Zugzwang da soberania

Por Lívia Louvel

Zugzwang da soberania

Em tempos de policrises, não são as manchetes que definem o futuro, mas os rodapés. Aqueles sinais quase imperceptíveis, enterrados nas entrelinhas legislativas, nos entrecortes diplomáticos, nos dados de importação que ninguém lê — até que seja tarde.

Um desses sinais acaba de piscar em Washington. Mas o impacto, se vier, será sentido muito além das bombas de combustível brasileiras. Ele se irradiará por toda a cadeia logística nacional — do campo ao porto, dos centros de distribuição aos mercados urbanos. E no centro desse efeito dominó está um nome com cheiro de posto de gasolina e gosto de logística global: diesel russo.

O Congresso dos Estados Unidos discute, em ritmo crescente, um projeto de lei com potencial de redesenhar cadeias energéticas em diversos países. Sob o pretexto — legítimo ou não — de punir o financiamento indireto à guerra na Ucrânia, o texto propõe tarifas de até 500% sobre bens exportados para os EUA por países que continuem comprando petróleo, gás e derivados da Rússia. Uma tarifa secundária, mas com efeitos primários — e violentos.

O Brasil começou a importar diesel da Rússia em 2021, em um movimento ainda discreto, mas que, com o endurecimento das sanções ocidentais após a invasão da Ucrânia, ganhou força e escala. O diesel russo passou a ser oferecido com desconto — abaixo das cotações praticadas no Golfo ou nos Estados Unidos — e rapidamente se tornou o principal combustível importado pelo Brasil. Hoje, mais da metade do diesel que chega ao país vem daquele país.

Importar diesel russo não foi uma excentricidade ideológica, nem uma provocação geopolítica. Foi, antes de tudo, uma decisão técnica. Estamos diante de uma escolha considerada vantajosa por sucessivos governos, com origens em uma gestão e aprofundamento em outra, atravessando diferentes ciclos políticos — o que revela que havia ali mais cálculo do que posicionamento partidário.

Com o barril russo oferecido a preços inferiores, o diesel tornou-se uma alternativa irresistível para um país cuja infraestrutura depende essencialmente de frota rodoviária. A escolha amorteceu pressões inflacionárias, reduziu o custo de transporte da produção agrícola, segurou margens e deu fôlego a setores cuja sobrevivência depende diretamente do preço do frete — e dos preços finais ao consumidor. Uma economia construída sobre rodas não pode se dar ao luxo de errar o fornecedor do combustível. Ainda menos em um país que mal teve tempo de reconstruir seus amortecedores econômicos após a pandemia.

Essa equação eficiente, no entanto, começou a trincar: a proposta americana ainda está em debate, mas seu poder de disrupção econômica precisa ser considerado desde já. Caso aprovada, não exigirá alinhamento político, e sim revisão urgente de contratos, cadeias de suprimento, seguros logísticos, margens operacionais e políticas de estoque. Um impacto não apenas diplomático, mas econômico, real e cotidiano — mais uma vez.

A ameaça de retaliação comercial por parte dos Estados Unidos insere um elemento de instabilidade em um elo essencial da economia brasileira. A possível substituição abrupta do diesel russo por outras origens — mais caras e menos adaptadas — implicaria custos logísticos elevados, reestruturação de contratos e, inevitavelmente, repasses de preços. Não apenas ao consumidor final nos postos, mas a toda a cadeia de produção e distribuição de bens essenciais. Tudo isso em um país já pressionado por juros altos, déficit fiscal crônico e uma sociedade vulnerável à menor oscilação nos custos do transporte.

A questão, portanto, é estrutural. Estamos diante de mais uma peça da engrenagem invisível que compõe a economia real. E como toda peça silenciosa, só revela sua importância em momentos de ruptura — os quais esperamos que não ocorra.

A proposta em tramitação no Senado americano — o Sanctioning Russia Act of 2025 (S.1241) — ultrapassa os limites de uma retórica simbólica: fornece ao Executivo o poder de aplicar tarifas mínimas de 500% sobre produtos russos e de estendê-las a países que mantêm fluxos comerciais significativos com a energia da Rússia. Referimo-nos a um instrumento amplo, com margem para compor um tarifário adicional e restrições secundárias a qualquer país cuja relação energética com Moscou interfira nos interesses estratégicos dos Estados Unidos.

Não se trata de prever punições, mas de ler o movimento sob a superfície comercial. A importação de diesel russo segue, até aqui, como uma escolha vantajosa sob critérios técnicos e econômicos. Entretanto, nenhum país pode depender estruturalmente de um único mercado — fornecedor ou consumidor — sobretudo em setores vitais.

É isso que segue em jogo. Alterando-se os atores e as posições, o Brasil precisa abandonar a situação crônica de quem apenas reage ao que os mercados impõem — porque sempre há um custo silencioso em operar com atraso.

Antecipar-se e evitar um zugzwang seria o mínimo esperado de uma política externa conectada à realidade do século XXI. A questão não é simplesmente sobre o diesel — é se somos capazes de garantir, com autonomia e inteligência diplomática, os insumos críticos que sustentam a logística, a produção e a soberania nacional, sem nos tornar objeto da estratégia de ninguém, nem reféns de deliberações alheias.

E isso se constrói com visão de longo alcance, reconhecendo na ciência, na inovação e na capacidade industrial os verdadeiros pilares da segurança nacional. Porque o futuro segue cada vez menos gentil com os que confundem estratégia com preço — e insistem em negociar sua soberania no atacado.

Lívia Louvel é economista e escreve às quintas-feiras. Na coluna Perspectiva, traduz os movimentos da economia em análises que geram valor e orientam decisões.

 

Por Ultima Hora em 08/08/2025
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