de maior rigor na contratação de funcionários públicos e no controle de gastos com pessoal.
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