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No panteão das virtudes políticas, a fé ocupa, inegavelmente, um lugar de destaque. Não a fé ingênua e sincera dos devotos, que buscam consolo e propósito, mas uma espécie de fé pragmática, elástica e, digamos, miraculosa, cultivada por nossos estadistas para a salvação... de seus mandatos. E, convenhamos, ninguém parece personificar tão bem essa teologia política quanto o nosso próprio presidente, cujas "categorias de fé" parecem ditar o ritmo de um país, enquanto ele, com as mãos postas, reza por mais um dia de sucesso eleitoral.
Vamos, então, desvendar os dogmas dessa nova liturgia cívica, uma fé que move montanhas de promessas e abismos de esquecimento.
A Primeira Grande Revelação: A Fé na Impunidade da Corrupção
Ah, a corrupção! Um mal que assola, um desvio que flagela. Mas para o político de fé, é apenas uma miragem, um pequeno percalço no glorioso caminho da gestão pública. A "fé na impunidade da corrupção" é o primeiro mandamento. É a crença inabalável de que as engrenagens da justiça, por mais rangentes que sejam, eventualmente cederão ao tempo, à burocracia ou, melhor ainda, a alguma manobra jurídica divinamente inspirada. É a certeza de que as manchetes de hoje são o papel de embrulho de amanhã, facilmente descartáveis para a memória volátil do eleitor. Uma fé robusta, que resiste a escândalos e opera milagres de absolvição, seja por prescrição ou por uma boa interpretação da lei. Aleluia!
O Segundo Milagre: A Fé no Arrocho do Empreendedor para Cobrir Gastos Astronômicos
Enquanto a máquina pública inchava, e as promessas de campanha custavam os olhos da cara (e o resto do corpo), surgiu a "fé no arrocho de quem empreende". Uma crença piedosa de que o pequeno, médio e grande empresário brasileiro é dotado de uma resiliência quase sobrenatural, capaz de suportar cargas tributárias bíblicas e burocracias faraônicas. Afinal, quem melhor para financiar os sonhos grandiosos de um governo que não se apega a detalhes orçamentários? É a esperança de que, com um pouco mais de suor e algumas lágrimas salgadas, a iniciativa privada milagrosamente cobrirá as despesas estratosféricas, as nomeações generosas e os planos ambiciosos, sem que a economia sinta muito o peso. É a convicção de que o povo que "faz" continuará fazendo, não importa o custo. Amém.
A Terceira Bem-Aventurança: A Fé no Esquecimento dos Eleitores de Seus Pecados Passados**
Esta é, talvez, a fé mais otimista de todas: a "fé no esquecimento dos eleitores de seus crimes". Ela se baseia na premissa de que a memória coletiva é curta, a atenção é efêmera e que um bom discurso (ou um benefício social bem distribuído) tem o poder de exorcizar qualquer sombra do passado. Como um bom pastor que perdoa as ovelhas desgarradas, o político de fé acredita que seus atos menos honrosos serão redimidos pela passagem do tempo e pela conveniência de um novo ciclo eleitoral. Afinal, para que se apegar ao que já passou, quando há um futuro tão glorioso a ser prometido? Um perdão sem penitência é o maior milagre da política. Hallelujah!
A Quarta Virtude Cardinal: A Fé nas Relações Internacionais Para Não Sofrer Interferências
Navegando nos mares turbulentos da geopolítica, o presidente de fé cultiva a "fé nas relações internacionais com potências globais para não sofrer interferências". É a crença de que, ao apertar as mãos certas, ao fazer as concessões adequadas, ou ao simplesmente acenar para figuras de poder global – seja um líder errático como Trump, ou qualquer outro figurão que possa ditar os ventos –, o Brasil estará imune a pressões indesejadas. É a confiança de que alianças estratégicas (ou meras conveniências) são um escudo divino contra o escrutínio externo sobre assuntos internos, como democracia, direitos humanos ou o rumo da economia. Uma fé diplomática que busca garantir a soberania... para quem a exerce. Paz na Terra aos homens de boa vontade (que nos apoiam).
O Quinto Dogma: A Fé na Impunidade de Seus Amigos Ditadores
E não poderíamos esquecer a "fé na impunidade de seus amigos ditadores". Uma devoção quase santa pela soberania alheia, especialmente quando exercida por regimes que, para o olhar menos perspicaz, poderiam ser chamados de autoritários. É a crença profunda de que cada nação tem seu próprio caminho, sua própria interpretação de "democracia" e que, sob o manto da não-intervenção, é possível abraçar tiranos sem manchar a própria reputação. Afinal, quem somos nós para julgar as "peculiaridades" de nações-irmãs, especialmente quando elas compartilham de certas afinidades ideológicas ou estratégicas? A impunidade dos companheiros é um pilar dessa fé, um teste de lealdade inabalável. Assim seja.
A Sexta Profecia: A Fé que o Povo Não Vai Perceber a Competição Chinesa e o Impacto na Empregabilidade**
Finalmente, chegamos à "fé que o povo não vai perceber a China competindo com inúmeros produtos brasileiros, causando impacto na empregabilidade e no desenvolvimento de nossa indústria". Uma fé ingênua (ou cínica) de que o eleitor médio, ocupado com suas próprias lutas diárias, não notará que as prateleiras estão cheias de produtos estrangeiros, que as fábricas locais estão minguando e que os empregos evaporam. É a esperança de que o brilho do progresso chinês, tão distante, não ofusque a visão do cidadão sobre o declínio da indústria nacional. Uma fé que aposta na distração coletiva, na negação dos fatos e na capacidade de sempre culpar "o mercado", "a conjuntura" ou "os antecessores" por qualquer tropeço. Que os olhos do povo não se abram, até que seja tarde demais. Amém.
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