Mangueira Aluga 25 violões por R$ 165 mil reais: Onde foi parar R$ 1,5 milhão de emenda de Quaquá na Mangueira?

Emenda de Washington Quaquá no valor de R$ 1,5 milhão possui graves falhas na execução.

Mangueira Aluga 25 violões por R$ 165 mil reais: Onde foi parar R$ 1,5 milhão de emenda de Quaquá na Mangueira?

Orquestra de violões desafinada: como 300 instrumentos viraram 25 e geraram perguntas sem respostas na Mangueira? 

Investigação do Coletivo Transparência Mangueira revela inconsistências documentais em projeto de R$ 1,5 milhão executado através de Termo de Fomento através do Ministério da Cultura. Gestão Guanayra Firmino nega as evidências e afirma ser mentirosas as denúncias.

A Estação Primeira de Mangueira, uma das maiores instituições do samba brasileiro, enfrenta questionamentos sobre a execução de um projeto financiado com recursos federais. O caso começou com uma pergunta simples sobre o aluguel de violões e evoluiu para uma investigação que expõe inconsistências documentais, contradições entre Plano de Trabalho, proposta vencedora e contrato, além de possível envolvimento de empresa ligada a familiar da presidente da escola. A transparência na administração pública, especialmente quando envolvem patrimônios culturais brasileiros, merecia maior rigor.

Entenda o caso: A engenharia aritmética dos 300 violões

O projeto "Oficinas Carnavalescas da Mangueira", vinculado ao Termo de Fomento nº 959526, previa oficinas em Niterói com investimento federal de R$ 1,5 milhão de autoria do então Deputado Federal Washington Quaquá. 

A documentação oficial que pode ser conferida por qualquer cidadão através da Plataforma do Governo Federal Transferegov apresenta incongruência significativa: enquanto o Plano de Trabalho indica execução na Rua Vereador Erany José da Silva, nº 972, no Caramujo em Niterói, a instituição proponente é o Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, com sede formal no Rio de Janeiro.

A questão inicial, aparentemente simples, emerge da memória de cálculo: por que uma escola de samba necessitaria gastar R$ 165 mil com aluguel de violões? A proposta leva a assinatura da presidente Guanayra Firmino que atesta ter assinado a proposta na cidade de Niterói. 

A investigação realizada pelo historiador e pesquisador cultural Pablo Brandão integrante do Coletivo Transparência Mangueira revela que o Plano de Trabalho apresenta 25 violões alugados durante doze meses — transformados aritmeticamente em 300 "meses" de locação ao custo unitário de R$ 550,00. Porém, no documento licitatório, a proposta vencedora fala em "300 violões", não em 25 unidades por doze meses. O contrato posterior retorna a falar em "25 violões". A contradição não é mero detalhe; é prova documental e levanta questão fundamental: afinal, o que foi planejado, licitado, contratado e efetivamente entregue? 

Comparação de preços e o valor desproporcionado

A pesquisa de mercado realizada por Pablo apontou valores significativamente menores. Lojas especializadas apresentavam violões a preços que variavam entre R$ 436,17 e R$ 497,00, com média de R$ 469,72. O valor de referência de R$ 550,00 utilizado no projeto ficaria R$ 80,28 acima da média pesquisada. Contudo, o aspecto mais problemático não é o preço do instrumento, mas o modelo de cálculo adotado para "aluguel".

Consultando empresa especializada em locação de instrumentos musicais, a investigação identificou que a BATS CO oferecia aluguel mensal de violão por R$ 57,52, sendo que seu produto mais caro chegava a R$ 148,00 mensais. Um violão alugado pela BATS CO durante doze meses custaria aproximadamente o valor de um instrumento novo, mas ainda distante dos R$ 6.600,00 por unidade ao ano derivado da memória de cálculo apresentada pela gestão de Guanayra Firmino dos Santos, atual presidente da Mangueira.

O labirinto das propostas licitatórias

A análise das propostas vencedoras revela inconsistências matemáticas preocupantes. A Movie Cia Filmes, empresa cuja atividade principal é produção de fotografias e serviços relacionados a artes cênicas, apresentou proposta de "300 violões" com valor diário de R$ 700,00 para um mês de locação, fechando em R$ 210 mil. Porém, seguindo literalmente a lógica diária apresentada — 300 violões a R$ 700,00 por dia durante um mês — o cálculo alcançaria R$ 6,3 milhões, não R$ 210 mil, evidenciando grave erro aritmético ou intencional distorção.

A BATS CO, empresa com atuação reconhecida em locação de instrumentos musicais, aparece como segunda participante com proposta de R$ 195 mil. Entretanto, em contato direto por WhatsApp, a empresa informou que não participa de licitações. A questão deixa de ser meramente orçamentária e passa a ser documental: como uma proposta em nome de empresa que nega participação em processos licitatórios teria sido incluída na documentação?

A terceira participante, vencedora final, é a Dias Moreira Serviços de Construções e Reformas Ltda., inscrita no CNPJ nº 46.263.839/0001-13. Constituída em 2022, a empresa tem atividade principal de construção de edifícios, com locação de instrumentos musicais listada como atividade secundária. A empresa apresentou proposta de 300 violões a R$ 550,00 unitário, totalizando R$ 165 mil. A vitória obtida pela empresa que fecha matematicamente em R$ 165 mil abre, paradoxalmente, coleção de perguntas sem resposta sobre documentação, entregas, recebimentos e comprovação de uso.

O parentesco não declarado e questões de integridade

A investigação identifica possível conflito de interesses não previamente mencionado. Segundo entrevista pública concedida em podcast da Escola de Samba disponível no YouTube, Áurea Moreira informa  ser prima de Guanayra Firmino dos Santos, atual presidente da Mangueira. A relação de parentesco, em entidade privada que executa recurso público federal, não constitui mero detalhe doméstico, mas questão fundamental de integridade administrativa.

“O Estatuto Social da Mangueira, atualizado em 2023, estabeleceu compromissos explícitos com ética, integridade, transparência, sustentabilidade e boas práticas de governança. A possível participação de empresa ligada a familiar da presidente em processo licitatório conduzido pela mesma gestão que assinou projeto federal levanta questões objetivas: quem convidou a empresa? Quem validou a proposta? Quem conferiu o objeto? Quem comparou os preços? Quem autorizou o contrato? Quem atestou a nota fiscal?”. Questiona Pablo Brandão. 

Contexto político e possível envolvimento de Washington Quaquá

A emenda parlamentar que originou o projeto foi de autoria de Washington Quaquá, atual prefeito de Maricá, quando ainda era deputado federal. O valor de R$ 1,5 milhão foi destinado especificamente para execução de projeto da Mangueira. Quaquá mantém relações públicas com a escola de samba e, conforme informações divulgadas, manifestou solidariedade à presidente Guanayra Firmino durante polêmicas administrativas.

O contexto político amplia-se com envolvimento de Junior Mangueira, ex-vice-presidente de Integração Comunitária da escola, na gestão passada e atual Vice-presidente Social. Junior ocuparia cargo de subsecretário na Prefeitura do Rio de Janeiro, na secretaria de Habitação nomeação prometida mas não concretizada, Júnior que foi candidato a vereador pelo PT com apoio de Quaquá, teve pouco mais de 7.500 votos. Júnior não passou na integridade, seu nome foi vetado e impedido de assumir cargo por questões de  compliance. 

As denúncias sobre irregularidades da gestão Guanayra foram inicialmente creditadas a Junior, sugerindo possível disputa interna pela liderança da escola de samba.

Histórico administrativo e estrutura de controle anterior

Pablo Brandão, responsável pela investigação, anteriormente trabalhou como gestor financeiro da Mangueira e encontrou pendências administrativas significativas. Segundo relato público, a escola enfrentava débitos junto ao Governo Federal decorrentes de execução de projetos desde 1997, com registros no Cadin que a tornavam inadimplente. Em menos de um ano, conseguiu regularizar situação que ultrapassava R$ 13 milhões em pendências.

O contexto de recuperação administrativa prévia reforça que a atual gestão tinha estrutura e conhecimento sobre necessidade de rigor documental. A criação de "condicionantes técnicas" para acesso a recursos públicos, a reorganização de contratos, documentos fiscais e memória administrativa foram esforços empreendidos exatamente para evitar que Mangueira retornasse a situação de risco institucional. As inconsistências identificadas no projeto de violões, portanto, contradizem esforço anterior de institucionalização e transparência.

As perguntas que permanecem sem resposta

A investigação deixa questões objetivas que demandam documentação comprobatória: havia 300 violões ou 25 violões por doze meses? Se 300, onde estão os 300 alunos, os 300 registros de uso e as 300 entregas? Se eram 25, por que a proposta licitatória fala em 300 unidades? Onde está a documentação de entrega, lista de presença, registros fotográficos, comprovação de uso, termo de recebimento e controle patrimonial dos instrumentos?

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Por Ultima Hora em 10/05/2026
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