A Cidade que Aprendeu a Ficar Rica

Por Filinto Branco

A Cidade que Aprendeu a Ficar Rica

Nas duas crônicas anteriores falamos da cidade que perdeu o poder e da cidade que encontrou na cultura uma nova forma de influência. Mas a história recente de Niterói guarda uma terceira transformação, talvez a mais surpreendente de todas: o momento em que a antiga capital descobriu que o destino também sabe fazer depósitos bancários.

Durante décadas, Niterói viveu tentando se reinventar. Primeiro enfrentou o esvaziamento provocado pela perda da capitalidade. Depois encontrou na cultura e na qualidade de vida uma forma de reconstruir sua identidade. Mas, a partir do seculo XXI, um novo personagem entrou em cena: o petróleo.

E, como quase todo personagem decisivo da história brasileira, ele chegou acompanhado de promessas, disputas políticas e muito dinheiro.

Como acontece com quase toda riqueza no Brasil, a discussão sobre como dividir os recursos começou antes mesmo de eles chegarem plenamente aos cofres públicos. Godofredo Pinto teve papel importante na defesa da ampliação dos royalties destinados a Niterói e na preparação da cidade para esse novo ciclo.

Os efeitos mais visíveis dessa transformação, porém, seriam sentidos apenas nos anos seguintes. Ele esteve mais na origem da prosperidade do que na sua administração cotidiana; mais na construção da estrada do que na viagem que veio depois.

Dinheiro público costuma produzir dois efeitos simultâneos: resolve problemas concretos e cria a perigosa sensação de que eles deixaram de existir.

Mas a abundância trouxe novas perguntas — e nenhuma delas é confortável.

A primeira diz respeito ao equilíbrio entre áreas essenciais. A saúde pública, por exemplo, não evoluiu na mesma proporção do crescimento orçamentário. Em uma cidade que se tornou uma das mais ricas do país, ainda persistem filas, pressões sobre o sistema e desafios de eficiência que revelam um descompasso entre recursos e entrega.

Os royalties transformaram Niterói. Seria injusto negar. A cidade investiu em infraestrutura, urbanização, equipamentos públicos e qualidade de vida. Mas a abundância também trouxe uma pergunta incômoda: o que exatamente uma cidade faz quando o dinheiro deixa de ser a principal desculpa?

Afinal, poucas administrações municipais brasileiras tiveram à disposição recursos tão expressivos. O orçamento atual de Niterói é muitas vezes superior ao da época de Godofredo Pinto. Ainda assim, os resultados nem sempre acompanham o tamanho dos investimentos. A educação talvez seja o exemplo mais evidente. Os indicadores recentes do IDEB estão longe de colocar a cidade entre as grandes referências educacionais do país, algo difícil de compreender quando se observa a capacidade financeira do município.

É uma contradição difícil de ignorar. Se dinheiro fosse suficiente para produzir educação de excelência, Niterói já deveria figurar entre as grandes referências nacionais. Mas educação, como o Brasil insiste em nos ensinar, depende menos da abundância financeira e mais de continuidade, gestão e capacidade de execução.

Descobriu-se, para surpresa de alguns gestores e alegria dos professores de matemática, que o orçamento municipal não obedece à propriedade comutativa: trocar a ordem entre gastar e melhorar não produz necessariamente o mesmo resultado.

Os royalties resolveram muitos problemas. O que ainda não conseguiram resolver é a velha distância entre gastar mais e fazer melhor.

Mas existe uma questão ainda mais profunda e menos discutida: o tempo.

O petróleo não é uma base permanente de prosperidade. É uma fonte finita, sujeita a ciclos, variações e declínios. E cidades que estruturam parte relevante de seu futuro em royalties precisam, inevitavelmente, enfrentar o desafio de pensar o depois.

Talvez esse seja o verdadeiro teste da maturidade administrativa de Niterói. Não apenas administrar bem a riqueza enquanto ela existe, mas usar essa riqueza para construir uma cidade capaz de prosperar quando ela deixar de existir.

Ao longo de poucas décadas, Niterói perdeu a capital, encontrou uma identidade cultural e descobriu a riqueza. Poucas cidades brasileiras viveram transformações tão profundas em tão pouco tempo.

A questão agora é outra.

Depois de aprender a perder e depois de aprender a criar, Niterói precisa decidir o que fará com a prosperidade.

Por muito tempo, a cidade precisou aprender a sobreviver com poucos recursos. Hoje precisa aprender algo ainda mais difícil: transformar riqueza passageira em patrimônio duradouro.

Se conseguir, os royalties terão sido apenas o combustível de uma transformação maior. Se não conseguir, correrá o risco de descobrir tarde demais que dinheiro, sozinho, compra conforto, mas não necessariamente futuro.

Algumas cidades encontram petróleo. Outras encontram destino. As mais raras conseguem transformar um no outro.

Filinto Branco
cronista de ideias

Por Ultima Hora em 27/06/2026
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