A Medida Perdida .

Entre a razão e o medo, o país esqueceu o sentido da segurança

A Medida Perdida  .

Por Lívia Louvel 

Na estante, um livro antigo parece me observar. Ética a Nicômaco. Aristóteles escrevia ao filho, mas também ao futuro: sobre a arte de viver entre os extremos. O filósofo acreditava que a virtude não está no excesso de coragem nem na ausência de medo, mas na justa medida que sustenta o discernimento. A vida ética, dizia ele, exige contexto, proporção e consciência. É um exercício de lucidez em meio ao ruído.

Falar de segurança pública hoje é mergulhar nesse mesmo território da medida e reconhecer que o país perdeu a noção dela. A violência deixou de ser exceção. Tornou-se rotina, como o trânsito, o calor, a pressa. O medo passou a costurar o cotidiano: muda de endereço, mas nunca de forma. Nas ruas e nas janelas, nos semáforos e nas conversas, ele define o comportamento, o voto, o modo de existir. Todos vivem sob a mesma tensão, ainda que por razões diferentes.

Há uma exaustão silenciosa por trás do discurso do rigor. Ele nasce quando a esperança já se dissolveu na rotina do medo. Do outro lado, há quem ainda insista nas causas — e é justo que insista. Nenhum está errado, apenas incompleto. A insegurança é a nova linguagem nacional. Quem perdeu a fé na lei busca força; quem perdeu a fé na força busca justiça. Entre o endurecimento e a condescendência, o país se move como quem procura equilíbrio em terreno inclinado, reagindo mais do que refletindo, punindo mais do que compreendendo.

Aristóteles comparava a ética à arte de curar: o que define o resultado não é a substância, mas a dose — a linha tênue entre o remédio e o veneno. E talvez essa seja a analogia que o Brasil esqueceu. O endurecimento sem critério intoxica. A permissividade sem consequência corrói. A política trata a segurança como slogan, não como diagnóstico. Substitui o cálculo pela catarse. O resultado é o país anestesiado, reativo, incapaz de distinguir causa de sintoma.

Em Ética a Nicômaco, há uma distinção entre as formas de justiça: a distributiva, que organiza o acesso ao que é comum, e a corretiva, que restaura o equilíbrio quando algo se rompe. O Brasil exige da polícia o que deveria cobrar da política: que repare o que nunca foi distribuído — cidade, escola, trabalho, pertencimento. Transformamos a ponta em remendo e o remendo em política pública. A violência é, em parte, o preço dessa inversão.

Mas o problema já não está apenas nas ruas. Está também nas instituições que deveriam protegê-las. Quando a insegurança deixa de ser fenômeno urbano e passa a contaminar a confiança nas instituições, ela muda de nome: torna-se questão de segurança nacional. A segurança pública trata da integridade do cidadão; a segurança nacional, da integridade do Estado. Ambas, porém, se apoiam na mesma base: a confiança. Sem ela, nenhuma política de defesa se sustenta.

O medo, então, se institucionaliza. Deixa de ser emoção e passa a ser método. Ele elege, pauta, orienta o investimento e o discurso. É o cimento invisível da desconfiança. A sociedade aprende a negociar com ele — e chama isso de realismo. Mas o realismo, aqui, é apenas o outro nome do conformismo.

O Estado, por sua vez, parece ter descoberto no medo uma gramática de poder. A segurança vira fronteira ideológica, território de disputa e de cálculo. É o tema que ninguém domina, mas que todos exploram. Um campo onde a dor vale mais que o argumento, e o silêncio mais que a proposta. No fundo, o medo serve a todos: a quem o sente e a quem o instrumentaliza.

Por isso talvez seja hora de retomar um debate mais amplo, um debate de pacto e não de instinto. A segurança nacional não deveria ser domínio de uma classe, mas compromisso de uma sociedade. A violência apenas muda de forma: uns temem o crime, outros temem o Estado; uns vivem cercados, outros cercados por ausência. O denominador comum é a perda da confiança — o colapso do nós.

Aristóteles chamava de philia o vínculo que torna uma cidade possível: a confiança entre aqueles que compartilham o mesmo espaço. Sem philia, resta apenas vizinhança armada. O Brasil precisa reaprender essa confiança — não como sentimento, mas como infraestrutura. Rua iluminada, escola aberta, cidade viva — eis o alfabeto mínimo de uma ética coletiva.

No fim, talvez a virtude que nos falte não seja a coragem, mas a prudência. A capacidade de agir sem ódio e pensar sem medo. De entender que a segurança não é o oposto da liberdade, mas sua condição. E que nenhum extremo — nem o da força, nem o da indulgência — substitui o trabalho paciente de reconstruir a medida.

O país fala de segurança como quem fala de justiça, mas o que realmente busca é controle. O resto é discurso. O medo, aqui, continua sendo a forma mais eficiente de governar.

 

Lívia Louvel é economista e escreve semanalmente. Na coluna Perspectiva, traduz os movimentos da economia e sociedade em análises que geram valor e orientam decisões.

 

Por Ultima Hora em 04/11/2025
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