Férias escolares intensificam a pressão sobre as mães e podem impactar a saúde mental feminina

Especialista explica como a busca pela maternidade perfeita se torna ainda mais desafiadora durante o período de recesso escolar

Férias escolares intensificam a pressão sobre as mães e podem impactar a saúde mental feminina

As férias escolares costumam ser aguardadas pelas crianças como um período de descanso, diversão e convivência familiar. Para muitas mães, no entanto, a chegada desse período pode representar um aumento significativo da sobrecarga física e emocional.
 
Além dos desafios já presentes no dia a dia, como conciliar trabalho, tarefas domésticas e cuidados com os filhos, as férias trazem novas demandas. A necessidade de reorganizar a rotina, encontrar atividades para as crianças e lidar com a expectativa de proporcionar momentos especiais à família pode intensificar sentimentos de culpa, ansiedade e insuficiência.
 
Segundo a psicanalista Mônica Donetto, esse cenário está diretamente relacionado à pressão que muitas mulheres enfrentam para corresponder a um ideal de maternidade que, na prática, é impossível de alcançar.
 
“Existe uma cobrança silenciosa para que a mãe esteja sempre disponível, seja emocionalmente equilibrada, produtiva no trabalho e ainda proporcione experiências memoráveis aos filhos. Durante as férias escolares, essa pressão tende a se tornar ainda mais evidente”, explica.
 
A especialista destaca que as redes sociais também contribuem para esse processo. Ao acompanhar imagens de viagens, passeios e atividades idealizadas, muitas mulheres passam a comparar suas próprias realidades com padrões difíceis de sustentar, ampliando sentimentos de frustração e inadequação.
 
Outro fator importante é a culpa materna. Muitas mães relatam sofrimento por não conseguirem dedicar o tempo que gostariam aos filhos durante as férias, especialmente quando precisam manter suas atividades profissionais.
 
Para Mônica Donetto, é fundamental compreender que a qualidade da convivência familiar não está relacionada à perfeição ou à quantidade de atividades realizadas. “As crianças não precisam de mães perfeitas. Precisam de vínculos seguros, presença possível e relações construídas com afeto e autenticidade”, afirma.
 
A especialista ressalta ainda a importância do autocuidado e da construção de expectativas mais realistas para o período. Reconhecer limites, dividir responsabilidades e abandonar a busca pela perfeição são atitudes que podem contribuir para uma experiência mais saudável para toda a família.
 
SOBRE MÔNICA DONETTO:
 
Mônica Donetto: a escuta que transforma histórias familiares em caminhos de cuidado
 
Psicanalista, psicopedagoga, educadora e escritora, Mônica Donetto construiu uma trajetória profissional marcada pela escuta sensível das crianças, adolescentes e suas famílias. O olhar atento para as relações humanas, que hoje orienta sua prática clínica e sua produção literária, nasceu muito antes da vida acadêmica: teve origem na convivência com uma família grande, diversa e repleta de histórias.
 
Carioca, Mônica cresceu cercada por pais, irmão, tios, primos e avós cujas trajetórias atravessavam diferentes culturas e origens. Entre narrativas familiares que transitavam entre Brasil e Itália, raízes portuguesas e a herança negra de parte de sua família, desenvolveu desde cedo uma profunda curiosidade pelas pessoas e pelos caminhos que moldam cada existência.
 
A infância, no entanto, também foi marcada por desafios. Inserida precocemente no processo de alfabetização, enfrentou dificuldades de aprendizagem decorrentes da falta de maturidade cognitiva para aquele momento. A experiência trouxe consequências importantes para sua vida escolar, incluindo a reprovação na adolescência e o sentimento constante de não corresponder às expectativas impostas pelo ambiente ao seu redor.
 
"Por muito tempo fui a filha que dava trabalho, aquela que não se encaixava nos padrões esperados. Hoje entendo que essa vivência foi fundamental para a profissional que me tornei", reflete.
 
As dúvidas sobre o próprio caminho também estiveram presentes na escolha da carreira. Influenciada por familiares, chegou a ingressar em um curso que não dialogava com sua essência. Mais tarde, encontrou seu lugar ao cursar Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), unindo duas paixões que carregaria por toda a vida: a escrita e o interesse genuíno pelas pessoas.
 
Foi justamente a partir da própria história que Mônica se aproximou da Pedagogia. Durante a formação, encontrou uma figura decisiva em sua trajetória: a educadora Márcia Parga, que reconheceu sua capacidade de escuta e a incentivou a seguir um caminho voltado para a compreensão dos processos de aprendizagem.
 
A partir daí, aprofundou-se na Psicopedagogia e descobriu que as dificuldades escolares raramente podem ser compreendidas apenas pela ótica cognitiva. Para ela, aprender envolve um delicado equilíbrio entre cognição, relações afetivas e aspectos emocionais. Essa compreensão a conduziu naturalmente à Psicanálise.
 
Ao longo de décadas de atuação clínica, Mônica desenvolveu um trabalho que integra criança, família e escola. Sua experiência inclui a gestão de uma instituição de educação infantil e ensino fundamental, além de especializações em orientação vocacional — uma área que escolheu justamente por compreender, em sua própria história, os impactos das expectativas familiares nas decisões profissionais.
 
Sua prática clínica é sustentada pela convicção de que a aprendizagem nasce dos vínculos. Para Mônica, a criança não pode ser compreendida isoladamente, mas como sujeito atravessado pelas histórias, desejos, conflitos e afetos de sua família. Por isso, seu trabalho busca incluir pais e cuidadores no processo terapêutico, promovendo reflexões que favoreçam relações mais saudáveis e conscientes.
 
Um marco importante em sua trajetória foi a leitura do livro Fomos Maus Alunos, de Rubem Alves e Gilberto Dimenstein. A obra a inspirou a ressignificar a própria experiência escolar e compreender que dificuldades na infância não determinam o futuro de ninguém. A partir desse encontro, sentiu-se autorizada a compartilhar sua história como parte da construção de sua identidade profissional.
 
Nos últimos anos, Mônica também observa transformações significativas nas dinâmicas familiares. Entre elas, destaca a participação cada vez mais presente dos pais nos processos clínicos e educativos. Embora ainda considere esse movimento minoritário, enxerga nele um importante sinal de mudança cultural e uma esperança para as novas gerações.
 
Foi da escuta cotidiana de crianças, adolescentes, famílias e educadores que nasceu seu livro Em Nome do Pai, da Mãe e do Filho, cuja segunda edição chega ao público pela INM Editora. A obra propõe uma reflexão profunda sobre as funções de cuidado dentro das famílias contemporâneas, ultrapassando modelos tradicionais e dialogando com diferentes configurações familiares.
 
Inspirada nos conceitos do pediatra e psicanalista Donald Winnicott, Mônica aborda a importância da construção de um ambiente de sustentação emocional — o chamado holding — capaz de oferecer acolhimento, segurança e limites para o desenvolvimento saudável das crianças.
 
A nova edição foi completamente revisada e ampliada, trazendo capítulos reescritos e textos inéditos inspirados nas demandas que chegam diariamente ao consultório. Ansiedade parental, inseguranças na educação dos filhos, dificuldades na imposição de limites e os impactos das transformações sociais contemporâneas são alguns dos temas abordados.
 
Questões como a construção de limites com afeto, a diferença entre autoridade e autoritarismo, os efeitos do uso excessivo da tecnologia na infância, além dos riscos da patologização e da medicalização precoce das crianças, estão entre os assuntos que Mônica considera mais urgentes na atualidade.
 
Mais do que oferecer respostas prontas, o livro propõe um espaço de reflexão e acolhimento. Uma escrita profundamente atravessada pela experiência clínica e pela escuta de centenas de famílias ao longo dos anos.
 
Fora da vida profissional, Mônica é casada com Fernando, mãe de Fernanda e Luiz Fernando e avó de Aurora e Bernardo. Apaixonada por viagens, estudos, encontros com amigos e boas conversas, mantém viva a curiosidade pelas pessoas e pelas histórias que elas carregam.
 
Ao olhar para sua trajetória, Mônica resume o legado que deseja construir: ser lembrada como alguém que, por meio da escuta, do acolhimento e da orientação, contribuiu para tornar a vida de muitas famílias mais criativa, consciente e expansiva.
 
Rede Social:
@monicadonetto

Por Ultima Hora em 01/07/2026
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