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Prefeito do Rio jura lealdade a Lula após meses de flertes com bolsonarismo e temor de aliança PT-Bacellar
O prefeito Eduardo Paes (PSD) desembarcou às pressas em Brasília na última terça-feira para um encontro reservado com o presidente Lula.
O motivo? Desarmar a bomba-relógio que vinha sendo armada no Palácio do Planalto contra ele após meses de acenos públicos ao bolsonarismo. Como diz o ditado popular: "Quem brinca com fogo pode se queimar" - e Paes sentiu o calor chegando perigosamente perto.
A reunião fora da agenda oficial aconteceu depois de meses de distanciamento entre os dois aliados. Na conversa, Paes comunicou que deixará a prefeitura em 20 de março para disputar o Palácio Guanabara e, mais importante, jurou lealdade ao petista.
O prefeito também se comprometeu a apoiar a deputada Benedita da Silva ao Senado - um recuo significativo nas pretensões do seu grupo político.
A gota d'água que transbordou o copo
Desde o segundo semestre de 2025, o trio formado por Gleisi Hoffmann (ministra das Relações Institucionais), Lindbergh Farias (líder do PT na Câmara) e André Ceciliano (secretário de Assuntos Parlamentares) vinha "envenenando" o ambiente no Planalto contra Paes e ameaçando disputar as eleições do estado.
Três episódios foram considerados desleais pelos petistas.
Em setembro, o prefeito manifestou apoio ao pastor Silas Malafaia após a Polícia Federal torná-lo investigado, declarando em culto religioso: "Mexeu com Silas, mexeu comigo."
Dois meses depois, em evento na Baixada Fluminense, disse que caminharia nas eleições com o PL do deputado Altineu Cortes.
A gota d'água veio em dezembro, quando Eduardo Cavaliere, vice de Paes, chamou de "lero-lero" a visão do PT e Lula para segurança pública em entrevista após a operação que matou 121 pessoas no Complexo do Alemão.
O xadrez político na Alerj
A urgência da viagem de Paes ganhou contornos dramáticos quando André Ceciliano começou a ensaiar uma candidatura ao mandato-tampão que será aberto no Rio caso Cláudio Castro (PL) renuncie em abril para disputar o Senado.
Pela lei, o presidente do Tribunal de Justiça convocará eleição indireta na Assembleia Legislativa - disputa que poderia colocar Ceciliano no comando da máquina estadual durante a campanha.
O projeto petista ganhou força porque o deputado Rodrigo Bacellar (União Brasil) - presidente afastado após operação da PF - vem se articulando para beneficiar Ceciliano.
Com esse movimento, Bacellar busca impedir dois rivais de controlar a Casa: Nicola Miccione, chefe da Casa Civil sem ambições políticas, e Douglas Ruas (PL), filho do prefeito de São Gonçalo e afilhado de Altineu Cortes.
As desconfianças persistem
Embora o gesto de Paes tenha sido bem recebido no Planalto, a desconfiança persiste. Como observou um petista relevante da direção nacional, o prefeito "calçou as sandálias da humildade", mas está longe de conquistar crença inquestionável na sua fidelidade.
Lula ainda demonstra acreditar no recuo de Flávio Bolsonaro e que Tarcísio de Freitas (Republicanos) será seu oponente em outubro. No PT, duas desconfianças permanecem: com Tarcísio candidato, apoiado por Gilberto Kassab do PSD, qual será a postura de Paes no Rio? E se Ratinho Jr. (PSD) se lançar ao Planalto, o prefeito manterá as promessas feitas a Lula?
O fantasma de 2014
O PT fluminense já experimentou traição similar. Em 2014, Jorge Picciani criou uma dissidência no MDB batizada de "Aezão" que unia Luiz Fernando Pezão ao governo e Aécio Neves à Presidência, mesmo tendo Dilma Rousseff como candidata oficial.
Na semana passada, Paes recebeu Gilberto Kassab no Rio, onde todos esses cenários foram abordados.
O prefeito, que perdeu duas eleições para governador (2006 e 2018), teme ficar vinculado demais a Lula devido à afinidade bolsonarista no estado.
Em 2022, Bolsonaro venceu o petista em 72 cidades, e Castro atropelou Marcelo Freixo no primeiro turno com mais de 4,9 milhões de votos.
Análise política
Como disse Winston Churchill: "A política é a capacidade de prever o que vai acontecer amanhã, na próxima semana, no próximo mês e no próximo ano. E ter a habilidade depois de explicar por que não aconteceu." Paes demonstra essa habilidade ao navegar entre diferentes campos políticos, mas corre o risco de perder a confiança de todos.
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